UM CHAMADO MAIS QUE URGENTE

Quem tem a resposta para o sofrimento humano? Quem pode dizer o porquê de pessoas sofrerem? Enquanto buscamos razões, porquês e pra quês, acredito muito no poder da presença, do abraço, do choro compartilhado, do silêncio terno e reverente.

Mas nesse texto, quero imaginar com você um ministério. Um ministério que muita gente está sendo chamada, mas ainda não entendeu esse chamado. E nos nossos dias, nessa época maluca e desequilibrada em que estamos vivendo, essas pessoas são mais que necessárias. Quero lhes falar sobre o ministério do sofrimento. Pessoas chamadas para serem canais de cura através de suas feridas e fracassos. Sabe quando as coisas não acontecem como a gente sonha, ou quando você se esforça e não consegue alcançar o sucesso? Então, tem uma pancada de gente assim precisando não só entender o que está acontecendo, mas precisam ser acolhidas nos seus sofrimentos e não de alguém que joga na cara delas que estão sem fé ou que estão devendo algo a Deus.

Isaías fala de um Servo Sofredor, de alguém que sabe o que é sofrer. Jesus se revela esse Servo Sofredor, Paulo depois vai dizer que para sermos Cristo, é necessário sofrer por Ele e Pedro vai dizer que isso é motivo de glória. Cristo fala daqueles felizes que possuirão a Terra e serão chamados Filhos de Deus como misericordiosos que alcançarão misericórdia. Misericórdia que é a miséria do coração sendo sentida por outra pessoa que não aquela que sofre, ou seja, quem é misericordioso sofre junto, na mesma intensidade, a dor alheia. É o sentir na pele!

Esse ministério não apresenta uma solução, mas um caminho. Apresenta uma cura que necessariamente passa pelo outro para, depois, se for o caso, chegar a você. Sentir a dor alheia lhe impede de tacar a primeira pedra ou o spray de pimenta. Ter na pele a insegurança e o medo alheio lhe impede de desejar a morte como se deseja um prato de comida com fome. É o amor levado às últimas consequências como um chamado para um povo que parou no tempo e sabe apenas odiar como a posição possível para um mundo como o nosso.

Quando coloco o ódio como uma das opções possíveis para se viver, a mensagem da Cruz encontra seu fracasso. Porém, quando se levantam pessoas que escolhem amar, perdoar, ter misericórdia, a esperança se renova e a Cruz encontra novamente seu significado na vida humana. A conversão se torna possível e não força que pára um coração que decidiu amar o inamável!

Olho o Novo Testamento e percebo que é um chamado à Igreja, aos seguidores de Cristo. Quem é cristão, sofre. E não sofre mais por uma razão de fatalidades; agora é a única manifestação plausível de amor. Não sofremos mais, porque coisas ruins acontecem com qualquer um. Sofremos, porque é o único jeito de ecoar a misericórdia de Deus numa Terra cada vez mais desumana. A Igreja não foi chamada para liderar nada; foi chamada apenas para servir e denunciar abusos e injustiças em nome do Senhor do Amor e da Justiça.

Todos temos perdas, porém ninguém precisa ser roubado. A misericórdia é justamente o momento onde quando a angústia bate à porta e é recebida de portas abertas com a mesa de amigos. Ela vem, e vai embora sem levar nada de nós. O problema é quando a dor vem e leva nossa alegria, nossa paz, nossa identidade. Perdemos a razão e o prazer na vida. Por dias, achamos que é o fim. Que nunca mais seremos os mesmos. E nunca mais seremos os mesmos, de verdade! Não há quem passe pelo Vale da Sombra e da Morte e saia de lá ileso. Aliás, ser cristão é passar por esse Vale. Sair ileso não é uma opção para o cristão.

Outra característica do ministério do Sofrimento é a vulnerabilidade. Quem se propõe andar como Cristo andou, também se propõe a sofrer as mesmas coisas que Ele. E mais, como somos humanos imperfeitos, erramos. Portanto, quem caminha pela fé cristã aprende com os erros uns dos outros. Saber que seu pastor, seu pai, seu alvo de admiração também erra é não só um alívio, mas um ato de libertação mútua. Ninguém precisa provar nada a ninguém! Jesus chora, pede oração aos Seus amigos mais íntimos no Seu momento mais angustiante no Getsêmani, sente compaixão da multidão, sente a dor de existir num mundo injusto e incoerente.

Creio que a Igreja vem caminhando há séculos por um caminho muito contrário ao da proposta por Jesus. A Igreja foi chamada para agradar a Deus e, por exclusão, não agradar o mundo. O mundo ama o dinheiro; a Igreja deveria abominá-lo. O mundo diz que o ódio é uma alternativa; a Igreja nem deveria cogitá-lo. O mundo não liga para os pobres, enfermos, marginais, órfãos, injustiçados; a Igreja deveria dar-lhes total prioridade e voz. O mundo é dos vencedores; a Igreja é para os que escolheram perder, abrir mão. Digo e repito, se a Igreja continuar a caminhar pelo caminho que vem andando por séculos, só nos restará mesmo o amor divino, porque o humano será extinto! O chamado é para hoje, é urgente, é grave. O mundo precisa ser consertado e o caminho para isso é a misericórdia!

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