“[…]grant me the reason to accept things I cannot change.”

Estive pensando muito sobre como estou ensinando e como a escola, enquanto instituição, tem se comportado em relação aos alunos.

Sou professor do Ensino Fundamental I, meus alunos têm, no máximo, onze anos de idade. O mundo mudou radicalmente no decorrer das últimas décadas e muda cada vez mais rápido. Contra isso não podemos — e talvez não devêssemos nem tentar — lutar. Não há propósito em tentar barrar o curso natural das coisas, cabe-nos adaptar e por que não, mudarmos juntos?

A discussão sobre conteúdo fica para uma próxima, por agora prefiro conseguir pensar sobre quais têm sido as dificuldades que enfrento na tentativa de ensinar inglês na era digital. Competir contra um tablet me parece demasiado injusto. Competir contra Pokemon me parece impossível, eles são muito mais interessantes que eu, um professor.

Para direcionar meu foco de trabalho, eu precisei voltar no tempo e entender essas mudanças. Não posso pedir que vinte e cinco alunos me escutem, se eu não os ouvir primeiro. Estou em desvantagem nessa aventura e para isso, é preciso entender as diferenças que esse novo mundo nos presenteou.

Quando eu tinha dez anos, na TV eu assistia dois ratinhos que, com fórmulas matemáticas e muita explosão, queriam dominar o mundo. Eles repetiam essa tentativa diariamente. Decidi então perguntar a alguns alunos o que eles têm assistido nos momentos livres. Mais da metade dos nomes eu precisei anotar para conseguir me lembrar depois, o restante foram coisas que eu, com quase trinta anos, acompanho nos meus momentos livres. Isso me mostrou que a diferença de acesso a informação entre eu e meus professores 20 anos atrás é radicalmente diferente daquela que existe entre eu e meus alunos hoje.

Vamos agora focar naquela primeira parcela de coisas que eu não conhecia ainda. O incrível mundo de Gumball passa no Cartoon Network às 20h. Com papel e caneta na mão comecei a assistir o primeiro episódio que falava sobre amor. As coisas estão bem diferentes dos dois ratinhos de laboratório que sonhavam em conquistar o planeta a partir de planos minuciosos e contas matemáticas. Pequenos seres com corpo amorfo e vozes de adultos agem de maneira babaca e dão risada disso por onde passam. Demorei pelo menos 20 minutos para conseguir entender o que eu poderia tirar de proveito desse programa. Como eu disse, o tema era amor e de todas as palhaçadas e absurdos que as criaturas aprontavam — muitas bem semelhantes à aquelas que tenho tentado evitar em sala — eu notei que todas as formas de amor eram toleradas no desenho, todas as conformidades familiares eram aceitas a ponto de que isso não era o foco e nem era discutido. Era apresentado como normal. Ponto pro Gumball!

O que quero dizer com isso, é que há coisas que precisamos deixar de ver como um problema e passar a entender como um aliado. Somos professores. Somos educadores (apesar de muitas vezes não termos sido treinados para isso). Nosso papel não é mais dizer o que é certo e o que é errado. Há informação demais na ponta dos dedos (de todos) suficiente para que esses conceitos sejam trabalhados de dentro para fora. Nosso papel é oferecer um ponto de vista, uma proposta de postura com base naquilo que nossos anos a mais nos mostraram e nossos estudos apontaram.

Algo que aprendi nos meus anos como professor infantil é que hoje as crianças têm muito mais noção do seu potencial. Isso inibe a aceitação de limites e impõe que o professor se desdobre para que a autoridade seja linear e não pontual. Aprendi também que o exemplo ensina mais que a ordem. E por fim, que a solicitação precisa estar sempre acompanhada da preparação da resposta “por quê”? Se a razão do nosso pedido em sala de aula não estiver clara na nossa mente, muito difícil vai ser conseguir transmitir isso de forma eficaz para as vinte e cinco cabeças altamente pensantes na nossa frente.

Nesse momento meu pensamento cruza com a linha tênue que existe entre maturidade e todo esse acesso a informação. Uma coisa não está necessariamente ligada à outra. Cobrar que exista maturidade em uma turma de quinto ano, por exemplo, precisa estar atrelado a uma interpretação justa daquilo a que os alunos estão expostos. Acredito que o caminho para isso seja muito mais pelo lado da parceria do que da ordem. É entender os gostos e a realidade em que estão e saber que isso tudo é distante das nossas próprias experiências pessoais. É mais difícil conseguir silêncio na sala de aula hoje, mas também é mais enriquecedora essa tentativa a ponto de descobrirmos coisas a nosso respeito quando nos permitimos fazer parte da mudança a qual me referi no início do texto.

A sala de aula reflete problemas da sociedade, da família e da vida de vinte e cinco personalidades diferentes e em formação. É uma análise constante da tentativa de evitar julgamentos e sugerir que o potencial das crianças seja direcionado para o poder que há em dois pilares importantíssimos dessa mesma sociedade: Pensar e argumentar.