O ano era 1991. Jean-François Gravel, com seus 19 anos, fazia suas primeiras experiências na panela. Como se fosse um dom dado por Deus, suas cervejas pareciam milagres ao paladar dos seus amigos, fazendo assim crescer nele o sonho de ter uma cervejaria. Porém, não condizia com a realidade do momento, então foi fazer o que é normal pra um garoto de sua idade, se graduar. Ingressou no curso de Biologia, onde ele acabou conhecendo Stéphane Ostiguy, que dividia com ele a paixão pela cerveja e a vontade de ter um brewpub.

Jean-François Gravel e Stéphane Ostiguy

Com o passar dos anos, eles resolveram tirar a idéia do abstrato e trazê-la para o concreto. Começaram com a procura de um bom lugar e, ao achá-lo, derrubaram as paredes e escavaram o porão. Finalmente, depois de 11 meses, no dia 11/09/1998 a Dieu do Ciel! abriu as portas para o público, reunindo cerca de 300 pessoas. Com o passar do tempo, Luc Bovin e Isabella Charbonneau se juntaram a equipe, na época, os 800 hectolitros produzidos não davam conta da demanda. Foi necessário a abertura da segunda fábrica. Mesmo com orçamento curto e o mercado em crise, eles conseguiram abrir na rua St Jerome, em Montreal — Quebec, onde se encontram até hoje produzindo cerca de 13000 hectolitros.

Aos nos defrontarmos com uma garrafa de cerveja da Dieu do Ciel!, a primeira coisa que notamos são seus rótulos, que possuem uma arte que mexe com o nosso lado lúdico e fantasioso. E nesse caso, temos no rótulo a assinatura do artista, algo muito raro de se encontrar nos rótulos de qualquer cervejaria. Quem assina é Yannick Brosseau, que se baseou em mitologias diversas e se inspirou em artistas americanos do surrealismo pop. Ele criou um panteão imaginário de divindades que são representados em cada cerveja . “Adequado para uma cervejaria com o nome ‘Deus do céu’, não??”, disse ele em uma entrevista. Yannick sempre teve liberdade de criar a arte do Rótulo e ele usa o nome da cerveja como base da criação das artes. Uma das poucas vezes que alguém da Dieu du Ciel! sugeriu uma arte foi para a cerveja La Pénumbra, que foi uma homenagem a Greg Noonan, mestrecervejeiro e juiz do BJCP que morreu em 2009. Cada rótulo nos conta uma história que se completa com a cerveja.

Beber uma cerveja da Dieu du Ciel! é saber que estará bebendo algo feito com muita dedicação e profissionalismo, beirando ao perfeccionismo. Receitas que parecem ser feitas por um alquimista, onde o Mestre-Cervejeiro brinca com ingredientes, formando uma complexidade e qualidade que nos faz rever os conceitos dos estilos que ele cria de tão bem feitas, nos levando a linha tênue entre o deleite e o delírio. Não é por acaso que um tempo atrás, nos top 50 do site de ranking Rate Beer, 11 rótulos dela apareciam entre eles.

Convido todos a beber uma cerveja da Dieu du Ciel e sentir-se, por um momento, no Paraíso.

Texto de Maurício Landim 
Sommelier na loja Mestre-Cervejeiro Mogi das Cruzes
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