Imagem extraída do vídeo de cobertura do Traço no VAC (Eduardo Drummond)

Traço contínuo

Sem tirar o lápis do papel, festival apresenta música e desenhos ao vivo desde 2014

Por Rafaella Rodinistzky

Após receber 20 performances inéditas em quatro cenários diferentes, o festival Traço música e desenhos ao vivo segue na construção de sua própria história em quadrinhos. Do primeiro capítulo, que começou no Stonehenge Rock Bar, até o atual, a iniciativa passou pela casa de shows A Autêntica, pelo foyer do Sesc Palladium e pelo Centro Cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte. Também contou com personagens de características diversas: foram 18 bandas e 21 desenhistas se combinando a cada quadro da narrativa.

Imagem extraída do vídeo de cobertura do Traço no VAC (Eduardo Drummond)

O esboço do primeiro desenho começou a partir da ideia do artista Jão de reunir áreas diferentes. O embrião do festival aconteceu em 2013, no lançamento do selo de publicações Passaporte, quando o pub de Belo Horizonte CCCP acolheu a proposta de misturar a música da banda Tempo Plástico com o trabalho da dupla de quadrinistas Jão e Bruno Pirata. Os desenhos criados na hora eram projetados no telão da casa ao longo do show. 
 
 A iniciativa de transformar aquela performance em um festival surgiu no ano seguinte, em uma das conversas entre a produtora cultural Helen Murta e Jão, que compõem um empreendimento voltado para a divulgação de novos artistas, a Pulo Comunicação e Arte. A denominação para o projeto foi, então, escolhida: Traço música e desenhos ao vivo.

Os integrantes da Pulo, em seguida, selecionaram os componentes de 12 apresentações inéditas para desenvolver a primeira etapa do Traço. Quanto à curadoria, a predileção é por artistas locais, tanto nas artes visuais quanto na música. Helen avalia que o festival mais manteve do que modificou seus critérios de escolha ao longo do tempo. “Bandas independentes e artistas que produzem um trabalho autoral sempre foram e sempre serão nosso foco”, diz.

Segunda foto (da esquerda para a direita) por Pablo Bernardo/Indie BH e demais fotos por Luiz Carlos Oliveira Ferreira

Com ideia, nome e curadoria em mãos, o próximo desenho no quadrado branco era o local para a iniciativa. Quem abriu as portas para a primeira edição do Traço foi Rodrigo Cunha, proprietário do Stonehenge Rock Bar. Ele pontua que a música já é bastante celebrada na cidade e, por isso, quis receber um evento que contemplasse também outras modalidades. “Eu apostei na ideia porque achei que o projeto tinha um valor cultural inédito para a noite de Belo Horizonte. O som ao vivo a gente sempre teve, mas essa coisa de explorar audiovisual na hora como atração da noite me chamou a atenção”, comenta Rodrigo. A casa de shows, inaugurada em 1999 com a proposta de realizar encontros voltados para rock, blues e metal, não deixa de receber outros estilos e públicos, além de promover diversos festivais na capital mineira.


Primeiros traços

O Stonehenge Rock Bar sediou as duas primeiras edições do festival, nas noites de 8 de agosto e 14 de novembro de 2014, com três performances em cada uma. A estudante de design gráfico Patrícia da Cruz, que esteve na estreia, afirma que a cidade oferece apenas eventos pontuais para cada uma das áreas contempladas pelo Traço. “O que me interessou no festival foi essa inovação na ideia de unir áreas que conversam tanto. Como eu nunca tinha pensado nisso? É genial”, observa.

Durante os intervalos, o público também pôde conferir as bancas com trabalhos dos músicos e artistas visuais que participaram do evento. Patrícia classifica esses pontos de venda como forma de transcender a internet – ferramenta comumente usada hoje para a divulgação das artes visuais – e de entrar em contato com as obras não só pelo olhar, como pelo toque, do folhear e das trocas de ideias com o autor.

Fotos por Luiz Carlos Oliveira Ferreira

O quadrinista Ricardo Tokumoto, dupla da banda Desorquestra na segunda edição, veicula boa parte de seu trabalho online, mas não abre mão de lançar alguns projetos fisicamente. “Só estando nesses locais inusitados para atingirmos um público diferente, ampliando nosso alcance. Foi um ótimo momento e local para lançar o Ryotiras #4”, avalia Tokumoto. A publicação citada por ele faz parte de uma série de obras que reúnem tiras veiculadas desde 2007 em seu site.

Marcos Batista participou do Traço como músico e como cartunista, tendo integrado o espaço das bancas com a revista A Zica. Para ele, é complicado atrair quem não tem muito contato com zines e outras publicações, principalmente em um ambiente como o do festival, em que o público está interessado em curtir o som, os desenhos, beber e conversar com os amigos. Batista diz que as bancas costumam ser procuradas por pessoas que já conhecem as obras. “Quem não sabia do que se tratavam os trabalhos tinha grande resistência em querer se aproximar, daí usávamos nossas técnicas agressivas”, brinca ele.

Batista classifica o Traço como “muito simpático e pé no chão”, destacando a preocupação com a logística, divulgação e bem-estar dos artistas envolvidos. No palco do Stonehenge, ele tocou com sua banda Fodastic Brenfers na segunda noite. A música do grupo, com influências do blues, stoner, punk, metal e rock psicodélico, encontrou o seu ritmo nas linhas expressionistas de Luciano Irrthum, integrante da geração mineira de fanzineiros dos anos 1990. “Acho que o Fodastic e Irrthum foi brilhante. Ao final, com a ilustração, deu uma satisfação imensa de ver o trabalho dele e pensar que me senti representado”, conta Batista.

Ilustração de Luciano Irrthum (foto por Luiz Carlos Oliveira Ferreira)

Contemporâneo de Luciano Irrthum, o cartunista Cleuber também integrou a primeira fase do festival, em parceria com a banda The Junkie Dogs. Ele afirma que já desenhou ao vivo em outras ocasiões, mas que a projeção das ilustrações no telão foi novidade. O cartunista destaca as trocas com outros artistas como um dos resultados positivos de sua participação: “Foi bom conhecer novos desenhistas da cidade, uma garotada bem legal, alguns com traços bem expressivos. Também foi ótimo participar de mais um evento ao lado do meu amigo e veterano Luciano Irrthum”. Cleuber diz que recebeu o convite como reconhecimento de uma trajetória de mais de 10 anos de carreira. “Foi muito importante, pessoalmente e também emocionalmente, pois eu já não vivo intensamente o quadrinho como gostaria”, explica ele, que, atualmente, se dedica a projetos de outras áreas.

Performances no Stonehenge Rock Bar

Sarah Assis com Quadrinhos Rasos; Tempo Plástico com Passaporte; The Junkie Dogs com Cleuber; Desorquestra com Ricardo Tokumoto; Os Marrones com Daniel de Carvalho; Fodastic Brenfers com Luciano Irrthum
Fotos por Luiz Carlos Oliveira Ferreira

Foto por Luiz Carlos Oliveira Ferreira

Nova etapa

O festival se deslocou para outro cenário em 2015. Com a proposta de abrir espaço para a música autoral, A Autêntica inseriu o Traço em sua programação. Leo Moraes, músico e um dos sócios do empreendimento, conta como recebeu a ideia: “O Traço trouxe justamente o que queríamos: fazer a ligação da música com outras formas de arte. O festival se encaixou como uma luva dentro do que a gente sonhava para a casa”.

A conexão entre linguagens artísticas também é alvo dos estudos desde o início da trajetória do grupo Electrophone – o primeiro a integrar a nova fase – de acordo com o baixista Dieguile. A performance dos músicos foi com a artista Bel Pozes no dia 29 de maio, terceira edição do festival. “Promover o encontro multimídia e unir públicos diferentes é uma coisa que falta em BH”, diz Dieguile, ao analisar a relevância do Traço.

Antes de subir ao palco, Electrophone e Bel fizeram o rascunho da apresentação em uma conversa sobre cinco músicas do grupo compostas especialmente para o Traço, batizadas de Caronte, Nix, Hidra, Cérbero e Estige – satélites de Plutão que remetem à mitologia grega. Mesmo trabalhando a partir de um tema pré-definido, Bel conta que teve uma liberdade criativa muito grande para desenhar. “Eu escolhi fazer aquarela e nanquim. Além de gostar de trabalhar com a aquarela, eu adoro ver pessoas usando, é muito bonito. Já o nanquim com pincel eu não trabalho tanto, mas pensei que ajudaria o desenho a destacar bem quando projetado, dá um contraste legal e acho que funcionou”, explica Bel.

Apresentação de Electrophone com Bel Pozes/Artistas convidados com os organizadores do festival (fotos por Luiz Carlos Oliveira Ferreira)

Ao final das performances, a ilustração no papel fica como registro do que aconteceu no palco. As bandas Electrophone e Madame Rrose Sélavy levaram isso para a música por meio do bootleg, gravação feita em mesa de som ou por captação direta. Os grupos já estão familiarizados com esse tipo de documentação e disponibilizam as faixas para download pelo preço que o ouvinte considerar justo. O desenho de Bel Pozes criado no encontro com o Electrophone virou capa do EP que registrou esta apresentação, intitulado Novo Horizonte. Já a gravação do show da banda Madame Rrose Sélavy foi lançada com o nome de Bootleg Traço (ao vivo 3). “Foi um registro maneiro e carinhoso”, comenta Batista, que voltou ao Traço na quarta edição do festival, desta vez como baixista da banda Madame Rrose Sélavy.

Para o artista Bruno Rios, que se apresentou no dia 24 de julho, encerramento da temporada n’A Autêntica, desenhar ao vivo é “risco, feeling, revelar o traço ao longo do show sem algo pré-estabelecido”. Em performance com o funk-soul-rap da banda Coletivo Dinamite, ao invés de priorizar o resultado, Bruno optou por dar maior destaque ao processo, criando camadas de ilustrações que gerassem ruídos e sobras para a próxima folha, lembrando a improvisação que acontece nas batalhas de MCs.

Foto por Luiz Carlos Oliveira Ferreira

Bruno desenhava sobre um bloco alternado de papéis e carbono, e, na medida em que traçava algo, retirava as páginas superiores. Dessa forma, as seguintes tinham o registro daquilo que o artista havia desenhado anteriormente. A partir da nova tela, ele criava outras imagens sucessivamente até o final do show. Assim como a performance de Bruno Rios, o festival se moldou a cada novo desenho que surgia em sua trajetória e, entre erros e acertos, o Traço fez do último carbono seu passaporte da fase independente para a de novas parcerias.

Apresentações n’A Autêntica

Electrophone com Bel Pozes; Paquiderme Escarlate com Matheus Ferreira; Mentol com Flávio Gatti e Hugo Rezende; Ram com Luiz vs. Zé; Madame Rrose Sélavy com Bianca; Coletivo Dinamite com Bruno Rios
Fotos por Luiz Carlos Oliveira Ferreira

Traço no FIQ

Vídeo de cobertura do Traço no FIQ (Imagens e edição: Eduardo Drummond/Produção: Pulo Comunicação e Arte)

O Traço música e desenhos ao vivo vestiu sua melhor roupa para se tornar a festa oficial do Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), em novembro 2015, a convite do Sesc Palladium. O formato de três apresentações por noite não foi novidade, mas o evento, que ocupou o foyer do Palladium, contou com entrada gratuita. Durante o dia, o local é iluminado principalmente pela luz natural que entra pelos vidros da fachada, mostrando a quem passa pela Avenida Augusto de Lima o que acontece lá dentro. Pessoas leem em uma pequena biblioteca, algumas se acomodam nos sofás dispostos pelo espaço, enquanto outras o utilizam como passagem para a Rua Rio de Janeiro.

As noites de 10 e 11 de novembro alteraram essa rotina. Um palco rente ao chão ocupou a área dos sofás, em frente à biblioteca. As passagens que antes significavam travessia tornaram-se passagens de som. Instrumentos eram deslocados, o telão foi posicionado próximo às janelas e a prancheta terminou a composição. Para a festa começar, faltavam apenas os convidados. Desta vez, além dos participantes locais, o Traço contou com alguns de outros estados, tanto nas apresentações quanto no público, que veio para Belo Horizonte por causa do FIQ.

Montagem (Pulo/Divulgação)

Dos estandes da Serraria Souza Pinto, sede do Festival Internacional de Quadrinhos, para o foyer do Sesc Palladium, o ilustrador paraibano Shiko aproveitou a vinda ao FIQ para aceitar o convite de se juntar a banda Absinto Muito em uma das noites do Traço. Outro artista que participou da festa foi o paulista Rafael Castro, que, acompanhado de sua banda, se apresentou em parceria com o diretor audiovisual e artista plástico mineiro Conrado Almada.

Shiko/Rafael Castro (fotos por Luiz Carlos Oliveira Ferreira)

A produção de Minas Gerais também teve espaço no festival com o trabalho do desenhista de Montes Claros Marcelo Lelis. Com trinta anos de carreira, o ilustrador tem obras lançadas no Brasil e em outros países, além de prêmios como o Troféu HQ Mix. Para ele, que se apresentou com a banda Matheus Rodrigues Septeto, os erros cometidos ao vivo fazem parte da criação. “Até a bateria ao meu lado trepidando minha mesa ajudou no processo”, brinca Lelis, que produziu desenhos em aquarela.

Matheus Rodrigues Septeto com Marcelo Lelis (foto por Luiza Palhares)

Integrante da nova geração de quadrinistas, a autora das histórias do livro Navio Dragão Rebeca Prado sentiu na pele a experiência de desenhar diante da plateia quando dividiu o palco com a banda Desorquestra na primeira noite: “Sou bem ansiosa para qualquer coisa que me coloque em evidência. Mas eu estava realmente me divertindo durante o show, então foi muito mais tranquilo do que eu esperava”.

Desorquestra com Rebeca Prado (foto por Luiza Palhares)

Como uma das representantes das mulheres nas artes visuais do festival, Rebeca nota que a inserção feminina na área melhorou. Ela atribui essa evolução à luta das próprias mulheres e à qualidade cada vez maior de seus trabalhos. Ela pontua, porém, que é preciso se ter mais inclusão. “É bom lembrar que apenas ‘deixar’ que participemos dos eventos não é abrir espaço. Reconhecer é abrir espaço, colocar mulheres concorrendo e ganhando prêmios é abrir espaço. Não fazer comentários sobre a relação entre gênero e produção é abrir espaço. O buraco é mais embaixo”, explica Rebeca.

Assim como a ilustradora, a cantora Zaika dos Santos – que participou do festival ao lado do quadrinista Jão – destaca a busca das mulheres como fator determinante para criar oportunidades para a produção artística feminina. “Atualmente acho que a gente está muito mais ativa, mais empoderada e se impondo com muito mais força”, diz ela. No foyer, Zaika mostrou como seu trabalho é um instrumento para combater machismo e racismo, seja por meio da própria performance ou por suas letras. A união entre música e desenhos completou a mensagem: o resultado foi uma narrativa gráfica de Jão inspirada em uma história contada pela cantora, que tem como tema central a valorização da identidade de duas mulheres negras.

Zaika dos Santos (fotos por Luiza Palhares)

O público que acompanhava o show e a projeção das ilustrações foi convidado por Zaika dos Santos a subir ao palco e sentir as batidas por meio da dança, incorporando ao Traço mais uma modalidade, além da visual e da música. Se na sexta a artista chamou o público ao palco, no sábado o caminho foi inverso. A banda Absinto Muito também se deixou levar pelo improviso da dança, mas foi o vocalista Efe Godoy quem desceu em direção à plateia e fez de lá seu espaço. Outro membro do grupo, o baterista Dedé, conta que a interação é uma característica comum em seus shows, mas destaca que a estrutura do festival favoreceu essa proximidade. “O palco estava massa para tocar umas danças, o desenhista pôde sentir a energia que estava rolando, o pessoal estava agitadão”, observa. A performance da banda Absinto Muito com Shiko encerrou a edição Traço no FIQ.

Primeira foto (por Luiza Palhares): Palco na apresentação Zaika dos Santos com Jão/Demais imagens (por Luiz Carlos Oliveira Ferreira): Performance Absinto Muito com Shiko

Apresentações do Traço no FIQ

Matheus Rodrigues Septeto com Marcelo Lelis; Zaika dos Santos com Jão; Desorquestra com Rebeca Prado (fotos por Luiza Palhares)
Fernando Mascarenhas com Carol Merlo; Rafael Castro com Conrado Almada; Absinto Muito com Shiko (fotos por Luiz Carlos Oliveira Ferreira)

Imagem extraída do vídeo de cobertura do Traço no VAC (Eduardo Drummond)

Traço vai ao VAC

O Verão Arte Contemporânea completou dez anos em 2016 e o Traço música e desenhos ao vivo fez parte de sua programação. O VAC tem como proposta valorizar a experimentação artística e a interação entre as linguagens, assim como o Traço, que inaugurou a série Jão convida. O desenhista escolheu o grupo Electrophone para uma performance no dia 10 de janeiro e, no dia 11, a banda convidada foi a Valsa Binária. O novo formato deixou o caráter de festa para trás e apostou em uma apresentação mais intimista em um dos teatros do Centro Cultural Banco do Brasil, com classificação livre para todos os públicos.

Jão convida Electrophone (foto por Netun Lima/Divulgação VAC 2016)

“É sempre bom tocar para crianças, impressionante como elas têm uma abertura muitas vezes maior, não têm preconceito, elas simplesmente sentem a música e interagem com aquilo”, comenta Leo Moraes, vocalista da banda Valsa Binária. As crianças puderam correr, dançar e se apropriar livremente do espaço, aproveitando a ausência de um palco.

Jão convida Valsa Binária (imagem extraída do vídeo de cobertura do Traço no VAC — Eduardo Drummond)

Um menino se aproximou da prancheta de Jão para ver o que se passava por ali. Para a plateia, era projetado um quadro em plano fechado. Já para o pequeno explorador era revelada uma história feita de vários desses quadrados, que só puderam ser vistos pelo público no final da performance. A experimentação que atraiu a curiosidade do garoto continua a ser traçada pelo festival, que reúne cada um de seus “quadrados”, com suas particularidades, para então chegar a um resultado composto por suas diferenças.

Imagem extraída do vídeo de cobertura do Traço no VAC (Eduardo Drummond)
Imagens extraídas do vídeo de cobertura do Traço no VAC (Eduardo Drummond)
Vídeo de cobertura do Traço no VAC (Imagens e edição: Eduardo Drummond/Produção: Pulo Comunicação e Arte)

Próximos passos

Desde o início, o Traço percorreu processos de transformação e redescoberta. As mudanças têm como objetivo vivenciar novos modelos de apresentações. O festival passou por locais diferentes, bandas de diversos gêneros integraram o mesmo dia de programação, técnicas de ilustração variadas puderam ser vistas nas projeções e o formato de três apresentações por noite foi alterado para a série Jão convida.

Recentemente, o Traço ganhou mais uma chance de experimentar por meio de sua aprovação no Fundo Municipal de Cultura de Belo Horizonte. Marcos Batista, que participou como músico com as bandas Fodastic Brenfers e Madame Rrose Sélavy, além de ter integrado as bancas de produtos gráficos, possui expectativas para a nova fase do festival, em que participará com outro grupo musical. “Que [a banda] Fadarobocoptuabrão continue viva até lá, que o Traço aconteça numa janela menor de tempo, dando uma cara mais nítida de festival para ele; que, em outras oportunidades, a programação possa ter artistas de fora, criando um intercâmbio. E que a equipe receba uma remuneração justa e satisfatória pelo trabalho”, deseja.

Linha do tempo do festival

Sobre processos, encontros e improviso

Havia escutado o Matheus [Rodrigues Septeto] antes e com isso já tinha na cabeça um pouco do universo das músicas dele. Decidi esboçar antes de começar o show porque achei que o tempo seria curto para o que eu pretendia fazer. No final deu tudo certo. Até a bateria ao meu lado trepidando minha mesa ajudou no processo.

Marcelo Lelis, desenhista

Foto por Luiza Palhares
O processo criativo com o Jão foi muito rápido e significativo, partiu dessa troca de ideias que tivemos quando nos conhecemos pessoalmente. Eu falei da minha necessidade em relação ao empoderamento da mulher negra e trouxe essa proposta para que ele fizesse a intervenção. (…) Jão absorveu isso com muita facilidade, com um olhar muito peculiar e cuidadoso. (…) Acho que houve um casamento artístico bem politizado e bem forte, bem interessante.

Zaika dos Santos, cantora

Foto por Luiza Palhares
Todo mundo da banda [Desorquestra] foi bem legal comigo o tempo todo, e me deixaram bem livre mesmo. Fizemos alguns combinados sobre a temática do desenho, sobre as músicas que tocariam naquele dia. Mas foi bem livre e carinhosa a forma como eles trataram meu trabalho!

Rebeca Prado, desenhista

Foto por Luiza Palhares
Foi doido demais. A gente foi para o boteco, trocou uma ideia, bebeu uma cerveja com ele [Shiko]. A partir da conversa, ele percebeu a parte lisérgica e psicodélica da banda e decidiu usar aquarela. Mas acabou que fluiu muito também na hora, porque o show que a gente apresentou ele nunca tinha visto. A pira foi acontecendo mesmo.

Dedé, banda Absinto Muito

Foto por Luiz Carlos Oliveira Ferreira
Foi completamente improvisado. Conhecia e curtia a banda [Coletivo Dinamite] de outras épocas. O grupo se influencia muito com rap e fiquei pensando nisso. Criar um modo de desenhar que abrisse deixas para cada desenho que estava por vir, numa espécie de diálogo, de batalha…

Bruno Rios, desenhista

Eu não conheci a banda [Electrophone] pessoalmente até o dia da apresentação, mas entrei em contato com eles para saber um pouco do que pensavam para o show. Eles tinham um planejamento que me dava uma liberdade criativa muito grande, e, ao mesmo tempo, me dava uma linha guia muito legal. (…) O desenho foi planejado antes, mas não a ponto de estar fechadinho. Era mais um rascunho geral da composição.

Bel Pozes, desenhista

Não sou muito de processos de criação, de produção, e tal… eu deixo fluir, quase sempre foi assim com meus quadrinhos, meus roteiros saíam de acordo com o desenho, eu sempre fui o primeiro leitor do meu quadrinho no sentido de não saber o final. Então, durante a apresentação da banda [The Junkie Dogs] foi a mesma coisa, deixei acontecer, não planejei desenhar nada de antemão.

Cleuber, desenhista

Meu processo foi muito natural, acredito que a curadoria acertou bastante no meu caso. Já conhecia o som da banda [Desorquestra] e a organização nos colocou pra conversarmos antes do evento, o que nos deixou mais a vontade. A sonoridade da banda conduziu completamente minha produção criativa, proporcionando resultados que eu não conseguiria obter em nenhuma outra circunstância. (…) Quando o público cantava junto com a banda, eu sentia essa sintonia que apenas performances ao vivo diante de um grande número de pessoas promovem. O clima do festival foi bastante agradável nesse sentido.

Ricardo Tokumoto, desenhista

É um festival que tem uma coisa bem contemporânea, justamente por mesclar duas artes que têm bastante a ver, que sempre tiveram uma relação próxima. Eu acho que o Traço acerta muito nessa união e é algo interessante para o artista que está acostumado a desenhar em um quarto, em um ambiente mais íntimo, subir ao palco e fazer a coisa ali ao vivo. Para ele também deve ser uma experiência muito legal e a interação com a música é perfeita para isso, para o tempo real acontecendo em frente ao público.

Leo Moraes, banda Valsa Binária


Críticas

O tratamento com os músicos e, me parece, também com os desenhistas é muito bom e correto. Acho que se fosse outra equipe conduzindo o festival, faria sem o mesmo cuidado, sem cachê, sem esse expertise de produção pequena mas feita para crescer.
O ponto negativo, eu acho, é não conseguir se caracterizar como um festival, pelo menos para mim. Parece mais uma noite com bandas avulsas. Eu não vejo unidade no processo todo.

Marcos Batista (Fodastic Brenfers, Madame Rrose Sélavy)

Não vejo nada de negativo, tudo foi muito bom, a experiência é que vale. Poder fazer um evento assim não é fácil. As mudanças, os arranjos pra edições futuras podem mudar naturalmente, assim como nosso traço. Deixar fluir.

Cleuber, desenhista

No cenário independente aqui em Minas Gerais, por causa da dificuldade quanto ao processo artístico e circulação, há uma segregação de áreas (…). Então, o Traço é muito importante quando ele traz essa diversidade musical com a junção às artes visuais. É um processo inovador.

Zaika dos Santos, cantora

Acho o festival muito massa, que conseguiu movimentar a cena da cidade de uma maneira legal.
Para os próximos, pensaria em uma edição dos desenhos que foram produzidos durante o festival.

Bruno Rios, desenhista

Para o público é uma chance de conhecer uma variedade de novas bandas, de artistas visuais, ver como as coisas acontecem de perto e experienciar algo fora do padrão que a gente costuma ter por aqui. Por favor, façam mais festivais pra gente, sério.
[Receber o convite para participar] foi horrível! hahahaha… Calma que explico! O Jão me conhece da EBA, e sabe que eu não conseguia fazer uma linha que fosse com alguém do meu lado. Eu aceitei – admito, grande parte por vergonha de recusar mais um projeto doido que ele tenta me colocar –, e depois veio o desespero. E veio filmagem de TV também! E mais desespero! hahaha…

Bel Pozes, desenhista

Organização ótima, cuidado dos produtores, escolha das parcerias, foram várias vitórias. (…) O convite foi super inesperado! Eu já havia acompanhado outras edições e ficava sempre feliz por estar ali observando de perto essa iniciativa. Agora estou mais feliz ainda por ter participado ativamente!
De ponto negativo teve a chuva, mas aí já é o universo agindo!

Rebeca Prado, desenhista

O Traço já é um nome que se estabeleceu após esse número de edições. Tanto na área musical quanto para as artes, se tornou um ponto alto no radar do calendário cultural belo-horizontino.
O único ponto negativo foi a chuva, mas que, ainda assim, não chegou a atrapalhar, pois o local possuía uma cobertura total. Talvez a iluminação das banquinhas poderia ser um pouco maior, mesmo que sendo mais focal, para não atrapalhar os arredores.

Ricardo Tokumoto, desenhista

Incrível experiência. Sempre desenho ao vivo nos festivais ou em lançamentos de meus livros. Mas fazer uma performance enquanto uma banda faz seu show foi uma experiência única. (…) Acho que encontraram uma boa fórmula de juntar duas expressões que são muito afins. E da forma como o fizeram, com boa luz e ótima projeção, trouxe requinte, trouxe profissionalismo.

Marcelo Lelis, desenhista

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