Expat life: Dando a luz na Ásia
Fevereiro de 2009.
Depois de 2 anos incríveis na Austrália, nos mudamos para as Filipinas, de mala, cuia e barriga. Honestamente, eu nunca tinha ouvido falar das Filipinas exceto pelos sapatos de Imelda Marcos e as calamidades que todos nós escutamos nos noticiários. Makati, o centro financeiro do país, me pareceu bem legal pois adoro cidade grande embora o trânsito seja um desastre e o contraste social entre os bem afortunados e os mais pobres gritante.

Primeiro de tudo, minha prioridade era encontrar uma boa ginecologista. Eu pesquisei no google sobre brasileiros vivendo em Manila e conheci umas meninas que me recomendaram uma médica.
Eu estava com 5 meses quando fui à minha primeira consulta. O consultório era dentro do hospital mais movimentado do país (Makati Medical Center). A primeira impressão foi horrível. Não gostei do ambiente. Muita gente pelos corredores, enfermeiros, médicos, macas e pessoas doentes passavam a todo momento em frente a sala de espera. Estava quente e abafado e o cheiro de comida frita naqueles corredores me deixou enjoada. Havia uma praça de alimentação bem na porta do hospital, o que dificultava a entrada. Os elevadores entupidos, simplesmente um caos. Eu peguei meu álcool gel da bolsa e usei a cada minuto, tentei não tocar em nada com medo de um vírus ou uma bactéria.
Felizmente, assim que eu entrei no consultório da Dra. Henson me apaixonei. Ela respondeu todas as minhas questões assertiva e pacientemente com um sorriso, pra não dizer gargalhada, cativante! Eu nunca tive uma médica tão boa em nenhum dos países que eu morei, incluindo o Brasil, onde para mim não há barreira cultural e de linguagem. Eu saí da consulta tranquila em relação a minha gravidez.
Como eu ainda estava preocupada com as condições dali, pesquisei sobre St. Lukes Medical Center, um novo hospital que parecia um hotel, com excelente localização e infraestrutura. Questionei se poderíamos mudar de maternidade mas ela disse que a sua equipe médica estava em Makati e principalmente o anestesiologista Dr. De Jesus. Eu tinha muito medo de todas essas histórias que escutamos sobre a peridural. Ela me garantiu que ele era o melhor anestesiologista das Filipinas, muito competente e reconhecido. Concordei. Eu teria meu bebe no Makati Med., que por sorte estava sob reforma, ou seja, novas instalações, mais espaço e higiene. Tive esperança de ter meu bebe longe do caos que eu vi.
Algum tempo depois, fui para minha consulta de 8 meses. De acordo com o ultrassom, Lucas (nosso baby) teria mais algum tempo para descer para a posição de parto e esperar pela chegada da vovó, em 7 dias.
Dois depois tive aquele instinto que toda grávida tem de arrumar a casa para a chegada do bebe. Achei que a casa estava suja e desarrumada e decidi sair para comprar um aspirador. Imaginei que andando para casa, apenas algumas quadras dali, seria mais rápido do que pegar um taxi. Boba! As coisas mudaram de rumo. Quem dera eu tivesse aqueles conselhos de mãe, de avó, que não acabam nunca: “não carregue peso quando está grávida”. Mas eu não sabia! Mais tarde naquela noite, senti uma dor muito forte e diferente de todas que já havia sentido.
Eu pensei que poderia ser algum deslocamento da placenta. Deixei nosso motorista e a médica de sobreaviso. Mesmo assim, não consegui dormir aquela noite com meu marido roncando e babando. Às 7 da manhã recebi uma mensagem da Dra., ela gostaria de me ver. Nosso motorista nos levou ao hospital. Eram apenas algumas quadras dali mas levamos 20 minutos, o trânsito é muito ruim essa hora em Makati. Assim que ela me examinou riu muito alto e disse: “Você vai ser mamãe hoje!” Incrivelmente eu já estava na metade do trabalho de parto, e eu nem sentia tanta dor, nada perto do que eu esperava! Fiquei atônita.
Meu marido, Fernando correu para casa. Ele voltou com algumas roupas, a mala da maternidade e minha família no Skype, todos nós choramos. Nunca imaginei ter um bebe tão longe de casa, em um lugar tão distante da minha realidade e sem minha mãe por perto. Eram apenas eu e Fernando. Felizmente eu tive uma amiga que nos acompanhou por tudo isso.
Dra. Henson avisou sua equipe para preparar a sala de parto, muitas enfermeiras e enfermeiros vestidos com aquele uniforme verde por todo o lugar, como um formigueiro. De fato, isso acontece em qualquer lugar em Manila: em Shopping malls, lojas, farmácia. São 4 a 6 pessoas pelo menos em um simples caixa de mercado. Por favor, não me entenda mal, estou apenas dizendo como é. Se você já esteve lá, sabe do que estou falando.
O pessoal da equipe já estava pronto, mas eu não estava. Dr de Jesus entrou no quarto e me preparou para a peridural. Eu poderia ter ido até o fim sem ela, mas caso a dor aumentasse não poderia voltar atrás. As contrações tornam-se mais fortes e tendo que ficar imóvel enquanto leva a anestesia, seria difícil em alguns instantes. Eu tenho um dragão tatuado nas costas bem na área da peridural, ele me disse pra ficar tranquila que ia apenas coloca-lo para dormir, consegui descontrair um pouco.
Uma hora depois a Dra. Estava de volta e lhe disse “Eu ainda não li o capitulo 10 do livro O Que Esperar Quando Você Está Esperando” que descreve o trabalho de parto. Não tinha ideia do que ia acontecer, tudo que aprendi no curso de gestante nem passou pela minha cabeça. Então ela disse : “vamos praticar”. Para a nossa surpresa Lucas estava nascendo, era hora e me mandou para a sala de parto. Meu Deus, o lugar era muito feio, me lembrou um hospital de guerra no Vietnam.

Felizmente, Lucas nasceu são e salvo, foi um dos partos mais rápidos que ela já fez, se não o mais rápido. Patrícia, minha amiga que estava nos esperando ao lado, não acreditava que já estava ouvindo nossa gargalhada e o choro do bebe. Foi realmente muito fácil. Eu fiquei lá por menos de 20 minutos.
Estranho, mas sim, foi uma experiência ótima.
A pediatra, que eu escolhi aquela manhã, pois não tinha tido tempo, chegou. Lucas estava saudável e seu Apgar foi 9/9. Ele era tão pequeninho e quentinho. Eu estava tão feliz, só queria protegê-lo e amá-lo pro resto da vida.
Fernando me disse que estávamos com problema em achar um quarto, não sei exatamente o que aconteceu mas sei que fomos para a suíte presidencial do hospital. Meus primeiros sintomas de baby blues apareceram quando entrei naquele quarto. Era escuro, feio, sem ventilação, as paredes eram de madeira preta e muito barulhento. Eu não tive coragem de ir ao banheiro naquele dia. Nojento! Os móveis eram de algum lugar muito distante do passado. O quarto era grande embora impossível dormir ali.

O ar condicionado devia ser da primeira geração. Ou era muito quente ou muito frio. As enfermeiras, super atenciosas não paravam de entrar. Não conseguia um minuto de silêncio. Como não tínhamos babá nem alguém da família, contratamos uma enfermeira para ajudar nos ajudar. Péssima ideia. Imagina se eu poderia relaxar perto de uma mulher completamente estranha, segurando meu bebe. Já eram 36 horas acordada!
O jantar daquela noite não poderia ser melhor! Comida de hospital não é nunca uma boa pedida, certo? Eu não esperava nada gourmet, especialmente não sendo a comida filipina a minha favorita. Quase morri quando abri atampa do prato que me serviram. Um peixe inteiro, com pele, escamas, vida e espírito. Ele me olhava com aqueles olhos. Lembrei daquela lanchonete lá da entrada do hospital. Mcdonalds foi meu jantar.

Difícil imaginar que haveria silêncio naquela noite. No quarto ao lado, uma “vizinha” com sérios problemas mentais. Esta senhora não parou de gritar nem de noite nem de dia. Pacientes de diferentes enfermidades estavam no mesmo andar que a gente. Lucas foi o único que dormiu.
Concluindo, enfim! A minha experiência não foi muito agradável, mas hoje sei que o mais importante foi ter meu bebe com saúde e estar em boas mãos independente de costume, hábito ou idioma.
