A exigência de um nome

Você já foi traumatizada? você já duvidou de si mesma? já duvidou da sua versão dos fatos?

Eu passo por isso, toda semana eu vou pra terapia e toda semana o assunto não muda. A culpa, o medo, mas e se…

E se…

Poderia ter sido tão diferente, se eu fosse mais inteligente

Poderia ter sido tão diferente, se eu não tivesse confiado

Poderia ter sido tão diferente, se eu não tivesse me calado

Esse é o momento mais difícil da semana pra mim, o momento que eu tenho que retomar tudo — Retomar, e ainda assim, duvidar de mim mesma. Continuar duvidando.

No resto dos dias é um pouco mais fácil de lidar, ainda é tudo muito vivo, mas eu não penso toda hora sobre isso. Eu não choro sobre isso (e é uma das coisas que pesa muito e faz eu sentir uma grande culpa), mas por estar ativamente no meio feminista, a gente ouve mulheres falando sobre isso, e aí a gente fala. Eu falo, falar me ajuda a entender, faz com que eu me ouça e tenha dimensão dos fatos, mesmo que eu continue duvidando.

E falar é difícil, já que por muito tempo eu não tive dimensão e me calei. O problema é que por falar, as pessoas acham que você deve informações pra elas, que você deve provar as coisas e que a sua maior vontade é expor isso, da forma que for.

Se eu falo é pela minha própria saúde mental, eu preciso liberar isso de alguma forma. Tem gente que chora, eu falo.

Se eu falo é por causa das tantas vozes que não tem noção do que viveram, e encontram abrigo na minha voz.

Se eu falo é por saber que tem gente que continua calada, se perguntando todos os dias: Será?

Se eu falo é pelo respeito e cuidado que eu tenho comigo mesma, de saber que a minha voz importa, que a minha experiência precisa ecoar, por entender que a pior morte é aquela em que continuamos vivendo, mas calados e amedrontados.

Então, respeite minha voz! respeite minha vivência! Dói, e não é pouco, quando vocês dizem: “Mas quem foi?”

Sabe como soa? soa como se vocês não acreditassem em mim! E não precisa dizer: “Não é bem assim, eu quero saber por achar que devemos expor! Devemos alertar outras mulheres!”

Olha, eu me importo muito de alertar outras mulheres, mas a minha dor continua bem viva, e se teve uma coisa que eu aprendi com toda essa dor é que empatia deve ser muito mais que uma palavra bonita no dicionário. Empatia é sobre saber que alguém viveu toda a merda que viveu, e ainda assim estar disposto em segurar as mãos, abraçar, e nada além disso. A sua “preocupação” em saber “como aconteceu, quando foi, com quem foi” retoma muita merda nas nossas cabeças, e nós já somos fudidas o suficiente por uma sociedade patriarcal, que sempre desconfia de nós e sempre quer saber:

QUEM FOI?