Relógio

Rodopio eternamente sem cansar.
Numa rotina circular me ponho a apontar.
Aqueles que por sua vez para trás se deixarem ficar.
Minha maré de números os irão empurrar.

A explosão meu nascimento marcou.
Uma maratona sem fim assim se originou.
Muitos atletas nesta arena já passaram.
Ínfimas fardas de glória já gozaram.

No Século 18, em bem material me tornei.
Ferro, elemento químico abracei.
Engenho de quem fazia vida este ofício.
Resultado de amor, arte e sacrifício.

Meu pai eventualmente parou de correr.
Sem poder travar, vi seu corpo desaparecer.
Abandonado na cova de sua roupa fui enterrado.
Apenas na industrialização fui encontrado.

Fui adotado por trabalhador explorado.
Face ao meu tempo, seu rosto bem mais desgastado.
Bebi todo o seu suor, inalei toda a poeira.
Minhas hastes testemunharam mais uma caveira.

Mergulhei de volta na lama.
Durante anos dela fiz cama.
Certo dia, senti batimento inquietante…
Minha oscilação falou de comoção:
Será a minha salvação?

Soldado escarafunchava a terra numa respiração controlada.
O meu pulsar era abafado por uma festa que me espantava.
Faíscas ao longe se viam, de perto a terra estalava.
Corda que me acompanhava, no objecto que emitia som acabou atada.

Irmão metálico, para uma vala fomos levados.
Fumos cromáticos por mim avistados.
Gemidos lembram-me o silêncio perdido.
Ponteiros apenas já focam os desaparecidos, mais um sumido…

Manto verde devagar, vai-se alastrando.
meu bem precioso gostosamente vai devorando.
Ramo temporal que até ao momento cantava,
Agora doente fatalmente suspirava.