O futebol começa na base

O Brasil é conhecido como o país do futebol. Tanto por sua história, quanto pelos seus jogadores que surgiram e fizeram sucesso mundo a fora. Mas de onde esses atletas vêm? Como é a preparação dos clubes para ajudar no desenvolvimento desses jogadores?

Categorias de base do Sport Club Internacional

Uma das equipes que mais utiliza jogadores vindo de suas categorias de base é o Inter. Em 2016, o clube foi o que mais inseriu atletas para disputar o Campeonato Brasileiro. Foram 16 no total. Além disso, revelou para as outras equipes mais de 15 jogadores. Porém, nem sempre apostar nesses jogadores funciona.

O Inter foi rebaixado para série B em 2016 e para retornar a classe alta do Campeonato Brasileiro, o time reformulou sua estrutura na base, cortou muitos jovens que faziam parte da categoria sub 20, trouxe outros para a capital e está experimentando estratégias para que estes sejam utilizados corretamente a benefício do time.

O grupo de transição

Para que as categorias de base funcionem é importante que a direção esteja ligada aos seus atletas e consiga suprir todas as necessidades deles. Na esperança de melhorar a qualidade, o Inter trouxe de volta duas figuras já conhecidas para o comando desses garotos. Em abril de 2016, o ex jogador do clube, Pedro Iarley assumiu a coordenação das categorias de base. E em dezembro do mesmo ano, Diego Cabrera, que já havia trabalhado por 6 anos no Inter e estava na base do São Paulo, retornou como diretor de base. Juntos cortaram mais de 20 jogadores e organizaram o chamado “grupo de transição”. Segundo Iarley, o grupo é o mais próximo do profissional. É onde acontece um trabalho mais minucioso para detectar as deficiências dos atletas. O objetivo é que os jogadores cheguem preparados na equipe principal.

Pressão

Diante da situação que vive o Inter, disputando pela primeira vez a série B e apresentando um trabalho duvidoso, “não tremer” é uma tarefa difícil para esses jovens atletas que estão iniciando a sua carreira profissional. Dentro das apostas para 2017 estavam cinco nomes: Diego, vindo da Portuguesa, contratado no fim do ano passado; Léo Ortiz, capitão nas categorias de base; Iago; Charles e Marcinho, que acabou sendo emprestado para o Brasil de Pelotas. Desses nomes, poucos caíram na graça da torcida. O mais criticado é Léo Ortiz, que inclusive teve que ser protegido por seus companheiros no final do jogo contra o Palmeiras pela Copa do Brasil, quando um torcedor invadiu o campo para agredi-lo, precisando ser contido pelos seguranças da partida, para evitar confusão maior.

Segundo Cléber Xavier, auxiliar técnico de Tite na seleção, o ponto mais importante para que esses jogadores subam para o profissional e não haja decepções é um sistema organizacional e político dentro do clube. “É preciso fazer um planejamento para que o atleta venha se desenvolvendo e atinja a equipe principal com maturidade. A cobrança para que esse menino, que recém chegou no profissional, não erre, é muito grande. Então não pode ser qualquer um a estar por trás da direção desses clubes. Tem que ser alguém que entenda o que deve ser feito”, diz ele.

Psicológico

Para que o planejamento obtenha sucesso, a rotina de trabalho é intensa. O grupo de transição do Inter segue uma linha de treinos e usufrui de uma estrutura completa. No CT da Morada dos Quero-Quero, em Alvorada, há alojamento, refeitório, academia, departamento médico, psicólogos, tudo a disposição para seus atletas.

Iarley entende a importância de bons profissionais trabalhando o emocional desses meninos: “O papel do psicólogo é fundamental nessa fase de mudança para os jovens que vestem a camisa do clube. Muitas vezes é o sonho deles vestir a camisa do Inter, pois suas famílias são torcedoras do clube e eles querem dar um futuro melhor para as pessoas que amam, além de almejar desde cedo sua carreira profissional no futebol”.

Mídia e torcida

Depois que esses jogadores sobem ao time profissional, o caminho não tem mais volta. “Quando eles jogam por trinta, quarenta e cinco minutos, eles estão mostrando o trabalho que fizeram durante toda a vida” diz Iarley.

As rotinas dos jogadores mudam e passa a ser trabalhada com muito mais profissionais envolvidos e com exames rotineiros para avaliar seu corpo. Sua imagem aparece constantemente na mídia, eles passam a ser reconhecidos fora de campo. Isso, porém, não pode subir à cabeça.

“Eles precisam saber que a vitória e a performance são boas para o coletivo, beneficia a todos. E a opinião da torcida é volúvel e vai depender do trabalho que for feito, então eles devem se blindar tanto de elogios quanto de críticas” diz Eduardo Cillo, psicólogo do esporte.

Boas influências

Nesse quesito, o jogador do Inter não pode se queixar. Além de ter no elenco atletas que foram campeões, como D’Alessandro, o coordenador das categorias de base serve de exemplo. Iarley conquistou o mundo! Foi ele quem deu a assistência para que Adriano Gabiru fizesse o gol em cima do Barcelona na final do Mundial.

Em entrevista, Iarley contou que se sente emocionado por ver o reconhecimento que tem. “Quando mostro um passe, uma maneira de executar um chute, a postura ideal, eles se mantêm atentos. Pelo fato de eu ter jogado em alto rendimento, a explicação é simples. Eles assimilam mais rápido. Sinto que sou bem quisto por eles. Pedem para que eu acompanhe seus treinamentos e nem sempre é possível, então eles me cobram. As vezes sou chato com eles. Pego no pé, repito alguns gestos. Não quero o mal deles. É uma recompensa ver meninos que nem o Charles, Juan, integrando o grupo. Dá prazer” diz.

Tentações

Porém, muitos se perdem e não consegue completar o caminho até o profissional. Normalmente, quando o jogador integra o grupo de transição, o clube renova seu contrato e, com isso, seus ganhos são muito maiores financeiramente. É normal que esse atleta passe a ter contato com um mundo diferente. Surgem pessoas, mulheres, festas, carros, bebida, luxo e noites. Para o psicólogo Eduardo, o ideal é um acompanhamento permanente desses jogadores, mesmo quando chegarem ao profissional. Tudo isso é fácil para que eles obtenham, a qualquer momento. Principalmente, quando o jogador já não mora mais no alojamento. O Inter por exemplo, afastou duas promessas de sua base devido a mau comportamento: Raphinha, lateral e Leandro, atacante. Ambos, que já haviam sido emprestados outras vezes devido à indisciplina, eram constantemente vistos em festas e, hoje, não fazem mais parte da equipe.

Eduardo explica em entrevista que é fácil entender porque acontece constantemente problemas de indisciplina e porquê jogadores se deixam levar por este caminho. “A maioria vem de origem menos privilegiada e tem expectativa de ascensão. A medida que vão conseguindo, possuem acesso à coisas que não tinham. É preciso aconselhar o jogador que ele chegou lá se esforçando, focado nos treinos e que, se ele deixar de fazer isso, ele pode jogar precocemente tudo por água abaixo. Se você consegue fazer um trabalho competente desde a base, você antecipa para ele que isso vai acontecer.”

O caminho até a Seleção Brasileira

O sonho de todos, claro, é desempenhar o seu melhor e chegar até a seleção. Geferson Teles, formado nas categorias de base do Inter e promovido a lateral do time profissional depois de ser campeão brasileiro sub-20, foi convocado por Dunga para vestir a amarelinha. Para ele, nunca faltou estrutura no Inter e os profissionais são capacitados o suficiente para produzir bons jogadores. Cléber Xavier revela que ele e Tite estão sempre de olho em jogadores que possam contribuir a seleção brasileira.

“O Inter sempre fez um grande trabalho em sua base. Inclusive, no título do mundial, atletas participaram da conquista no mesmo, ano que tinham participado do time B. É o caso do Pato e do Luiz Adriano. Eu e o Tite sempre acompanhamos, porque eu vim da base. Quando eu conheci o Tite em 2001, eu já tinha trabalhado 8 anos na base do Inter e já estava a 6 na base do Grêmio. Então, no nosso trabalho, a gente sempre tem acompanhado, sempre tem ido à campo observar os atletas, conversado com os treinadores e profissionais que trabalham com eles. Procuramos saber como vai o andamento das bases. Isso não pode ser de outra maneira” conta.

Portanto, para que os jogadores em melhores rendimentos no futebol continuem surgindo, todas essas etapas precisam ser trabalhadas e levadas a sério desde o início da carreira.

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