A gente precisa de arte, que precisa de gente

A arte e, especialmente a música, é uma forma poderosa de conectar as pessoas. Ela liga o diferente e vai além, ela abraça o divergente sendo um veículo de sua expressão e identidade. Uma cena rica em arte cria seres humanos mais tolerantes, mais criativos, menos propensos a subserviência. Que enxergam formas mais humanas de lidar com si mesmo, com o outro e com o mundo.

Uma cidade que tem uma cena efervescente de arte torna-se uma cidade pensante, que discute plano diretor, que tem conselhos de cultura ativos e participativos, que tem frequente participação de cidadãos nas plenárias da Câmara.

Numa cidade assim você vai à feiras de arte, feiras de zine, shows, peças e apresentações de dança, performance e circo. A vida fica mais tolerável, divertida e dá força pra aguentar quedas de presidente, delações de Jótabêésses e Odebrechts.

Mas o que sustenta ou cria uma cena assim?

Essa pergunta tem várias respostas.

Em Sorocaba, por exemplo, temos um Sesc que participa da cena local. Uma Secretaria de Cultura aberta ao diálogo. Temos vários coletivos, temos produtoras de eventos, temos ótimos artistas, temos vários espaços para apresentações. Tudo isso é muito importante para uma cena. Mas não o mais importante.

Público. Esse é o ponto central desse texto.

Uma cena saudável tem público entusiasmado, que curte ir às apresentações dos artistas locais, que paga e sabe a importância de pagar entrada nos eventos, que vai a 3, 4 apresentações por mês, que compra camiseta, cd, bottom, adesivo, poster, que colabora com o Catarse da artista.

Essa cena sabe que a importância não mora só no suporte financeiro, mora também na doação de tempo, nas demonstrações de afeto. Muitos dos entusiastas da cena não tem dinheiro suficiente para ir a diversas apresentações, ou para participar de uma campanha de catarse. Nada disso o impede de dar like nas publicações, comentar, compartilhar, oferecer trabalho voluntário.

Essa participação ativa na economia da comunidade forma um público exigente, com referência ampliada pelas diversas vivências, shows e performances que passam pela cidade. O público passa a entender e distinguir uma apresentação feita com carinho, dedicação e esmero de uma apresentação molambenta. Isso joga a responsabilidade para os artistas. As bandas precisam gravar com qualidade cada vez maior e entregar bons shows. Ilustradores passam a ter que estudar e aprimorar suas técnicas. Fotógrafos precisam contar melhor suas histórias em fotos. A peça de teatro precisa colocar o público em estado de reflexão.

UMA ECONOMIA COMUNITÁRIA

Há diversos estudos sobre os benefícios de se consumir localmente. Do produtor de orgânicos à fabricante de bijuterias. De hamburguerias à costureira do bairro. O dinheiro produzido na comunidade volta para a comunidade ao invés de ir para McDonalds, Renners e outras mega cadeias.

Reconfigurar a nossa mente para consumir localmente leva tempo mas a recompensa é quase imediata. Empresas locais, não poucas vezes, pagam melhor e têm melhores condições de trabalho. É uma economia um pouco mais independente de fatores externos. Empresas e iniciativas que prosperam dentro da comunidade criam novos e melhores empregos.

Só pra exemplificar (novamente usando Sorocaba), mesmo estando longe do ideal, hoje conseguimos pagar fotógrafos para os eventos, técnicos de som e, se continuarmos progredindo, logo teremos técnicos iluminadores, cenógrafos, maquiadores, estilistas e uma série de outros trabalhos sendo remunerados somente na cadeia artística.

BORA SUPORTAR

Se você faz parte da sua cena e se identificou com as práticas acima, ótimo. Você é um pilar importante na construção de uma sociedade mais justa, divertida e economicamente viável. Caso contrário aqui vão algumas dicas:

Vá aos eventos. Pagar pra entrar é saudável, respeitoso e essa grana eventualmente volta pra você.

Compre Merchan. Camisetas, Cds, Bottoms, Posters, meia suja, camiseta suada, zine. Mostre pro artista que você gosta dele. Ele vai sentir que está fazendo algo importante pra alguém e de quebra você o ajuda a continuar produzindo.

Não tem dinheiro? Doe tempo! Compartilhe aquela campanha do Catarse, dê aquele like esperto, comente, siga no Instagram. Se ofereça como voluntário. O artista está participando de um concurso onde quem tiver mais like ganha, DÊ O LIKE SEU MISERÁVI.

Por outro lado é responsabilidade do artista construir um trabalho que faça o público ter vontade de doar seu tempo. É, também, de responsabilidade do artista, ir a apresentações de outros artistas, suportá-los, construir pontes e parcerias, participações. Estamos migrando do Faça Você Mesmo para o Façamos Juntos.

Por fim, fale daquela artista, daquele show, daquele evento pra um amigo, parente ou conhecido, tente trazer mais gente para a comunidade.

Pra mim, uma sociedade mais justa passa por uma sociedade com mais arte. Quando você ajuda a criar uma comunidade que gira em torno da arte, toda a sociedade ganha.

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