— Diálogo

Fernando Ito & Pianofuzz

UAL :: University of the Arts London, Camberwell College of Arts


Temas:
Cotidiano do Estúdio, Filosofia de Trabalho, Oficinas,
Design Cultural, Referência & Identidade Nacional no design.

No início de fevereiro, o estúdio foi convidado pelo estudante Fernando Ito para participar de uma etapa da sua dissertação. Fernando, que é estudante do curso de design gráfico na UEL (Universidade Estadual de Londrina), durante este ano, está estudando na University of the Arts London (Camberwell College of Arts) através do programa Ciência sem Fronteiras.

Fernando Ito, estudante de design gráfico UEL

A conversa pontuou alguns projetos do estúdio, filosofia de trabalho e, também, a nossa opinião sobre questões que dizem respeito à identidade brasileira no design gráfico. Em resumo, podemos dizer que estamos em constante construção e, desta forma, não podemos negar um ponto de vista histórico da vida. No entanto, este diálogo serve para colocar algumas reflexões nesta concepção, que é inacabada por natureza.

Depoimentos de alunos e professores sobre a universidade.

A entrevista foi feita por e-mail durante os meses de março e abril de 2015.

1. Quais projetos foram mais relevantes para o desenvolvimento e evolução do estúdio? Por que?

Todos os projetos desenvolvidos, de alguma forma, auxiliaram na construção do nosso aprendizado dentro da profissão. Aprendemos com todos e, por isso, cada um tem a sua relevância dentro da nossa história.

Cartaz FILO 2014, Pianofuzz — Veja o projeto

De qualquer maneira, se for para apontar um segmento que nos atrai, posso dizer que são os projetos ligados à produção cultural e artística. Neste sentido, posso citar os projetos para o FILO. O Festival Internacional de Londrina tem uma relevância histórica grande para a nossa cidade. O FILO é o festival de teatro mais antigo do Brasil, um dos mais antigos da América Latina e sua importância histórica é inegável. Desenvolver um projeto gráfico, um pensamento ou um conceito para o festival extrapola a relação puramente comercial, ganhando sempre novas “cores” e sentidos.

2. Com o tumblr B-side, se tem uma ideia das referências do estúdio. Mas mais especificamente, que designers são referência para o Pianofuzz?

Respeitamos o design como filosofia modernista, da mesma forma que admiramos os designers e os movimentos que romperam e evoluíram este pensamento. Como referência internacional, posso citar: Wim Crouwel, Experimental Jetset, Hort, Milton Glaser, Paul Rand, Hans Hillman, Maximo Vignelli, Tibor Kalman, Paula Scher, Studio Dumbar, Push Pin Studios, entre muitos outros.

E os brasileiros: Rogério Duarte, Goebel Weyne, Aloisio Magalhães, Alexandre Wollner, Rubens Martins e Geraldo de Barros (Forminform), Guto Lacaz, Rico Lins, Casa Rex, Kiko Farkas. Existem outros também, mas estes são os principais.

3. No documentário sobre o estúdio, gravado em 2011, um pouco do processo de criação é revelado. Briefing, Brainstorm… e que todos no estúdio participam de todos os projetos. Estamos em 2015, o estúdio se tornou mais conhecido e possui mais integrantes. Gostaria de saber o que mudou.

Bom, de lá pra cá mudamos o endereço do estúdio, agora estamos em uma sala um pouco maior. Nossa equipe aumentou também, estamos em seis integrantes. Imagino que estamos perto do limite de profissionais no estúdio, pois nosso pensamento é manter uma estrutura pequena e enxuta.

Existem coisas que são essenciais para nós, ou seja, alguns atributos são imutáveis e estão ligados à nossa forma de ver o mundo. O processo coletivo é uma delas. É algo difícil de construir no dia a dia de maneira organizada; mas, com o tempo, encontramos formas para que esta questão seja realizada de maneira natural e dentro do cotidiano do estúdio.

A mesma coisa acontece com a nossa produção autoral. Sempre produzimos de maneira aleatória e agora queremos olhar para isso com mais carinho e organização. Somos um estúdio novo ainda, temos muita coisa para aprender, mas com esse pequeno tempo de estrada já dá para ter uma percepção melhor de como as coisas acontecem e de como gostaríamos de interferir no nosso destino.

4. Poderiam falar um pouco sobre o workshop Intonarumori?
O que os incentivou a criá-lo e se ele cumpriu as suas expectativas.

A oficina Intonarumori nasceu da vontade de criar uma metodologia experimental, que tivesse a inspiração no processo sinestésico do cérebro. O objetivo central é trabalhar o cruzamento de sensações para gerar uma imagem partindo de um ruído sonoro.

Intonarumori#2 Londrina–2014, UEL, Universidade Estadual de Londrina

Tivemos a oportunidade de fazer duas até agora e a experiência foi surpreendente. Queremos fazer mais e estamos evoluindo alguns pensamentos para uma próxima oportunidade. A ideia é deixar a formação mais horizontal, criando um ambiente de aprendizagem com a troca de conhecimentos e experiências. O lema da oficina é: “Experimentar o experimental.” uma frase do poeta *Wally Salomão.

Intonarumori #1 – Cursos/Ideafixa, São Paulo, 2013: Experimentos gráficos
Intonarumori #2: Técnica de cliché verre e fotocópia

*Wally Dias Salomão
03 de setembro de 1943
05 de maio de 2003

Foi um poeta, compositor e escritor brasileiro. Ele nasceu em Jequié, Bahia. Wally Salomão atuou em várias áreas na produção cultural brasileira.

5. Muito se fala que o Design brasileiro não tem sua própria identidade pelo fato de ser um país colonizado e que sempre olhou tendências exteriores. Qual a opinião de vocês sobre isso?

Para entender e refletir sobre produção de uma identidade brasileira no design, acho que não podemos olhar, em um primeiro momento, para o design propriamente dito. Vejo o design com o produto de um pensamento de um determinado tempo, por isso, analisar a literatura social de Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, entre outros, ajuda a entender a história do Brasil e, também, que tipo de ser humano foi forjado aqui neste território.

Entender o processo de colonização é uma forma também de não ter vergonha da nossa história, pois, neste processo, a vergonha deve estar ao lado de quem explorou e destruiu uma civilização que já estava aqui, ou seja, a dívida está com quem impôs os costumes e práticas vindas do mundo “civilizado”.

Florestan Fernande & Darcy Ribeiro: Literatura social brasileira

O Manifesto Antropofágico, o Manifesto Pau-Brasil, o Cinema Novo e a Tropicália são movimentos que pensam o Brasil de maneira interessante, revolucionária e a partir de uma matriz popular. Que eu saiba, nunca tivemos um manifesto com esta intensidade para o design brasileiro. Talvez, isso seja uma papel da nossa geração. Agora, dizer que o design brasileiro não tem característica é conversa de quem não conhece a produção nacional. Na minha opinião, quando o design é lembrado dentro de uma produção cultural de um determinado país, ele atinge um outro nível, virando um ícone cultural. Se analisarmos a quantidade de cartazes, capa de disco, capa de livro, identidade visual, materiais gráficos diversos que já viraram ícones da nossa cultura, veremos a cara do design brasileiro e a sua importância cultural.

Para citar um símbolo do design brasileiro, coloco por exemplo o cartaz do filme de Glauber Rocha “Deus e o Diabo na Terra do sol”. O cartaz projetado por Rogério Duarte, traz como diagramação um esquema que lembra o design internacional, ou até o design holandês, por sua escolha tipográfica e de diagramação de espaço; mas, ele subverte isso ao colocar a foto de um cangaceiro, figura da cultura nordestina no centro do cartaz. Isso é o Brasil, essa desconstrução do que vem de fora para uma reconstrução da linguagem que vem de dentro.

Isso não significa que devemos nos fechar em busca de uma identidade brasileira pura, pelo contrário, a mistura, o híbrido, o antagônico é uma linguagem nossa, por isso, o contato com a produção internacional é alimento e produto do nosso design. O designer brasileiro deve produzir olhando o mundo inteiro — a história da arte, do design mundial, as manifestações culturais, sociais e também as contradições de se viver em um país como o Brasil. Estas interrelações estéticas se transformarão em um pensamento e o design é isso, em essência, um pensamento, um pensamento humano legítimo.

6. Poderiam falar um pouco do processo de criação do projeto FILO 2011, assim como os conceitos trabalhados?

Nas primeiras reuniões com a equipe do Festival, o conceito de diversidade foi apresentado a nós como o tema principal da edição. A ideia do estúdio era explorar este conceito de maneira abstrata, para fugir dos clichês a que este tema normalmente direciona.

Assim, chegamos na ideia de trabalhar com várias texturas orgânicas como matriz das formas e desenhos. Quando falo orgânica não é no sentido do traço em si, mas de texturas baseadas em produto orgânico mesmo, como por exemplo, escanear frutas e casca de frutas em alta resolução para gerar imagens abstratas. Em contraponto a estes elementos, na composição final do cartaz, criamos algumas formas geométricas triangulares dentro de uma construção de colagem entre figura e fundo. Em um segundo momento, e de maneira sutil, tem-se a leitura da palavra FILO.

7. Como os projetos para o FILO se diferem de projetos que não possuem esta ‘pegada cultural’, em relação ao processo e à conceituação?

Projetos culturais respondem a anseios do próprio projeto e do nosso como criadores. É como se o resultado desses projetos criasse a satisfação de algo maior e fora da questão comercial em si. Projetos que não tem esta “pegada”, às vezes, criam esta satisfação também, porém, é mais difícil. A necessidade de vender, divulgar e apresentar algo que está dentro da lógica do mercado dificulta certas radicalidades de linguagem — o medo de não vender cria barreiras conceituais para os projetos, pois a tendência do mercado é enquadrar, rotular e definir um público para o seu produto. Isso pode ser um limitador em um primeiro momento. Talvez, um dos papeis do designer seja equilibrar isso, se assim achar interessante.

Resumindo o pensamento, projetos comerciais precisam atender certas demandas de mercado, os processo e as metodologias serão outras no sentido de tentar respeitar este fim. Por outro lado, dentro de uma visão ideal do design, acredito que quanto menos dependente de público e de “certezas” de venda de algum produto especifico, essa resposta estiver, mais interessante fica o resultado final. Desta forma, se conseguir quebrar esta barreira, ele mesmo torna-se um produto cultural. Quando falo isso estou pensando em projetos atemporais e com um significado muito maior que a própria marca, na minha opinião. Exemplos disso são os anúncios da Benetton feitos por Tibor Kalman e os projetos de design gráfico da Pirelli, feitos pelos designers Franco Grignani e Alan Fletcher.

United Colors of Benetton / Oliviero Toscani & Tibor Kalman
Pirelli / Franco Grignani
Pirelli / Alan Fletcher
8.Gostaria que falassem um pouco do processo e conceitos do cartaz desenvolvido para o projeto 60 Anos: Artigas. Qual foi a importância deste projeto?

O arquiteto Vilanova Artigas é considerado um dos principais nomes da história da arquitetura brasileira, seja pelo conjunto de sua obra realizada, seja pela importância que teve na formação de toda uma geração de arquitetos.

Em 2012, o prédio que atualmente é o Museu de Arte de Londrina completou 60 anos e fomos convidados para produzir uma gravura serigráfica que pensasse o edifício e o seu arquiteto, Vilanova Artigas, sob uma perspectiva contemporânea.

O seu significado histórico e cultural, o contexto atual e o contato com a população que, diariamente, transita por seu entorno, foram os conceitos que nortearam o estúdio no desenvolvimento da gravura.

Em um primeiro momento, procuramos na documentação da época a opinião do próprio arquiteto sobre a obra. Na etapa seguinte, fizemos um levantamento fotográfico do edifício.

O prédio, que serviu como estação rodoviária de 1952 até 1988, foi tombado pelo patrimônio histórico do Paraná em 1974 e, em 1993, iniciou as atividades como museu. Foi importante participar desta reflexão sobre o espaço público, histórico e cultural da cidade.

Vilanova Artigas, Pianofuzz — Veja o projeto
9. Os meus tutores, ao se depararem com os projetos desenvolvidos pelo estúdio, disseram que, por algum motivo e sem saber explicar, eles identificam uma certa brasilidade. Que características vocês acreditam que podem ter levado a essa conclusão?

É uma percepção interessante, Fernando. Fico contente porque é algo natural. Ou seja, se esta brasilidade aparece é porque devem estar percebendo uma expressão espontânea do estúdio.

Desta maneira, fica muito difícil dizer quais atributos ajudam nesta percepção. Admiramos o design brasileiro, mas também o design alemão, italiano, francês, cubano, holandês, japonês, enfim, a estética do design internacional nos atrai muito, porque sintetiza um pensamento humano e global.

Uma pista para esta percepção pode estar ligada ao que consumimos culturalmente. Como disse na questão acima, somos seduzidos por movimentos brasileiros que, de alguma forma, pensaram o nosso país como uma utopia, uma proposta para um novo mundo e um novo homem. Esse pode ser um caminho; mas, por ser extremamente complexo definir isso, não me arriscaria a tentar neste momento.

* * *

Obrigado Fernando pela conversa e oportunidade de nos fazer refletir.

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