A Mídia, o Islã e nós

O que você provavelmente não ouviu, leu ou assistiu

“Tu pega aquele momento [atentado terrorista] generaliza algumas informações e cria um estereótipo, que vira preconceito, que vira discriminação. Agora, fala qual é objetivo? Por exemplo, você vê uma noticia, sei lá, dois, três anos atrás, teve um rapaz na Finlândia branco, fundamentalista cristão que pegou uma arma e matou mais de 70 pessoas, você acha que algum jornal botou fundamentalista cristão mata em nome da bíblia ? Não. Se isso acontece no mundo muçulmano, chamaria de muçulmano terrorista. Há um tempo atrás, não precisa ir muito longe, nos Estados Unidos, quantas pessoas entraram em escolas, armadas e mataram um monte, imagina se acontecesse em uma escola muçulmana,imagina qual seria a notícia. Nós vemos, assim, pouco interesse, eu não sei se é a pauta, se é a redação, se é o editor, eu não sei quem faz isso. Quando teve o atentado no Charlie Hebdo, em janeiro do ano passado, vieram centenas de jornalistas perguntando para nós o que nós achávamos, claro que nós achamos errado, né, nós achamos errado, pô, mas insistem, insistem. Isso acaba virando um estigma para as pessoas, muçulmano terrorista, terrorista é muçulmano, sendo que não é verdade, assim como não é verdade que não existem muçulmanos que cometem terrorismo. Só que eles não comentem, porque a religião está cobrando deles, a pessoa é louca. Se nós pensarmos na história, a ditadura matava, torturava as pessoas em nome de um negócio, em nome de um emblema, que era democracia, agora o que era democracia para eles? O problema é que essas pessoas descontroladas, grande parte da imprensa tenta colocar como muçulmano. Em 2011, 2012 teve aquele caso no Realengo,lá no Rio de Janeiro, de um rapaz que matou dez crianças, ficaram divulgando que ele era muçulmano, era muçulmano, porque ele tinha uma barba grande, foram ver e ele não era. Então essa tendência, cria na sociedade um estigma, um estereótipo, muçulmanos é isto, é aquilo e nós acabamos pagando o pacto por isso. Não é que a imprensa, não dá espaço. Não. Isso é decorrente de má informação ou de má intenção, vocês jornalistas sabem bem, quem é que poem. Fizeram uma reportagem sobre o Estado Islâmico e o Fantástico veio aqui na Mesquita falar comigo, gravaram 35 minutos de vídeo, passaram 15 min falando o que o Estado Islâmico faz e, no final, só botaram uma imagem minha dizendo ‘não é certo’. Isto é tendência, é isso que gera tudo, sabe. São raríssimos os casos que buscam esclarecer. Então quem é que cria isso, é a mídia, é uma coisa, assim , que você muda as palavras que eu vou empregar. Hoje grande parte da imprensa mundial, faz o mesmo papel da inquisição. O que a inquisição na Idade Média fazia, você concorda com a Igreja Católica, tá vivo, você não concorda é queimado. Agora, alguém consegue falar o que acredita, o que é certo, mas vai contra os interesse de quem está noticiando? Não estou falando no 4°, mas do 5°, 6° poder do mundo hoje. Esses terroristas usam o nome da religião para fazer isso, mas tu tratam que é a religião muçulmana, ele foi na mesquita ,ele assistia aulas lá, ele lê o alcorão. Fica chato isso.”

Quarta feira, dia 27 de abril, o sheikh Rodrigo Rodrigues, de longa bata branca e taqiyah (chapeuzinho), respondia minhas indagações referentes a cobertura midiática sobre o Islã. Sentávamos em grande salão da Mesquita do Pari, no Brás. Seu falar cantado, seu ‘tu’ puxado, logo denunciam sua origem, gaúcho de nascença, me disse que seu interesse pelo Islã começou na juventude em meio a curiosidade de ler e aprender sobre história e geografia, “ vi que tinha um livro chamado o Alcorão, li o Alcorão, procurei entender o Alcorão e foi assim que me converti a religião muçulmana, assim que me tornei muçulmano.”

O conhecimento e a busca em entender o Alcorão, livro sagrado é essencial para a religião muçulmana. Todos os sábados as 15h tem uma aula de religião , de acordo com o sheikh “Não há pregação nas aulas, estamos ensinando como entender o Islamismo.”

No salão, envolta dos sofás, onde entrevistei o sheikh, há agora uma lousa e cadeiras enfileiradas, do lado esquerdo sentam os homens e do direito as mulheres. Sento-me na última fileira, sou a unica sem hijab, véu islâmico.

Um dos alunos lê o texto das apostila, até o Rodrigo pedir para parar. Pede para sublinhar as partes mais importantes ou mesmo para colocar aspas na palavra obrigatório, ora pega o canetão e explica, por exemplo a etimologia da palavra Muhammad em árabe e como ela foi dicionarizada na Europa por Baphomet( diabo da mitologia Iugoslávia), pode “pesquisar no Google “* garante. Formado em Ciências Socias pela Universidade Cruzeiro do Sul e na Universidade Rei Saud na Arabia Saudita, esclarece conceitos como a diferença entre profeta e mensageiro, propõem mais questionamentos o que é fé ? Recorre a história dos muçulmanos e salienta a sua diferença em relação a historia do Islã, critica o uso dos termos sunitas e xiitas peala mídia, “ quando na TV fala milicia sunita mata … está xingando o profeta” Começa a contar sobre o inicio da religião, criticando o extremismo inicial dos muçulmanos,” eles abriram mão de aprender o Islã, gente louca, chama o Samu”. Permeando os ensinamentos, lá está seu enorme senso de humor, cita o” 1% Safadão”, compara os mentirosos do texto sagrado como “um baita Cunha da vida”. Jovens e adultos dão risada, nos intervalos ha ainda uma boa mesa com café e bolo. Assim, parece concretizar-se a máxima muçulmana“a minha casa é a sua casa”.

“ Nós vamos aproveitar que você está aqui para transmitir o outro lado do Islã, o lado que as pessoas não conhecem, as pessoas acham que os muçulmanos são tudo uns cara de roupa branca, barbudo, sabe, por que agora você está conversando com um sheikh que é uma pessoa oficial, a minha realidade é bem diferente das outras pessoas, o sheikh tá tranquilo, na boa, tá tranquilo, tá favorável. Mas tem pessoas muçulmanas que tem uma vida como todo brasileiro tem.”

Não precisei levantar da minha cadeira, durante o intervalo, uma moça que estava na outra ponta levantou-se e sentou ao meu lado. “É a sua primeira vez aqui ?” Simone, converteu-se a 26 anos atras. No começo, disse foi bem difícil, sua família não aceitava, principalmente o uso do véu. Pergunto o que ela sente quando entra na mesquita, “sinto paz, sossego, é como se toda aquela cobrança e do dia a dia acabasse, queria que mídia divulgasse o que alcorão prega de verdade.”

E foi em busca desse verdade que a Samantha encontrou o Islã, “a mídia negativa tem um porque e acaba as vezes resultando em outras coisas”. De hijab jeans, me conta que após os ataques ao Charlie Hebdo, como todo brasileiro que não conhecia o Islã, ela se questionou que religião é essa tão violenta. Formada em psicologia, ela passou, então a estudar qual o estímulo dessas pessoas e em base no que do Alcorão agiam dessa forma, “ o que eu encontrei foi completamente do que a mídia divulgava. Quando comecei a estudar percebi que a religião prega muita paz, me deparei com coisas extremamente positivas e que inclusive que inclusive iam mais de acordo com a minha crença que o evangelho, no qual eu cresci.” Através das redes sociais descobriu que o Dawa Brasil, programa de promoção e esclarecimento sobre a religião, fariam um evento no vão do Masp, “fui correndo por que estava com sede de conhecimento, fui extremamente recebida, aliais a moça que me recebeu esta aqui hoje, de hijab amarelo.

Essa era Rita, “sempre fui muito crente em Deus, relatei isso no meu shabab”. Shabab é a cerimonia de reversão, uma declaração de fé e aceitação do profeta Muhammad como mensageiro único de Deus. Foi passando de religião e religião até se reverter em 2012, “comecei a ler, a estudar a religião e veio de encontro com tudo o que eu procurava. Como membro do Dawa Brasil quer levar o Islã para rua, explicar e tirar duvidas sobre a religião.

“Cada vez que estoura um caso com algum maluco extremista desse grupos fundamentalistas islâmicos, recai sobre a gente.” Rita relata,também, que apos o episodio do Charlie Hebdo, enquanto passava na rua gritaram “ê terrorista” porque estava usando o véu “eu respondo pelos meus atos e não pelos atos dos outros”.

A islamofobia, o xingamento, o cuspe, o empurrão, a pedrada. Os fieis diante do preconceito, acabam abandonando o véu e a barba para não serem vistos como radicais. Escondem seus símbolos de fé e convicção. O medo é maior.

“Olha, filha do Bin Laden”, “mulher bomba”, “Já vem com um kit de pólvora”, “Os caras ficam loucos e explodem tudo, porque eles tem mais de uma esposa”. Não, não é brincadeirinha. Samantha declara que usaria o véu por escolha e não usa por medo, “os meus pais tem muito medo da islamofobia, de alguém empurrar, machucar. Tem muita gente que julga que nós somos reprimidas pelo véu , mas, na verdade, é a sociedade que reprimi e não nos deixa usar o véu.” Simone e Sahara, durante aquele mesmo intervalo de aula, reiteraram a dificuldade de aceitação do véu na sociedade. “Eu não quero ser mutilada na rua, então, tiro muitas vezes o hijab por medo das agressões, devido a falta de conhecimento das outras pessoas. Meu medo é da rua”, segundo Simone. O preconceito estende-se, inclusive, nos núcleos mais próximos, Sahara conta que tinha combinado de sair com os amigos e ao colocar o hijab, ouviu “ se você colocar isso, nós não vamos sair não.”

Muitos desses ataques deshumanizados intensificaram-se após os atentados em Paris, questiono o sheikh Rodrigo sobre o aumento do radicalismo.

“O radicalismo não cresceu, não cresce não é um fenômeno que existe entre os muçulmanos. O radicalismo religioso esta presente em todas sociedades, entre todos os povos.” Me convida a olhar meu país. “O radicalismo religioso no brasil começou em 1500 com a primeira oração do padre Anchieta. O ocidente não olha isso como radicalismo. Justificavam a escravidão dos negros dizendo que eles não tem alma por causa da cor da pele, isso é radicalismo, falar também das cruzadas e assim por diante. E o radicalismo islâmico hoje assim como o radicalismo cristão e judeu antigamente, todo ele é movido por interesse politico.”

Como jornalista, como humanos, como hegelianos tendemos a buscar causas, olhamos os fatos como consequências, talvez esquecemos de olhar o humano, “o radicalismo seja o que for , mostra que algo na pessoa, no seu intimo, está trapalhada, perdido, isso é do ser humano.” Esses movimentos extremistas empregam o sentimento religioso, o desalento, os problemas, as angústias dessas pessoas para atingirem objetivos políticos, “por isso que cresce o radicalismo, por isso que nasce grupos fundamentalistas religiosos,pregando o que estão pregando são todos grupos consequência da instabilidade social, politica, daquela região. Assim a politica, a religião ou mesmo o futebol são usadas como massa de manobra.” explana Rodrigo.

Aceito mais um dos seus convites retóricos “ Pensemos no Brasil, nós não estamos distante de ter um radicalismo entre aspas evangélico, na ala politica. Agora você acha que aquela bancada, lá do Senado de linha frente do cunha, que são em grande parte evangélicos estão fazendo aquilo em nome da Bíblia em nome de jesus? Não. A mesma coisa acontece nos países muçulmanos estão pregando o Alcorão para atingirem objetivos políticos.” Instaura-se um ciclo “as pessoas recebem rótulos e são obrigados a rotular e aí cresce o radicalismo.”

Muhameed, considerado o profeta único para os muçulmanos diz A ignorância é uma doença e a pergunta é a sua cura.

Assim, pergunto para o Rodrigo

Quais são os pilares do islã ?

Os pilares práticos do islã nós fazemos 5 oração diárias, jejum durante o mês inteiro chamado Ramada, fazemos a caridade que chamamos em árabe de Zakat, peregrinação a meca pelo menos 01 vez na vida, esses são os pilares práticos. Os preceitos fundamentais baseiam-se em que na crença que o deus é único, que somente ele merece e deve ser adorado, que Muhammad é seu mensageiro que deus enviou seu mensageiro para a humanidade inteira, que deu exemplo de como seguir a religião de deus, que cabe aos fies seguirem essa religião. Acreditamos também como filosofia geral que o ser humano é responsável pelos seus atos, tem o seu livre arbítrio, e ele é responsável por todas as suas escolhas perante deus.”Durante a aula, o sheikh relembra “o Islã diz para você ser você mesmo.”

Sente, olha, toca, degusta, entre arabescos, luas e tâmaras*, Transformado e transportado. Entre o ser e o não ser muçulmano .Olho para mim há outros em mim .Ex pe ri ên cia. 18 anos de estudo recém completados sobre Antropologia e o Islã, Francisrosy Ferreira, antropóloga da Universidade de São Paulo, versa sobre as performances islâmicas, “sobre o mundo sensível no qual estão inseridos os muçulmanos. Da transmissão da Palavra à recepção, das mudanças corporais, gestuais e de habitus, que podemos observar no cotidiano.” Em recente artigo, publicado na revista Caros Amigos questiona o papel do jornalismo, ou melhor do (des)jornalismo. “O brasileiro certamente é um povo que gosta de religião e que se interessa em conhecer as diversas religiões que coexistem hoje no país. E o Islã, é certamente uma das que mais vem chamando a atenção, inclusive da imprensa, principalmente a partir do 11 de Setembro. Infelizmente, nem todos têm ainda a boa vontade de conhecer por dentro as comunidades e conhecer suas lideranças, suas histórias, o que fazem, preferem generalizar a partir de informações escassas que veem pipocar nas redes.”

Perguntei e ouvi. Passei depois a me questionar se realmente vivo em uma democracia como um processo de respeito a diferença. Samantha me contava a dificuldade de contar sua reversão para os próprios pais, “o medo do muçulmano para revelar a família é justamente por que a mídia coloca de uma forma errada.” Qual é o verdadeiro Islã que a mídia não divulga? Simone responde “a mídia tende aquilo que dá ibope, se dá ibope serve para eles. Mas fácil falar que muçulmano atacou, mostra a mesquita. Acho que a criminalidade choca e atrai.” Sahara completa “Falta da Mídia diferenciar, frisar que essas coisas não tem nada a ver com o Islã, mudar a imagem de um Islã radical e terrorista.”

Aula de religião na Mesquita do Pari

Na minha primeira conversa, naquela quarta-feira de abril, entrei na Mesquita para aprender, escutar, sentir. Me deparei, no entanto, com o meu eu, com o meu papel como jornalista. Vozes marginalizadas, estigmatizadas ansiavam para serem ouvidas, contempladas. Não, eu não consegui escrever sobre tudo desse mundo muçulmano, nem cheguei perto. Mas, sim escolhi como missão algo que o sheikh me falou ao final da entrevista “ quem vai mudar isso? São vocês [mídia]. Vocês que criaram e agora precisam desfazer.”

aventure-se

http://oglobo.globo.com/mundo/islamofobia-fantasma-dos-muculmanos-18059052

http://www.antropologiaeislam.com.br/

http://www.carosamigos.com.br/index.php/artigos-e-debates/6016-jihadistas-sao-todos-muculmanos

http://noticias.terra.com.br/mundo/estados-unidos/conheca-os-codigos-ocultos-na-polemica-escultura-de-templo-satanico-nos-eua,4e3124a615733bdecf1be6cf955d41eefv74RCRD.html