ESPERANÇA{R} É UM VERBO

“Esperança do verbo Esperançar”, já dizia o filósofo e professor brasileiro Mario Sérgio Cortella. Esperançar tem a ver com causar esperança no outro, com alimentar essa que seria, na minha opinião, a demonstração mais viva e pura da fé. Aliás, Paulo diz que de todos os dons e de todas as manifestações mais incríveis que o homem pode viver, apenas três permanecem: fé, esperança e o amor. Porém, ele diz que das três, a mais importante é o amor. Isso me leva a seguinte conclusão: esperançar sem amar é o mesmo que esperar que a massa cresça sem fermento, que o ser humano saia andando sem o fôlego de vida!

Quando o fim de um ano se aproxima, com ele nasce novas expectativas. Não as confunda com esperança. Esperança tem a ver mais com suor e dor do que com alegria e satisfação. É necessário que sejamos nós a visão da esperança em nosso modo de viver e de se relacionar, assim como Cristo foi. Dar esperança não é alimentar expectativas, é visualizar realidades. Por isso a fé é importante nesse processo, porque ela me ajuda a ver realidades que ainda não se romperam na história, a ter uma certeza, quase que maluca, de fatos que não se veem.

Esperar que o país seja melhor não é ter esperança, isso é terceirizar a responsabilidade da vocação que Deus deixou para cada um de nós de usá-la para deixar a Terra mais parecida possível com o céu. Deixo com Eduardo Galeano, jornalista e escritor uruguaio o desejo da esperança: "Que as nossas almas sigam irmanadas na utopia de um mundo cuja maior loucura seja a dignidade de todas as pessoas. Cuja alegria de uns não esteja alicerçada na desgraça de inúmeros outros. Cuja esperança sobreviva ao caos. Onde o pão nosso de cada dia esteja à mesa recheado de sonho e poesia."

A esperança tem resultados e desdobramentos nas pessoas, em primeiro lugar. Depois temos os efeitos nos lugares. Jesus não cria sistemas ou ideologias para se pôr a esperança; Ele vai às pessoas e transforma suas mentes, despertando adormecidos e indiferentes às necessidades básicas de cada ser humano. O Espírito Santo, que é Deus, despluga todos os cabos que nos sugavam a vida e as percepções e nos faz abrir os olhos pela primeira vez. E isso causa dor! As dores são externas e internas. São suas e alheias. Para sanar essas dores, é necessário antes de olhar para dentro, olhar para fora. Ser a esperança tem mais a ver com a encarnação do que ter a esperança, que tem a ver com um discurso letárgico, ou seja, deixo minhas ideias para outros cumprirem. Deus se encarnou em Jesus para levar sobre Si nossas dores e trazer esperança. Jesus nos convida a ir até Ele entregando nossas dores e angústias e Ele nos aliviaria. Esse é o propósito da encarnação: levar sobre a carne santa o que a carne imunda não consegue aguentar, para que a carne santa santifique a carne imunda e que essa tenha condições de existir e, portanto, por mais dura que seja a vida, encontra uma perspectiva, ainda que mínima aos nossos olhos, porém completa em Deus.

A conclusão Paulina sobre quais dos três remanescentes (Fé, Esperança e Amor) é o mais importante nada tem a ver com grau de força ou duração. Tem a ver que, sem amor, a fé se torna fanatismo e a esperança em um meio para um fim. Só experimentaremos a esperança de um modo profundo quando ela vier motivada e carregada de amor. Não adianta eu esperar pela recuperação de uma pessoa sem amá-la como Cristo a amou. Se foi o amor de Cristo que nos alcançou, logo pode alcançar o outro. Não é amor sentimento; é amor decisão. Assim aprendo que tanto amor quanto esperança e quanto fé são mais que substantivos, são verbos. Quando me comprometo a viver assim, a esperança deixa de ser um conceito e passa ser um modo de vida. Eu me torno, no exemplo de Cristo, a encarnação da esperança nas mais variadas áreas da minha vida. Por isso, esperançar é luta, resistência; é aquilo que faz você não deixar sua essência ou vendê-la por uns míseros trocados. Lutamos contra inimigos imperceptíveis aos nossos sentidos, porém causam profundos estragos bem perceptíveis. Por isso, o amor. Ele me faz perceber em mim a dor que não é minha e essa dor só passa se o outro for curado.

Vemos a esperança como algo mínimo. “A última gota” — alguém diria. Porém, em Deus tudo está completo, inclusive a esperança. Uma esperança plena, em Deus, é aquela que, diante do sofrimento, ainda insiste em se levantar. E aqui não estou dizendo sobre vencer o sofrimento, porque não precisamos vencer algo que já está vencido. Entretanto, o suicida tem esperança de, ao tirar sua vida, sua dor seja igualmente tirada. Alguém que se divorcia de um esposo abusador, encontra esperança nesse complicado processo de dissolver um relacionamento. Assim como a água, que encontra espaço nos mais estreitos ambientes, a esperança encontra lugar nos momentos mais difíceis de passar.

Esperançar é movida por fé e cheia de amor. É ter uma fé imaginativa capaz de sonhar e viver com um mundo mais justo dentro do meu círculo de ação. Se o mundo ainda não é o lugar ideal, sou chamado para ser esse que, sim, usa sua vida como exemplo de quão justo, amoroso, doce ele pode se tornar. Por isso que esperançar dói, mas é a dor da borboleta que sai do casulo, da lagosta que sai da casca, da farpa que sai do dedo; é uma dor que cura!

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