O Brasil em chamas

Fogo. Um mundo que se acaba em chamas ardentes propagadas por atitudes humanas espalhadas sobre a sociedade feito gasolina, altamente inflamável. Destrói-se campos, matas, casas, pessoas, memórias e por fim a história transforma-se em pó. Assim assistimos o teto da nação desabar sobre nossas cabeças, que duras feito rocha, ou melhor, feito meteorito, resistem as pancadas e jamais modificam-se ou sequer se racham perante a degradação de um contexto completamente tomado pela combustão.
Em 2015 o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, sofreu um terrível incêndio que acabou com partes internas da instalação, além de destruir um acervo importantíssimo de objetos raros e um trabalho de pesquisa gigantesco. Uma vez mais o fogo consome o Museu Nacional do Brasil, no Rio de Janeiro, e vemos preciosidades da cultura brasileira, da evolução científica, patrimônio do mundo de incontáveis civilizações, da preservação de nossa própria história, tornando-se pilhas de entulhos queimados, como tem se tornado nossa pátria e nossa bandeira.
Parece o prenúncio do fim dos tempos, o fim do nosso tempo, do nosso país. Um tempo que nunca foi e parece que nunca virá; em que a sociedade não é perfeita, nem justa, nem ideal, nem honesta, mas também não é um barco completamente à deriva, um lugar sem rumo e sem saída, onde enfrentamos um problema pior do que a corrupção: a falta de respeito. Chegamos até aqui por um acúmulo de negligências que soma-se numa conta interminável e extremamente cara. Até quando vamos pagar por ela?
Eu gostaria que esse caos fosse um sinal dos deuses, um castigo como aqueles que nossos pais nos aplicavam quando éramos crianças, mas rapidamente aprendíamos a lição e tudo voltava a ficar bem. É mais confortável transferir a responsabilidade ao divino, como se fôssemos um bando de bebês que não sabem o que fazem. A verdade é que não apenas sabemos, somos coniventes com o descaso, somos a personificação do desdém para com a nossa realidade.
Na frase “isso é coisa de brasileiro” fazemos mais um exercício de transferência, como se eu e você não fizéssemos parte da nação, e o sujeito nessa oração, cuja identidade está perdida nos escombros, deva carregar um fardo maior que o nosso. É assim que nos livramos da nossa cultura, como o mundo tem se encarregado de se livrar de nós. É porque não conseguimos encontrar nossa identidade nesse emaranhado de Brasil que nos submetemos a esse processo de degradação e o aceitamos com normalidade.
Não é que o passado se perdeu, é que ele simplesmente não passou. O passado é o aqui e agora, num presente travestido em que apenas fingimos querer mudar, mas mantemos o Brasil estagnado no ponto de partida. Nós, brasileiros, somos o museu em chamas; evoluímos tão pouco que parece que nem saímos do lugar, nossa mente está se deteriorando com ideias antiquadas. Somos o museu em chamas uma vez que possuímos tanto conhecimento e escolhemos ignorar os aprendizados que adquirimos em séculos, séculos que moldaram o país ao redor, mas não mudaram nem um pouco a cabeça daqueles que o conduzem.
Depois que os pilares desabarem não adianta desejar reconstruir um passado que nunca sequer nos interessamos em conhecer, que nunca nos serviu de base para sustentar a concepção de uma nova era. Não é no futuro que precisamos nos concentrar e sim no que vamos fazer hoje para que esse momento ganhe uma nova percepção, e que nele sejamos mais conscientes, verdadeiros e agentes da transformação. Nós não temos uma saída de emergência, não adianta tentar se esquivar. Somos nós quem terá que empilhar tijolo por tijolo até que tudo esteja novamente sólido.
O Brasil está em chamas e o fogo que consome cada linha da nossa trajetória, cada pedaço do que fomos, consome também o que somos. É tempo de enxergar que as tragédias que nos afligem são reflexos de uma postura que não pode mais ser sustentada, parte dessa é renegar que aqui estamos e essa terra não frutificará sem que tenhamos calos nas mãos, sem deixar marcas.
Muito mais será perdido nas cinzas enquanto acreditarmos que merecemos as tragédias. A cada museu que morre, morre com ele uma parte visceral da humanidade.
A estrada coberta por fumaça desaparece em meio a névoa. Somos forçados a seguir com passos lentos, e a medida que avançamos nos perdemos no breu. Já não sabemos mais por onde passamos e nem para onde estamos indo. Estamos perdidos.
