“A gente tem um jornalismo que não discute o que leva à violência. Apenas nos faz sentir medo’’


Projeto de Pesquisa desenvolvido na Universidade analisa a maneira como as notícias sobre violência de jovens e adolescentes são narradas.

Todos os dias, em todo tipo de publicação jornalística, vemos violência. Boa parte dos relatos na imprensa envolvem jovens e adolescentes. Isso porque, de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil está entre os 3 países que mais matam jovens e adolescentes num total de 85 países. Diante deste cenário, fica um questionamento: como a imprensa nos conta sobre essa violência?

Em Ijuí, no noroeste do estado, a professora do Curso de Comunicação Social da Unijuí, Lara Nasi, busca essa resposta. Com o Projeto de Pesquisa ‘’A Narrativa Jornalística Sobre Violência Contra Jovens e Adolescentes’’, a professora analisa essa narrativa no cenário local.

Professora do curso de Jornalismo da Unijuí Lara Nasi

Duas publicações em papel são analisadas, Jornal da Manhã, diário, e Hora H, semanal. Na internet, o portal Ijuí News. A análise foi feita num período de três meses. De outubro a dezembro de 2015, mesmo ano do início do projeto.

Segundo dados de 2013 da Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil não está em uma posição invejável em relação à homicídios de jovens e adolescentes. Para Lara, o objetivo do Projeto é saber como esses homicídios são narrados no jornalismo ‘’ A questão é como isso aparece no jornalismo. Bom, isso não aparece muito. Isso aparece na página policial, uma morte ou outra. Mas episódico. Não aparece como um tema’’

A partir do estudo e recortes dessas notícias, o projeto já obteve resultados importantes. Um deles foi observar que a idade das vítimas (ou suspeitos) de algum crime nem sempre é revelado ‘’A gente queria ver como é que é em relação a adolescentes e jovens. Então, muitas vezes não tem a idade e a gente não sabe se o crime foi cometido, ou teve vítima adolescente ou jovem’’ salienta a professora.

Como no decorrer da pesquisa apareceu muita notícia relacionando jovens e adolescentes como suspeitos, além de vítima, o projeto buscou explorar esse outro fator: quando o adolescente ou jovem é suspeito. Segundo Lara a narrativa da violência, no jornalismo, tem sempre o personagem bom e o ruim. Alguém que é vítima, alguém que é bandido.

No período estudado, foi registrado que 20% das notícias sobre violência publicadas pelo Jornal da Manhã tinham alguma relação com jovens e adolescentes. O Jornal Hora H, obteve 21%. Se levarmos em consideração o fato de algumas notícias não divulgarem a idade das vítimas ou suspeitos, esses números podem ser maiores.

Dentre vítimas e suspeitos, de 41 notícias analisadas, 21 delas os relacionaram como vítimas, contra 20 que os colocaram como suspeitos. De acordo com a pesquisa, os meio de comunicação usam como pauta, a violência, apenas para noticiar furtos, homicídios ou tráfico de drogas (os crimes mais noticiados, respectivamente). Porém esse assunto não é tratado como tema pelos jornais.

A análise da narrativa tem demonstrado que as fontes para a produção jornalística sobre violência são praticamente apenas as fontes oficiais que atuam na segurança pública: Brigada Militar, Polícia Civil, Polícia Rodoviária Federal. As matérias em geral assumem o ponto de vista das autoridades e exaltam suas ações na repressão ao crime. Raramente são ouvidas outras fontes, como vítimas ou os próprios suspeitos. Trata-se de um jornalismo pautado por informações das fontes oficiais, que adota em seu discurso a perspectiva dessas fontes, sem questioná-las.

Segundo a Professora o jornalismo tem papel fundamental para compreensão da sociedade ‘’Tentar olhar como que se narra essa violência é também tentar entender como a gente se relaciona com essa violência. A gente tem um jornalismo que não discute o que leva à violência. Apenas nos faz sentir medo’’.