Ambição e cultura pouco afetiva podem estar atreladas aos casos de depressão na Serra

“É mais fácil superar a depressão do que o estigma da sociedade. As pessoas julgam. Dizem ‘essa aí é louca’”, desabafa Joana (a identidade será preservada). Aos 65 anos de idade ela está curada, mas reconhece a possibilidade de um novo caso. “A doença é cíclica. Minha primeira crise foi por volta dos 25 anos. Durante grande parte da minha vida me tratei com os melhores médicos de Porto Alegre. Meu médico diz que eu deveria escrever um livro a respeito. Virei uma especialista”.

Joana se enquadra no perfil mais diagnosticado com depressão no país. Em geral, são mulheres da região Sul do Brasil. Os motivos são adversos e os estudiosos não chegam a um consenso. As respostas podem estar na genética e também na cultura.

A depressão é um transtorno de humor. De acordo com a Associação Brasileira de Psiquiatria, o ponto em comum entre as pessoas acometidas pela síndrome é a apatia, assim como a irritabilidade na maior parte do dia e em atividades que anteriormente eram motivo de prazer. Os sentimentos mais constantes são culpa, sensação de inutilidade e falta de perspectiva de futuro.

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), a síndrome é a principal na carga global de doenças. No final do século XX, a OMS acreditava que, em 2030, esse seria o mal mais incapacitante, atingindo 7% da população. Esse índice foi atingido em 2010.

A última Pesquisa Nacional de Saúde, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), estimou que, em 2013, 7,6% das pessoas de 18 anos ou mais foram diagnosticadas com depressão. Esse percentual representa 11,2 milhões de pessoas. As regiões Sul e Sudeste são as que apresentam mais casos, inclusive acima do percentual nacional: 12,6% e 8,4%, respectivamente.

O estudo identificou o perfil prevalente. As brasileiras lideram os prontuários (10,9%), contra 3,9% dos homens. A faixa etária com maior proporção foi a de 60 a 64 anos de idade (11,1%), enquanto a menor foi obtida na de 18 a 29 anos (3,9%).

Outra curiosidade indica predominância, mesmo que sutil, em pessoas com ensino superior completo (8,7%), enquanto as sem instrução e com fundamental incompleto chegaram a 8,6%. A pesquisa aponta maior incidência entre pessoas brancas (9%), frente a 6,7% de pardas e 5,4% de negras.

A psicóloga Luciane Rippel elenca os fatores que supostamente podem levar mais mulheres do que homens a desenvolver um quadro depressivo. “A mulher tem uma sobrecarga de trabalho maior que a do homem, convive com instabilidade hormonal nas diferentes fases da vida, e enfrenta uma exigência social bastante diferenciada”.

O inverno rígido pode ser outro facilitador. “Existe uma depressão chamada sazonal. Ela acostuma acometer pessoas em períodos mais frios. Existem estudos que mostram mais casos de depressão em países mais frios. Talvez possamos usar esses dados para entender o que está acontecendo conosco”, pondera.

Cultura competitiva

Luciane é natural de Porto Alegre e morou em outras regiões do estado. A vivência com outras comunidades lhe permitiu perceber características que podem explicar a alta porcentagem de pacientes barbosenses em tratamento por depressão. Muitos relatam já ter tido vontade de acabar com a própria vida.

O balanço dos primeiros seis meses do Centro Municipal de Atendimento Psicossocial de Carlos Barbosa (Cemaps), divulgado em janeiro deste ano, revela um dado preocupante: das 1.663 consultas, 656 foram na área psicológica e 727 na psiquiatria. A principal doença é a depressão, responsável por 40,53% dos atendimentos. A dependência química (álcool e drogas) vem em 2º lugar, com 17,10%; e bipolaridade, em 3º, com 8,17% dos casos.

“No meu ponto de vista a cultura nessa região é mais rígida que nas demais. É pouco afetiva. A gente sabe que existe a possibilidade de desenvolver uma depressão a partir da cultura. Existem casos comuns de pessoas que nasceram em famílias em que não havia tempo para pegar no colo. Ou as mães que levavam o bebê para a roça e deixavam a criança sozinha no berço. Uma mãe me contou que alimentou a filha usando uma almofada para segurar a mamadeira”, relata a psicóloga.

Outra característica regional é a busca pelo sucesso econômico; quando não alcançado isso tende a levar ao abatimento. “É gerada uma frustração perante a incapacidade de adquirir mais, ou de não conseguir tanto quanto o vizinho ou o irmão. Basta ver nossa carga horária. E ninguém questiona, porque o povo é trabalhador. Ninguém se pergunta o quanto isso pode estar afetando nossa capacidade de desenvolvimento afetivo. O ócio criativo também não se discute por aqui. Ele é importante, pois possibilita a convivência e a paz para resolver problemas”, avalia.

Um ambiente de trabalho desfavorável é outro problema muito comum. De acordo com a psicóloga, o chamado ritmo penoso não se volta apenas ao trabalho físico e sim ao desespero emocional. Algo muito comum entre os profissionais da área da saúde e da educação.

Luciane frisa: “Nem toda tristeza é depressão. Na verdade, às vezes é a dificuldade de resolver um problema na vida, ou por perder um ente querido ou o animal de estimação. Outras vezes é por questões financeiras. Para muitos pacientes eu preciso explicar que ficar triste é normal”.

*Matéria publicado no jornal Contexto no dia 30 de janeiro de 2016.

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