Poesia e Resistência marcam o Sarau do Capão

Projeto foi tema de uma das palestras do 11º Simpósio de Comunicação da Fapcom

Guilherme
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Aug 31, 2018 · 5 min read
Gabi (ao centro) é uma das organizadoras do Sarau do Capão e docente da FAPCOM. Foto: Lucas Lima

Por Guilherme Pinheiro

Integração, resistência e autonomia são alguns dos lemas do Sarau do Capão, evento semestral que reúne jovens na unidade a Capão Redondo das Fábricas de Cultura, na Zona Sul de São Paulo, para se expressarem através da arte. Com menos de oito meses de resistência, o Projeto já reúne entre 100 e 150 pessoas em cada edição para falar entre tantas coisas sobre os problemas da vida de quem vive na quebrada.

Aluna de Relações Públicas da FAPCOM e uma das organizadores do Sarau, Gabriela Nascimento considera os encontros como um grande sucesso desde já pela capacidade de relacionar a comunidade com a arte, que por vezes pode parecer distantes dos jovens da periferia, assumindo aspectos elitistas e excludente. “É importante primeiramente pelo retorno que traz. É muito incrível mesmo que a gente, enquanto organizador, possa ver pessoas escrevendo, pessoas que às vezes não tinham mesmo essa habilidade de se expressar — talvez nem mesmo habilidade, mas um conhecimento de como se expressar. Quando a gente vê as pessoas falando o que elas querem falar, se expressando e vendo que isso traz mudança. Acho que isso é o principal, sabe. Você conhece a rotina daquele lugar, daquele grupo, e sabe quais são as opressões vividas por eles. Você sabe que enquanto mulher, preta, periférica você tem muitas vivências. Quando você coloca isso por meio da arte, para pessoa escrever, sendo algo totalmente dela, e onde nada vai estar errado, você perceber que é só expressão. Se quiser falar, você fala”.

Outra característica apontada por ela como essencial para as reuniões é o respeito mútuo entre os participantes. “É um lugar para quando você não tem espaço. Nada vai estar errado, ninguém vai te julgar. Muitas desses temas transversais [e debatidos durante as apresentações] são considerados mimimi. Ali não. Todo mundo sofre o mesmo, com as pessoas falando que é mimimi quando falamos essas coisas. Lá a gente realmente entende e tenta desconstruir isso. “Que mimimi é esse?”, sabe? “Por que nossa voz para lá não é ouvida?” Esse espaço é a gente que faz, a gente que constrói, e quando a gente se reúne é tudo diferente”, comenta.

Confira como foi o bate-papo:

Tomando como base o poder da literatura marginal, ela também comemora a forma como os encontros ajudam a dar autonomia para a população de seu bairro. “Somos a voz da periferia”, mas não exatamente isso, porque na verdade a gente a voz. É importante quando chega esse momento porque é só aí que a gente consegue ouvir mesmo a pessoa. Lá no sarau ficamos todos sentados em círculo e a pessoa recitando. Você pega uma fase ruim da sua vida e vai recitar naquele momento na frente de um monte de gente que você nem conhece. É muita intimidade sabe? Mesmo que a gente não se conhece, nós estamos ligados por alguma coisa. Com a arte de rua nós falamos muito sobre autonomia, sobre pessoas que fazem e constroem mesmo sem serem escritores, mesmo sem ser pintores. A pessoa tem vontade de escrever então ela já é escritora”, vibra.

As múltiplas possibilidades apresentadas por conta expressão artística são também importantes para a jovem. Uma delas é o sentimento de pertencimento enquanto morador de uma favela. “A gente também fala sobre não exatamente morar na quebrada, mas ser da quebrada, se pertencer. A pessoa toma noção desse espaço que é dela, dos privilégios e acessos que não tem e ela também dialoga em outro sentido com o próprio ambiente”, diz. “A gente desconstrói bastante isso. Por que para gente é tão difícil chegar no centro? Tudo isso é uma questão de direito ao acesso. Nossa ideia é desmistificar essa visão de que a quebrada é estigmatizada, que é calvário. Não é assim. Se a gente tá aqui, vamos fazer aqui”, conclui.

Reprodução: Facebook

“A ideia do Sarau do Capão é ser no Capão. A gente tava brincando que poderia ser em outro lugar, mas não. O Sarau acontece no Capão porque é para essa galera. A gente vai em outros lugares, como viemos na faculdade, que são no centro, para falar, mas a edição vai acontecer no lugar de origem. E é importante frisar isso, de quanto a sensação de pertencimento faz sentido. Então quando a gente saí da nossa quebrada a e vai para outros lugares temos outras ofertas culturais. Lá a gente tem bastante coisa, mas não é todo mundo que conhecia uma poesia, um rap que fala exatamente da nossa vivência. Faz muito mais sentido pela questão do pertencimento. A gente vai no MASP, por exemplo. Mas só vamos na parte de baixo para poder fazer poesia, porque a gente se identifica mais com a parte de baixo. E porque ainda sim a parte de cima ela tá aberta e tá lá, mas é “tirada” da gente um pouco porque não é todo mundo que sabe que pode entrar, sabe como funciona ou mesmo o que vai ver lá. Será que aquele quadro vai fazer sentido para mim? Será que vai fazer sentido?”, conta ela, se referindo a palestra ministrada por ela no 11º Simpósio de Comunicação da Fapcom.

Por fim, Gabriela comemora as possibilidades de acesso que teve durante a vida e como isso foi importante não só para ela, como também para seus colegas de vizinhança. “Tem uma frase bem bacana que é ‘Não volte de mão e nem de mente vazia’. Então se a gente vem para a faculdade, estamos acessando um espaço diferente, que a gente sabe que não são os nossos que estão aqui, mas nós estando aqui já é alguma coisa. Então aos poucos vamos trazendo todo mundo para cá. Eu gosto muito de uma frase que o Emicida falou que é “vou fazer com a Fashion Week o mesmo que fizeram com a cadeia. Vou encher de preto”. E é exatamente isso. Levar e ocupar esses espaços”, finaliza.

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