A natureza Humana Pode Ser Sublime

Nós seres humanos na busca de soluções sustentáveis para a vida atual costumamos nos mirar na natureza e seus fenômenos. Não raro comparamos o nosso estilo de vida e as soluções que adotamos para nossas questões diárias com aquelas oferecidas pela própria natureza, atribuindo a ela, natureza, toda sabedoria. E porque o que vem da natureza costuma ser simples e coerente, criamos uma imagem de que tudo que é natural é delicado, sublime, quase zen.

Mas para quem convive com a natureza desde criança ou pelo menos a observa atentamente sabe que nem sempre as soluções que ela traz são soluções calmas, serenas e delicadas. Na verdade a natureza é muito cruel e, não raro, trata suas questões de maneira implacável. O que é natural tem o sublime como resultado final, contudo o processo para chegar lá é rude, feroz.

Desde a passarinha que não hesita em jogar seus filhotes do ninho para que aprendam a voar às mães mamíferas que desmamam seus filhotes precocemente e logo os ensina a caçar ou buscar alimentos na natureza para sobreviver. Só que nem os pássaros ou mamíferos têm sentimento de culpa pelo que fazem ou se sentem abandonados ou injustiçados porque são “jogados na vida”. Simplesmente “sentem” que isso é o natural a ser feito.

Da mesma forma a renovação das florestas não se dá por manejos bem planejados mas sim, como fruto de intempéries, tempestades violentas que arrancam árvores e destroem tudo ao seu redor. Ou mesmo incêndios em meses secos que são responsáveis por destruições quase que ilimitadas, muitas vezes incontroláveis.

Contudo a natureza nos mostra que, após a tempestade, as árvores voltam a brotar ainda mais fortes e multi-ramificadas a partir dos galhos rompidos. Após os incêndios as florestas se recompõem abrindo espaço para novas espécies e para uma florada magistral, mais intensa. O bebê mamífero desmamado aprende logo a sobreviver com suas próprias forças e o pequeno pássaro, ao se ver fora do ninho aprende logo a voar de forma encantadora e livre.

Mas nós, seres humanos, vítimas que somos de nossa capacidade de raciocinar, estamos constantemente em busca de análises para o nosso próprio comportamento, nos comparando criticamente com a sabedoria da natureza, nos julgando e condenando. Desprezando, assim, a nossa própria natureza.

Será que nosso erros não são comparáveis aos revezes da natureza? Qual seria a diferença entre uma guerra entre Homens e a disputa feroz entre espécies para a sobrevivência? Qual a diferença entre os estragos que causamos e o fogo que destrói as florestas? Qual a diferença entre as tempestades que arrancam árvores e os erros que cometemos em nome da ciência por não sabermos as consequências daquilo que criamos a partir do nosso conhecimento e pesquisas?

Parece cruel pensar assim? Mas não era da crueldade da natureza que estamos falando também?

Será que nossos erros não correspondem também aos “erros” naturais da vida? Nenhum ser vivo possui 100% de células perfeitas e as células imperfeitas tem um papel importante na evolução das espécies.

A velocidade com que destruímos parece ser bem maior do que a velocidade da natureza para criar. Mas de que perspectiva de tempo estamos falando?

Quanto tempo levou a natureza para criar e desenvolver cada espécie? Os mamíferos existem como tal há 125 milhões de anos e foi preciso haver a extinção dos dinossauros para que os mamíferos passassem a ocupar espaço na Terra e se desenvolverem e evoluírem.

Aprendi nas minhas aulas de geologia que a unidade do tempo geológico é 1 milhão de anos. Nada tem sentido em ser analisado em períodos de tempo inferiores a 1 milhão de anos

Os primeiros hominídeos apareceram na Terra entre 3 e 1 milhão de anos atrás.
 
 Os cientistas acreditam que os primeiros representantes do homem moderno existam no planeta há “apenas” 200 mil anos. E o homem inteligente só existe na Terra há 12 mil anos. Bem menos que uma unidade de medida de tempo geológico.

Portanto, a que distância estamos realmente daquilo que possamos chamar de evolução da espécie humana? Quantos erros genéticos terão que surgir para se determinar qual realmente é o DNA do homem evoluído? E quantos erros nós humanos, por livre determinação, teremos que cometer para nos encaminharmos para uma evolução verdadeira? Talvez o nosso tempo não deva ser medido nas mesmas unidades que o tempo geológico, mas certamente podemos afirmar que somos recém-chegados nesse planeta. Ainda há muito que aprender.

E porque precisamos de tempo para apender precisamos também ser generoso conosco mesmos. Generosos em entender que estamos em pleno processo de evolução. E que ela exige tempo, paciência e perseverança. Da natureza talvez a melhor coisa a aprender seja a tenacidade. Não desistir jamais.

Então me pergunto se não deveríamos encarar tudo que acontece com a humanidade na atualidade, por mais cruel que possa parecer, como sendo na verdade apenas um capítulo de nossa história de processo evolutivo. Ver as coisas dessa maneira talvez nos dê paz de espírito para viver o dia a dia. Talvez dê sabedoria a muitos para não serem tão dogmáticos e, mais importante de tudo, não serem patrulheiros ideológicos julgando e condenando.

Estar de corações abertos e receptivos para acolher aqueles que não pensam como nós. Acolher a todos a seu tempo, sem julgar ninguém pelo seu passado ou ações. Afinal, como no incêndio da floresta, nós Homens de pouca idade na cronologia do universo, não podemos afirmar quando uma destruição não significará na verdade a criação das bases da evolução maior. A humildade de nossa ignorância deve ser honrada.

Não estou pregando a negligência ou descaso. Mas cabe a nós, justamente por sermos humanos, racionais e espirituais, irmos em busca incessantemente das respostas e das soluções para evoluirmos. Nesse processo talvez ainda haja muita dor, talvez haja fome, destruição e mortes. O preço do aprendizado natural é sempre alto. E por isso mesmo o tempo urge. E urge para todos nós. Tempo de aprender e mudar. Mudar e não julgar. E aprender que o que é humano pode ser bruto, feroz e cruel: Cruel porque natural mas porque natural esperançoso e evolutivo. E que certamente no final chegará ao sublime.

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