SOBRE DEPENDÊNCIA DO PAI

Em uma dessas noites no hospital, depois que o Felipe e o Daniel saíram da UTI, estávamos eu e a minha esposa cuidando deles quando o Daniel engasgou com o leite. Ele tinha mamado muito bem, mas uma quantidade pequena desse leite voltou e estava o engasgando. Na primeira vez, eu ouvi o resmungo dele e pulei do sofá-cama do quarto do hospital direto para acudi-lo. Nunca experimentei algo assim: você sair de onde você está, numa situação de susto, e saber o que fazer. Experimentei o puro extinto paterno. A Carol estava amamentando o Felipe. E quando o peguei no colo, virei para que ele ficasse de costas pra mim e de cabeça pra baixo. Ele vomitou e voltou a respirar. Senti um alívio muito grande.

Porém, essa foi a primeira! Na segunda vez, a coisa foi mais feia. O Daniel engasgou e não vomitava. O rostinho ficou vermelho, os olhinhos lacrimejaram e ele não sabia o que fazer. E nem eu! Fiz a mesma coisa que tinha feito anteriormente, mas não surtiu efeito. Corri naquele corredor do Nossa Senhora das Graças com ele nos braços buscando ajuda. A enfermeira prontamente o pegou no colo e forçou o vômito. Depois do susto, a enfermeira me disse: “Parabéns, papai”. Ali a ficha caiu! Voltei para o quarto com ele nos braços e não consegui parar de olhar para aquele rostinho que olhava pra mim como se eu fosse a única coisa que importava pra ele. Quando, na verdade, eles são as únicas coisas que importam pra mim.

Cheguei no quarto e, no silêncio da madrugada, Deus veio ao meu encontro. “Sou assim com você e com todos os Meus filhos” — Ele me disse. Senti como sou dependente de Deus e que, se não fosse Seu amor e graça, não resistiria um milésimo de segundo desse ar impregnado de Sua presença. Senti como somos um bando de ingratos diante da vida, diante das pessoas que nos cercam e diante dos altos e baixos. Senti a fragilidade de um ser que poderia sucumbir por causa de uma gota de leite. É inevitável olhar para os meus bebês e não me ver numa relação com alguém que é infinitamente mais forte, mais inteligente, mais sábio, mais tudo e não se gaba disso nessa relação. Pelo contrário, usa tudo isso para a glória Dele através de atos de amor e de compaixão. No caso citado, eu recebi o parabéns, mas não o fiz por isso. Creio que talvez Deus seja assim. Ele não é esse ser maniqueísta, hedonista que se retro alimenta de elogios e de glórias e que castiga aqueles que não fazem isso. Vejo um Deus que recebe o elogio por ver Seus filhos bem. Só isso! Ele nos quer ver bem, gratos a Ele por tudo e nos relacionando como irmãos.

Quando troco as fraldas, vejo Deus limpando minhas constantes cagadas! Até as mijadas Ele as limpa. Ri quando, por acidente ou por choro, jogo um pouco do xixi Nele. Ele sabe que não é ofensivo! O amor de Deus é livre! O cheiro deles está impregnado em mim, como o meu está neles. Tudo me faz lembrá-los e o fato de eu estar com eles, seja no hospital ou na uti ou em casa, é o mais importante. A presença da comunhão. Longe não dá pra funcionar, não dá mais pra viver, mas juntos, não importa onde, é mais importante! Hoje eu entendo quando o salmista fala de Deus que vela meu sono! Vai que eu acabo engasgando com alguma coisa!

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