Mulheres de palavra

Não existe literatura feminina, inclusive porque isso presume que A Literatura, com L maiúsculo, seja coisa de homem. Existe literatura e ponto”, a cantora e poeta Karina Buhr é categórica. A verdade é que as mulheres ainda estão conquistando espaço no ambiente literário, Cecília Meireles, Raquel de Queiroz, Clarice Lispector, Hilda Hilst, as primeiras grandes escritoras brasileiras apareceram na década de 40, praticamente ontem.

Elas abriram muitas portas para as mulheres começarem a escrever e a serem publicadas e reconhecidas. Mas, a nova geração de escritoras contemporâneas não está mais a sombra desses grandes nomes e chega com um fôlego totalmente renovado. Elas estão levando a literatura para a rua de fato, fazendo eventos literários, lançado livros de forma independente e escrevendo muito e com qualidade.

A cachoeirense Aline Dias é uma dessas mulheres. Com dois livros lançados (Vermelho — Cousa, 2012 e Além das pernas, — Pedregulho, 2015) e o terceiro, “A única coisa que fere é manhã pós-amor”, já no prelo, a escritora vê que as mulheres têm tido mais coragem para publicar e estão se arriscando mais também.

“Dez anos atrás eu me lembro de ouvir a Natasha Siviero dizendo que o que ela escrevia não era universal. E não era universal porque tinha útero. Mas aí a gente vai se juntando e uma vai vendo que a outra também tem questões parecidas, juntas a gente se fortalece e percebe que há interesse nesse não-universal que é universal sim, mas que é feminino”, explica.

Aline Dias é uma das produtoras do evento Cachaçada Literária e faz questão de chamar a mesma quantidade de homens e mulheres para participarem do sarau. Para ela, as mulheres ainda são “esquecidas” nos eventos literários. “As listas de eventos tradicionais tem poucas mulheres sob a bênção do discurso do “não olho gênero, olho qualidade”. (insira aqui seu palavrão favorito)”.

Para Isabella Mariano escrever é vital. “É como ter que beber água para manter o coração batendo, o sangue correndo na veia”. A poeta é também editora da Revista Trino e produz uma Oficina de Escrita Literária só para meninas.

A segunda edição da Trino saiu neste mês de março e foi toda voltada para a literatura feita por mulheres e umas das colaboradoras foi a escritora Bernadette Lyra. “O artigo que a Bernadette nos enviou desconstrói toda essa diferenciação entre literatura de homem e de mulher. A partir daí, decidimos casar todo o conteúdo da revista com esse tema, desde o editorial até os artigos publicados são todos feitos por mulheres”, diz Isabella.

Já o projeto Elisas é uma Oficina Literária voltada especialmente para meninas secundaristas. A ideia é dar suporte às meninas que têm interesse na literatura, mas não sabem por onde começar. “Queremos ainda apresentar para elas escritoras mulheres e mostrar um caminho possível dentro da literatura. Na minha estante, durante muito tempo, só se viam livros escritos por homens. Foram poucas as mulheres escritoras que conheci dentro da sala de aula”, declara Isabella.

A Educação também tem papel importante quando se fala em visibilidade e equidade de gênero dentro do universo literário e Isabela já percebe algumas mudanças nesse sentido. Ela lembra que na escola, pouquíssimos nomes de escritoras mulheres lhe foram apresentados, apenas na universidade ela se deu conta que poderia lançar um livro. Inclusive, Isabela já lançou dois: gotas (2013) e Cortes Lentos (Pedregulho, 2016).

“É meio como a Virginia Woolf já falou: se Shakeaspeare tivesse uma irmã, ela teria escrito tão bem quanto ele? Provavelmente não, porque naquela época não lhe seria concedido esse espaço, esse direito. Ela nem mesmo saberia que seria capaz. E as meninas precisam crescer sabendo desse legado que Woolf e tantas outras nos deixaram: elas podem”, afirma.

A escritora Marília Carreiro, que já publicou Opala Negra (Pedregulho — 2014), se divide entre a editora e a literatura. Idealizadora da Pedregulho, ela explica que a sua editora trabalha a diversidade em todas as suas formas. “Desejamos que as minorias sejam colocadas onde elas devem estar: em destaque”, diz.

Em 2015, por exemplo, ela publicou somente mulheres. Ano passado, dois livros que tratam abertamente da diversidade sexual foram publicados. Quando perguntada se vê algo semelhante entre as mulheres que publica ela diz que não. “Os estilos e as temáticas são totalmente diferentes, talvez o único ponto em comum seja que elas têm o mesmo objetivo de abrir espaço para outras mulheres que possam participar também de movimentos — seja na literatura, nas artes, no teatro, na filosofia”.

O universo literário ainda é muito dominado por homens, mas a Pedregulho descobriu um jeito para driblar o machismo. A editora, por ser pequena, trabalha com freelancers e tenta, de todas as maneiras, que a maioria seja mulheres. “Acredito que juntas todas nós somos mais fortes e que temos muito a acrescentar uma na vida da outra, inclusive a força, que se sustenta melhor em grupo”, finaliza.

Elas por Elas

Isabella Mariano recomenda Ana Cristina Cesar

Li “A Teus Pés” pela primeira vez ainda menina. Não entendi muito e, talvez, se fosse um filme essa vida, ali seria o marco dessa minha louca paixão por escrever poemas. Gosto de como ela escreve, sobre o que escreve, do deboche, da ironia. Gosto da humanidade que há em cada verso, porque me aproxima de uma Ana que nunca vi, mas que poderia ser eu. Gosto desse poder da literatura, de nos conectar, e os textos dela fazem isso em mim de uma maneira que poucos conseguiram e conseguem fazer.

Marília Carreiro recomenda Aline Dias

Um dos livros que gosto bastante e que tive muita alegria em publicar foi o “Além das pernas,”, da Aline Dias. Aline conseguiu, nos 26 contos do livro, desmistificar o conceito de sexo frágil e de que mulher é um ser dependente. Mostrou que mulheres têm suas crenças e descrenças, podem fazer e usar o que quiserem, têm o direito de não se apaixonar e, acima de tudo, de sentir prazer. As mulheres-personagens do livro lutam por seus direitos, quebram estereótipos sexuais e denunciam preconceitos através de uma linguagem aberta e pé no chão.

Aline Dias recomenda Anne Ventura

Anne Ventura. Porque ela é foda.


Por Lívia Corbellari