Bolsonaro e Trump brincam com o clima do planeta

COP 24 começa com negaciosismo de Trump e sinais ruins emitidos pelo futuro governo Bolsonaro

O mundo olha com atenção para essa dupla

Duas notícias chamaram a atenção no primeiro dia da 24ª Conferência das Partes, a reunião anual das Nações Unidas sobre o clima, sediada em Katowice (Polônia). A primeira delas é que o presidente americano Donald Trump desacreditou um relatório de 1656 páginas sobre os efeitos das mudanças climáticas nos EUA com duas palavras: “Não acredito”.

No catatau, respaldado por 300 cientistas de 13 agências do governo dos EUA, cálculos provam o efeito das mudanças climáticas sobre o país. Segundo os cientistas, só nos EUA, esses efeitos vão custar US$ 400 bilhões. Ironia: o relatório é uma exigência legal… do governo norte-americano. Ainda nessa semana, Trump usou seu porta-voz preferido, o Twitter, para comentar a onda de frio que assola a costa leste do país: “Cadê o aquecimento global? ”.

Douglas Brinkley, historiador presidencial na Universidade Rice, disse ao The New York Times que a Casa Branca tem “advogados e especialistas que não estão dispostos a entrarem para a história por falsear dados”. Certamente são pessoas com noção de que a História e a Natureza cobram a fatura — e os juros costumam ser altos.

“A mudança climática está transformando onde e como vivemos e representa um desafio para a saúde pública, qualidade de vida, economia e sistemas naturais. Projeta-se que os prejuízos anuais em alguns setores da economia sejam contados na casa das centenas de bilhões de dólares. O aumento do nível do mar deixará as áreas costeiras vulneráveis, por causa das tempestades e porque sofrerão desvalorização imobiliária. Lugares como o Alasca e a Louisiana serão obrigados a transferir sua população devido ao risco de inundações”, diz o relatório.

Já seu colega brasileiro, Jair Bolsonaro, por meio do Ministério das Relações Exteriores, anunciou que o Brasil desistiu de sediar a COP-25, reunião da ONU sobre o clima, em 2019. O governo alegou “restrições orçamentárias” para declinar do combinado. Há um rodízio entre os continentes para hospedar a reunião das Nações Unidas sobre o tema.

Não bastasse isso, a COP-24, iniciada nesta quarta na Polônia, começa com a ameaça de aumento do desmatamento sob o governo Bolsonaro. Especialistas brasileiros estimam que a devastação da Amazônia pode triplicar na gestão do capitão do Exército. Não há sequer como avaliar os efeitos disso sobre os efeitos do clima no Brasil — e no mundo.

Bolsonaro já deu sinais de desconfiança sobre o sistema de negociação multilateral da ONU e ameaçou retirar o Brasil do Acordo de Paris. Assinado em 2017, na COP 23, o acordo juntou todos os países do globo sob o mesmo guarda-chuva: cada país tem metas climáticas a cumprir para evitar a elevação da temperatura da Terra até 2100.

Também os filhos do presidente oscilam entre o ceticismo e o negacionismo em relação ao efeito humano sobre o clima do planeta. O futuro chanceler, Ernesto Araújo, faz ainda pior: vê nuances de “marxismo” no assunto. Deve supor que os termômetros e outros instrumentos usados pelos cientistas mundo afora são ideológicos. A fumaça que vem do futuro governo Bolsonaro não cheira bem.

Sediar um evento dessa monta custa US$ 100 milhões. Não é pouco dinheiro para um país “com o pires na mão”. Mas não justifica. Só na última década, a Polônia sediou a COP três vezes. O Brasil já sentou 10 vezes na cadeira de membro temporário do Conselho de Segurança da entidade e sempre foi vanguarda do ambientalismo. O governo Bolsonaro deixa claro com recusa em sediar a COP 25 é a dificuldade no tema. Com a diferença que o Brasil não tem o poder de barganha dos EUA no cenário político internacional.