Desinibidos venceremos: sobre a conquista da voz

Tenho para mim que a condição da voz do indivíduo muitas vezes reflete a sua concepção sobre seu corpo. Uma voz muito baixa, muito miúda, estaria então soterrada por pesares, no meu caso sim. Hoje em dia eu falo alto, estridente, subo, desço e dou a volta com o volume, o meu tom está sempre pegando picula com o ar, e apesar dos eventuais tremores — quando me tremo por dentro a garganta tende a disparar com tempestades mil — eu continuo falando.
Quando eu era pequeno eu fazia alguns esforços em me dissolver na multidão, quando estava fora de casa; acho que porque eu sempre habitei um corpo gordo, desde de criança, esse desejo de não ser notado cresceu comigo — mal sabia eu, à época, que um dia cresceria para muito além dele — , me fazendo pensar que ao abrir mão da minha individualidade eu estarei protegido de violências. Audre Lorde quem escreve que o nosso silêncio não nos protegerá, olhando para a minha trajetória até o presente momento isso fica mais do que claro.
Neste contexto, em que o corpo sempre se confundia com o outro, com o coletivo, era muito difícil para mim, amalgamado em turmas, grupos, duplas, falar muito. Minha voz saia baixa, fraca, quase que rasgando o ar. Em casa eu era o contrário, falava alto e a risada ecoava pela casa, pelo corredor longo, enchendo os cômodos. Estar em casa era, para mim, estar seguro, era onde eu podia retirar a minha capa de invisibilidade e falar alto, e dizer como eu realmente estava me sentindo.
Eu tenho interesse em falar dos meus sentimentos com pessoas que parecem interessadas, nunca gostei do blasé, do olhar que não olha de verdade, esse eu sempre dispensei e conheço muitos que me culpam por nunca conseguirem me acessar de verdade. Para me acessar basta me enxergar, mas é preciso olhar com atenção, com minúcia.
Em casa eu falava demais e falava alto, celebrava o meu corpo, apesar de todas as dificuldades e restrições em fazê-lo, celebrava a minha voz. Mas eu queria que a minha voz saísse de casa comigo, que deixasse de ser uma sombra de quem eu era à época.
Para vencer a timidez: performance. Entendi que para atravessar os meus muitos desconfortos eu precisava desenhar um personagem que eu incorporasse ou que me servisse de armadura contra o mundo lá fora, a minha solução mais orgânica foi o desenvolvimento do meu eu-artista. E eu sempre chorei muito fácil, abria o berreiro com muita facilidade, as lágrimas escorregavam pelo rosto e a voz quebrava no ar, fraca. A vulnerabilidade na voz, que mais tarde em minha vida eu deslocaria para a escrita.
Se no Brasil espera-se que todos cumpram suas funções entendi que, assim como o protagonista de Superoutro (1989), o meu dever era voar. Pensando que as coisas não acontecem por acaso, na verdade intuindo a arquitetura que posteriormente entenderia como “Destino”, pensei que para voar era preciso seguir o caminho das pedras, o caminho que envolve a feitura das coisas.
Eis que me posto a escrever poemas e a ler poetas, e nessa dinâmica ambiciono tornar-me poeta, e nessa dinâmica ambiciono a conquista da voz. Através da escrita eu apareço, aparecem a minha voz e o meu corpo também, através dos meus poemas, dos meus textos.
No fim eu acho que sempre estive tentando fazer com que o meu corpo roubasse a cena, que me arrebatasse e eu finalmente conseguisse dizer tudo aquilo que eu precisava. Acho que nunca se diz tudo o que se precisa, porque é a necessidade que nos faz tomar a frente das nossas narrativas, o custo da voz é o protagonismo, que nos pesa o silêncio dos outros no corpo.
Eu comecei escrevendo sobre mim, mas eu acho que agora escrevo sobre todo mundo que já cruzou o meu caminho. Hoje em dia penso muito mais sobre a conquista “das nossas vozes”, “há o meu, mas tem o do santo também”.
O nosso destino é voar, e o silêncio não protege, pelo contrário: ele só nos pesa.
