Quantos escravos trabalham para você?

A pergunta pode parecer idiota, afinal, estamos em pleno século XXI, ano 2016, todo ano comemoramos a abolição da escravatura. Sério? Você sabe que a coisa não é assim, tão simples…

O uso de mão de obra escrava ou em situação análoga ao trabalho escravo é mais do que comum hoje em dia, principalmente nos países subdesenvolvidos. E se você acha que isso está restrito ao mundo da moda, engana-se. Por que você acha que os Iphones são fabricados na China? Por que lá eles moram dentro das fábricas e trabalham sob condições questionáveis.

Falar de trabalho escravo na moda é praticamente chover no molhado. Todo dia surgem novas denúncias, e uma das mais recentes foi a ligação da marca Ivy Blue, da Beyoncé, com o uso de mão de obra escrava no Sri Lanka. Mas uma das vezes em que essa questão veio à tona — por que ela existe, mas claro, muitos preferem ignorar e continuar comprando — foi quando o prédio de uma fábrica desabou em Bangladesh matando centenas de pessoas. A foto de um casal que morreu abraçado viralizou, afinal, no dia anterior, rachaduras foram vistas pelo prédio e o dono da confecção foi alertado a interditar o prédio. O que, óbvio ele não. e o resultado foi devastador e é mostrado no documentário The True Cost.

Mas o que parece uma realidade distante na verdade está perto da gente, dentro da nossa casa. Basta ver nas etiquetas do seu guarda roupa, da sua cozinha, da sua casa o que é feito no Brasil e o que foi feito na China, Vietnã, Marrocos, Butão, Sri Lanka, Índia e vários outros países subdesenvolvidos. Você vai se surpreender. E pode reparar: mesmo peças caríssimas de marcas famosas foram feitas nesses países. E por que? Mão de obra rápida e barata. Imagina o tamanho do lucro de uma empresa que paga 80 centavos de dólar por dia de trabalho a um funcionário que trabalha 12 horas produzindo uma bolsa, por exemplo. Provavelmente ela venderá essa bolsa a um valor que poucos podem pagar. Você consegue vislumbrar o lucro dessa empresa às custas da escravidão? E você consegue perceber que comprar esse produto incentive o uso de escravos?

Não, a escravidão nem de longe acabou em 13 de maio, nem no Brasil. Por aqui, centenas de pessoas estão em situação análoga à escravidão, trabalhando principalmente em lavouras. Vários são os casos de imigrantes que chegam ao Brasil com a promessa de bons empregos e são forçados a trabalhar de 10 a 14 horas por dia em cubículos. O pior é perceber que uma das mais fortes indústrias nacionais — a têxtil — é a que mais utiliza este tipo de mão de obra no Brasil, juntamente com a agrícola. Seria a moda a grande vilã do trabalho livre? Não seria algo a se questionar?

E o que fazer?

Dizer simplesmente “não” a produtos advindos do trabalho escravo parece simples, mas é missão quase impossível. Somos bombardeados pelos famoso “Made in China”. Isso sem contar com nosso apego à marca em detrimento a origem do produto. “Dane-se de onde o produto veio, ele é da marca X e marca X é boa. Marca Y dá status”. Vamos combinar: muita gente acha que a origem do produto é a loja na qual ele foi comprado, certo?

Um começo, como sempre, é pensar, pesquisar de onde o produto veio. Como ele foi fabricado. O processo produtivo dele. Que tipo de impactos ambientais ele causa. Ele utiliza trabalho escravo na sua produção? As matérias-primas que ele utiliza vieram de cadeias produtivas que escravizam pessoas?

E isso é difícil? Hoje em dia, com a internet, claro que não! Há aplicativos que dizem se aquela marca usa trabalho escravo ou não, por exemplo!

É um tema amplo e complexo para um texto apena. Mas a discussão é saudável, e plantar a semente da dúvida também. Não seria melhor alimentar o pequeno produtor local, o artesão, a manufatura do que a produção em série e o trabalho escravo?