Quedas silenciosas: Sobre Militância e doenças psicológicas

Muitas e muitas pessoas já me disseram que movimentos sociais não são lugar para as nossas frustrações, nossos problemas ou para amizades. Acho que algumas pessoas já escutaram o mesmo que eu.

Pra quem escuta isso é como se você precisasse colocar uma armadura, cada vez que fosse pensar em se levantar contra algo e lutar contra alguma opressão. Não pode ficar triste, não pode cansar e querer parar, é apenas raiva, é apenas lutar, é apenas responsabilidade. Tem que ir na reunião, tem que falar sobre, tem que problematizar, tem que ter peito e brigar, não pode chorar e cansar.

AI MEU DEUS, EU NÃO AGUENTO MAIS!

No outro dia você determina que vai ser diferente, que não vai mais falar sobre o assunto, que precisa de um tempo pra pensar e descansar ou você vai surtar. Como assim? e tem que ter tempo pra si? a opressão continua lá bem viva, te explorando, te massacrando. Me admiro de ti, gente em condição muito pior do que a tua e ainda de pé. E as outras? só pensa em si, na dor dela, no cansaço dela, nos problemas dela.

AI MEU DEUS, EU PRECISO IR ADIANTE, NÃO SEI COMO, MAS PRECISO!

E a gente começa a viver como alguém que precisa correr uma maratona com um sapato apertado no pé, ou seja, de forma bem simples e direta: a gente começa a viver uma vida com dor. Do outro lado a gente escuta os gritos de quem apenas grita pra continuarmos, sem oferecer uma água sequer. E a gente acha que é normal, que é preciso continuar desse jeito, já que tem gente esperando por nós.

Nós não somos ovacionados, quando chegamos lá. Tem que doer pra sentir que tá no caminho certo, mas não é nada mais que a nossa obrigação. Quanto mais doer, melhor. Se sangrar, então, aí é sinal de que merece até uma medalha de honra ao mérito. Nada além disso.

E sinceramente, ninguém nessa situação quer palmas ou reconhecimento. Nós queremos aquilo pelo qual nós dizemos lutar, dignidade. É impressionante como nós queremos que os nossos opressores caiam, mas ao mesmo tempo nós estamos caindo (silenciosamente) o tempo todo. Nós estamos sangrando incessantemente. Nós estamos temendo mostrar que somos humanas, que sentimos dores absurdas. Nós estamos tendo que continuar.

E pra ser sincera, eu não sei se aguento continuar…

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