Faísca segue acesa

Ao final da temporada de estreia, expositores e oficineiros relatam suas impressões sobre a primeira feira mensal de produção gráfica de Belo Horizonte

Por Rafaella Rodinistzky

Foto por Gabrieu Algusto

Belo Horizonte reservou o terceiro sábado de cada mês, de junho a novembro de 2015, para se encontrar com a produção gráfica independente local, de outros estados e, inclusive, de outros países. A Faísca – Mercado Gráfico, iniciativa criada pela Pulo Comunicação e realizada por meio de parceria com o BDMG Cultural, estreou recebendo 20 expositores, contou com 40 na segunda edição e, a partir da terceira, passou a comportar 45 participantes. Os trabalhos variam entre fanzines, revistas, livros, colagens, bottons, adesivos, cartazes, pôsteres, cadernos, quadros, fotografias e ilustrações originais. Gratuitos e livres para todas as idades, os encontros são realizados na Galeria de Arte do BDMG Cultural.

Idealizada pela produtora cultural Helen Murta e pelo artista Jão, a feira traz como proposta o estabelecimento de um espaço para trocas entre público e expositores, além de se fixar como ponto para divulgação periódica de publicações independentes e incentivar novas produções na cidade. Ao final desta primeira temporada, a Faísca contou com a participação de 103 artistas e coletivos de diversos estilos e lugares. Foram cinco edições no BDMG Cultural somadas ao encerramento da temporada, que aconteceu excepcionalmente debaixo do viaduto Santa Tereza, com mais de 10 mil visitantes em um único dia, como parte da programação do Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) 2015.

Riqueza fora do cofre

Faísca no FIQ. Foto por Luiz Carlos Oliveira Ferreira

14 de novembro de 2015, 9 horas da manhã, viaduto Santa Tereza, Belo Horizonte: um cofre no chão. Pessoas transitam pelo baixo centro, algumas passam pelo objeto pesado, centralizado debaixo do viaduto, sem dar atenção a ele, com destino fixo: o Festival Internacional de Quadrinhos, sediado na Serraria Souza Pinto. Trinta minutos depois, mesas e cadeiras ocupam o espaço antes vazio, com exceção do cofre. A montagem gera curiosidade em um grupo de jovens situado nas proximidades.

As mesas, agora, já estão cobertas por toalhas vermelhas, verdes e amarelas, colorindo a entrada da Serraria. O cofre, no entanto, permanece alheio à mudança de cenário. A tentativa de afastá-lo dali por seis mãos não é suficiente. O cinza continua em meio às cores da última edição de 2015 da Faísca – Mercado Gráfico. Os jovens que estavam curiosos se uniram, então, àquelas seis mãos, empurraram, chutaram, suspiraram e o cofre continuou no mesmo lugar, no corredor de passagem.

Expositores chegam procurando seus lugares, naquele pequeno mapa-múndi de três continentes: o vermelho mais próximo da Serraria, o amarelo perto da Avenida dos Andradas e o verde, mais estreito, como ponte entre os dois maiores. Ana Schirmer, integrante das ZiNas – coletivo composto por sete artistas com trabalhos que transitam pelos movimentos feministas e pela cultura underground – atuou na Faísca no FIQ como expositora e produtora, enfrentando um dia movimentado. “Foi uma correria muito intensa. Não tem como dar uma pausa em ficar por conta da feira e de todas as necessidades que surgem durante o evento e também não tem como ficar longe da mesa perdendo vendas”, conta Ana.

Coletivo ZiNas. Foto por Gabrieu Algusto

Além de participar das ZiNas, Ana Schirmer mantém seu projeto indivudual Ana, só Ana. Ela cursa artes plásticas na UEMG, publica ilustrações desde 2013 pelo Facebook e ministra um curso livre de aquarela em seu ateliê. Além desta técnica, Ana trabalha com fotografia, gravura, pintura digital e cerâmica, sempre desenvolvendo temas que abordam a construção da mulher. Mesmo tendo participado de vários eventos voltados para o mercado gráfico, ela não imaginava que uma feira regular surgiria na cidade tão cedo. “As movimentações para execução de eventos desse tipo aqui em BH eram muito escassas. A idealização de uma feira periódica já era um desejo coletivo das pessoas envolvidas nesse meio e não parecia ser algo além disso”, explica.

Entre posicionamento de mesas e indicações de lugares, o cofre se fez notar novamente. Dois habitantes do lado rubro, recém-chegados às terras da Faísca em outubro, Duane Henrique Alves e Vitor Borges criadores da Caixão, revista que reúne histórias de terror –, queriam se livrar do peso posicionado em frente a sua área. Buscaram as seis mãos, entre elas as de Ana, e entre novos empurrões e pontapés conseguiram, finalmente, mover o objeto fruto de incômodo para às margens do viaduto.

A dupla descobriu a Faísca por meio da indicação de amigos e lá expôs seu trabalho ao público pela primeira vez. Segundo Duane, as vendas da Revista Caixão são suficientes para cobrir os custos de produção e a possibilidade de retorno nos próximos meses mantem a movimentação no mercado. “[A periodicidade] é um ponto positivo, pois facilita a divulgação e promoção do trabalho e tranquiliza o artista pelo fato de certificá-lo de que poderá expor sua arte em outras oportunidades”, explica.

Felipe César (Felipo). Foto por Luiz Carlos Oliveira Ferreira

Ao lado do novo local do cofre, agora fora do caminho, está a mesa do estudante de direito Felipe César e Silva Soares, nome artístico Felipo, que também encontrou na Faísca o primeiro lugar para expor seus trabalhos: dois fanzines um sobre filmes clássicos feito em dobradura e outro que reflete suas vivências –, além de desenhos originais coloridos com amora e carvão. Felipe César veio de Macapá (AP) para fazer faculdade, mas encontrou na capital mineira a oportunidade de produzir e interagir com as publicações independentes. “A cena em Macapá praticamente inexiste, e a de BH é uma das maiores do Brasil. O que falta para Macapá é um evento como a Faísca com periodicidade para vermos o que a cidade pode nos mostrar”, conta Felipo.

Quem também veio de longe, mas nem tanto, para a Faísca ­– Mercado Gráfico foi André Assis, da Fábrica de Cataventos. O gaúcho morador de Montes Claros (MG) comparece à feira desde a segunda edição com ilustrações, ímãs e bottons de personagens da cultura pop, que incluem suas pinups, apelidadas por ele de “olhudinhas”. O ilustrador destaca que o ponto principal de contribuição da feira para seu trabalho é a visibilidade, e que as vendas da última edição superaram suas expectativas. “Financeiramente não valeria a pena sair de Montes Claros, porque há despesas com passagens. Acho válido divulgar o trabalho em eventos, locais e cidades diversas. No caso da Faísca, foi positivo no sentido de conhecer outros trabalhos e trocar contatos e experiências. Na edição do FIQ as vendas foram muito boas, o suficiente para cobrir as despesas de transporte e alimentação”, esclarece.

André Assis (Fábrica de Cataventos). Foto por Gabrieu Algusto

A partir das 14 horas, o cofre deixaria de ser problema para se tornar solução. Começava o FIQ Fora ­– ­ ocupação de artistas independentes na área exterior à Serraria Souza Pinto, que acontece durante todos os dias de Festival Internacional de Quadrinhos ­e o objeto de peso se transformaria em mesa. O jornalista e editor da revista colaborativa e independente A Zica, João Perdigão, está por trás do FIQ Fora desde 2011. De lá para cá, Perdigão nota que artisticamente a cena de publicações independentes vem crescendo, mas quando se pensa em mercado o panorama que ele descreve é de crise. “Me refiro a crise financeira pela qual o país passa no momento. Participamos do FIQ em 2011, 2013 e 2015 e, neste ano, as vendas foram bem mais fracas se comparadas aos anos anteriores, não só para A Zica, mas para outras editoras dentro do próprio FIQ”, explica.

Mulheres na Faísca

Enquanto surgem dificuldades como as apontadas por João Perdigão, a produção independente mineira segue crescendo, e com ela a participação feminina, reunindo artistas de várias idades. O coletivo feminista Lunática, formado por garotas de 14 a 16 anos, é um dos grupos que representa as mulheres que integram a programação da feira. Elas compareceram à Faísca na segunda edição com alguns zines para troca, mas logo se tornaram um entre os 45 expositores das edições seguintes.

Coletivo Lunática. Foto por Gabrieu Algusto

Com foco no universo feminino, o Lunática produz zines, cartazes e lambe-lambes, nos quais são abordados diversos temas como autonomia da mulher, tabus masculinos, sexualidade e liberdade de expressão. As componentes do grupo são Alice Vitral, Clara Borges, Clara Vieira, Gabriela Rezende e Luna Prates, as mais jovens expositoras da feira. Elas dizem que se sentem lisonjeadas por dividir espaço com artistas experientes. Além da Faísca, o coletivo também participou da feira de publicações do Festival Literário Internacional de Belo Horizonte 2015.

Outro exemplo é Jordana Andrade, nome artístico Tapemachine, que também desenvolve seus trabalhos a partir da vertente feminista e busca desconstruir conceitos por meio da arte. Ela vê a Faísca como ambiente para a projeção da cena regional, possibilitando que artistas menores tenham a oportunidade de mostrar sua produção às pessoas que geralmente não teriam acesso a ela. “A Faísca é interessante porque fomenta esse espaço para quem não tem muita grana para expor em uma galeria ou para vender em uma loja online”, aponta.

Jordana classifica a cena de publicações independentes em Belo Horizonte como “um pouco estática”, e afirma que ainda não há uma grande feira voltada para o setor na capital mineira, mas acredita que a Faísca – Mercado Gráfico está caminhando para tomar este posto. “Criar uma entidade fixa que seja um espaço de troca de ideias sobre quadrinhos e publicações, ou arte no geral, é o próximo passo para que conquistemos um grande público e insiramos as feiras gráficas na agenda belo-horizontina”, pontua.Quanto à produção feminina, Jordana considera fundamental que haja esse espaço a ser ocupado pelas mulheres, principalmente por aquelas que estão começando no universo das publicações independentes.

Jordana Andrade (Tapemachine). Foto por Luiz Carlos Oliveira Ferreira

Mão na massa

Além da feira, Faísca – Mercado Gráfico oferece uma minioficina a cada edição. A primeira foi apresentada pelos quadrinistas Ricardo Tokumoto (Ryotiras) e Luís Felipe Garrocho (Bufas Danadas), com a proposta de que todo mundo pode fazer quadrinhos, basta ter lápis e borracha em mãos. O estudante de jogos digitais Lucas Augusto Ferreira participou de três oficinas, mas sua favorita foi a ministrada pela dupla Ryot Gomba como Ricardo e Luís Felipe são conhecidos. “Acho que eles conseguiram explicar e simplificar muito bem o processo de fazer tirinhas”, conta Lucas.

A linguagem direta na hora de passar conhecimento faz parte dos cuidados que os oficineiros têm com seus alunos, como no caso de Matheus Ferreira, artista gráfico formado pela Escola de Belas Artes da UFMG, que apresentou a oficina Impresso, corte e dobra: primeiros passos nas publicações independentes. “Eu acredito muito na ideia de disseminar informações sobre a produção, desmistificando a figura do artista e liberando a experiência para quem quiser acessar”, explica.

Bruno Pirata (Passaporte). Foto por Gabrieu Algusto

Todas as minioficinas foram gratuitas, bastando se inscrever previamente por formulário até o preenchimento das vagas disponíveis. Os materiais também foram cedidos pela Faísca, não implicando em custos extras aos participantes. Bruno Pirata artista gráfico integrante do coletivo Passaporte, que ministrou Barulho Gráfico: a palavra inserida na imagem fala sobre os pontos positivos da gratuidade das oficinas: “Muitas pessoas têm anseios de aprendizado sobre arte e não têm condições de pagar por aulas ou oficinas, principalmente os mais novos. Eu mesmo, quando adolescente, não tinha como pagar. Portanto, qualquer tipo de aula gratuita é democrática e alcança, dentro do número de vagas disponíveis, qualquer pessoa que se interesse, independentemente de classe social”.

O lugar da poesia

Faísca – Mercado Gráfico recebeu artistas, selos e coletivos nas áreas de literatura e poesia, como as editoras Relicário (MG) e Substânsia (CE), os artistas autores da coleção Vagabundos Iluminados e o poeta Marcos Assis. Ele participou das duas primeiras edições da feira, com a mesa Ano do Chumbo, disponibilizando livros artesanais e “poezines-origamis”. Além de expositor, Marcos atua em coletivos, organiza saraus e outros encontros poéticos.

Marcos Assis (Ano do Chumbo). Foto por Luiz Carlos Oliveira Ferreira

O artista observa que tanto o público quanto o espaço das publicações independentes nas artes gráficas são mais consolidados em Belo Horizonte do que os da poesia. “De um lado vejo os mangueadores de zines de poesias, muitas vezes nômades e em processos individuais. Do outro vejo pessoas com uma maturidade enorme em artes gráficas e artes visuais, muitas vezes graduadas e pós em áreas afins, que dificilmente gostam de poesia e estão nos mesmos espaços, como saraus. São dois ‘clusters’ de produção afins e super solidários também, mas ainda não há uma cultura, uma identidade local para a poesia”, explica Marcos Assis.

Nathan Matos, responsável pela Editora Substânsia, também encontra dificuldade para vender livros de autores contemporâneos. Na Faísca, considerada por ele um dos poucos espaços para editoras de menor porte, suas vendas não cobriram os custos. Apesar disso, Nathan afirma que o balanço foi positivo, pois possibilitou troca de experiências e contatos, além de tornar a editora nordestina mais conhecida pelos mineiros.

Fanzines: imprensa artesanal e alternativa

Foto por Luiz Carlos Oliveira Ferreira

Fanzine é uma abreviação de fanatic magazine (revista feita por fã). Esse tipo de trabalho é usualmente fruto de produção artesanal e pode ser elaborado sem conhecimentos profissionais de artes. Esta revista independente funciona como meio de divulgação de ideias, seja representando coletivos ou apenas um indivíduo, e costuma ser bastante experimental. Não há regras para se produzir um fanzine. Por ser uma publicação de baixo custo, torna-se acessível ao público e impulsiona a divulgação da figura do autor, que muitas vezes não teria seus trabalhos publicados por grandes editoras.

Pode-se considerá-lo como uma imprensa alternativa feita para abordar todo tipo de tema, geralmente com uma postura política ou crítica em relação ao assunto escolhido, como música, cinema, feminismo, poesia, cotidiano, entre outros. A perspectiva do it yourself (faça você mesmo) possibilita aos indivíduos o deslocamento de sua condição de espectador/leitor para a de produtor/autor de conteúdo.

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