Não há a menor chance do processo de impeachment — ou empessegamento — da presidente não ter como deslinde a cassação do mandato de Dilma.

Uma, porque o senado não é e nunca foi um local diferente da Câmara, em sua sustância política. Há no senado mais grife, é verdade. Mas o raso triunfa.

Mas não é pelo raso que o desfecho está dado. É preciso reconhecer que nós estamos menosprezando aqueles que defendem o afastamento da presidente. Porque eles não estão sendo enganados, não são massa de manobra, não estão se deixando levar pelo discurso de vejas e globos. Eles sabem, muito bem, o que estão fazendo.

Percebi isso por notar que alguns dos que participam da minha rede aqui nesta pracinha virtual fazem uma ginástica enorme para justificar sua posição, mas não fogem — nunca — do objetivo central da jornada: o afastamento da presidente e, se possível, o encarceramento do ex presidente Lula nas operações decorrentes das investigações curitibanas.

Eles sabem, não são manipulados, que a luta contra a corrupção é um pretexto. Eles sabem que os esquemas de corrupção na Petrobrás não são deste ou daquele governo, mas são de um sistema apodrecido que tem no financiamento privado das campanhas eleitorais sua força motriz. Eles sabem que nas privatizações do governo Fernando Henrique muita gente ficou podre de rica de um dia para o outro, virou banqueiro, casa em Paris, apareceu com mansão fotografada na revista de Caras, frequenta o clubinho dos camarotes. Eles sabem que há corrupção em São Paulo, no governo do Estado, sabem que as obras do metrô estão sempre atrasadas não por uma razão de olho azul no subterrâneo, por um problema de óleo no tatuzão. Eles sabem porque falta merenda nas escolas públicas do Estado. Eles sabem. Sim, dizem e escrevem, aqui e ali, que querem a punição de todos, que querem o fim da corrupção — e deve ser verdade, não tenho razões para duvidar — mas toleram e votam, sistematicamente, no PSDB de SP.

Eles sabem do aeroporto de Cláudio, cidade mineira, que fica dentro da propriedade de um tio ou parente do senador mineiro que foi candidato à eleição em 2014, feito com recursos públicos. Mas eles consideram que este mal era menor do que a “roubalheira” do PT. Eles sabem, bem, em quem votaram.

Como a gente também sabia, diga-se de passagem. Só os religiosos mais fanáticos desconheciam ou fingiam não saber que o PT e aliados de ocasião se lambuzaram em propinas. Fizemos uma escolha, também.

Eles sabem, também, que Temer é um golpista, um golpista de merda — frise-se, por oportuno. Usam do argumento que ele é vice eleito, que quem votou nela votou nele, mas esquecem a lógica que movimenta o voto. Provavelmente deixariam de votar no Aécio se o vice dele fosse o Temer ou o Maluf ou o Luciano Huck… Provavelmente na última eleição do Serra para presidente não votaram no querido senador porque o vice dele era o obscuro Índio da Costa, deputado sem expressão do Rio de Janeiro. A falácia desse argumento é tão gritante… mas insistem. Mas eles sabem. Eles sabem bem que o que querem: o afastamento de Dilma e, se possível, o encarceramento do ex presidente Lula.

Eles sabem, também, que as obras no sítio de Atibaia devem ser fruto de algum agrado de empreiteiro. Mas eles sabem, também, que os apartamentos em Higienópolis, em Paris, em Barcelona como presente para um filho, não são frutos somente de vencimentos de professor universitário aposentado. Eles sabem, bem.

Todos sabem, também e também, que o pato da Fiesp é um plágio, uma fraude. Sabem que a entidade paga fascistas para acamparem em frente ao prédio do pato — se não com dinheiro, mas com filé mignon, uso do banheiro e tal e tal e tal — e sabem que estes fascistas são isso mesmo: fascistas. Mas não se importam. Porque o objetivo final é tirar a presidente e se possível…

Sim. Usam a retórica de que o PT paga os movimentos sociais, a mortadela, o MST, os sindicatos, mas eles sabem como o jogo funciona. Ninguém é ingênuo. Os ruralistas estão aí para cuspir verdades e faz anos que o fazem, com a jagunçada protegida pelo sistema judiciário. Eles sabem.

Eles sabem que gente do naipe de Alexandre Frota, Constantino, Azevedo, Villa não valem uma anágua sequer no quesito “formulação intelectual”. Na verdade, nos círculos fechados, na degustação dos vinhos, fazem pilhéria e troça desses uns. Mas, enfim, alguém tem que cumprir o papel de estilingue, de um Mainardi patético ou de um inútil compositor cantor roquestar.

Eles sabem que a imprensa cumpriu papel preponderante na desconstrução do governo do PT. Sabem que a Globo, a Folha, o Estado, a Jovem Pan, se comportam como partido político, que não há pluralidade editorial. Eles sabem que o tal Zé de Abreu é só funcionário da emissora ao cumprir papel na festa do domingão, para legitimar o resto. Sabem, também, que o judiciário tem sido lento, leniente, conivente com um dos lados da trama toda. Sabem, mas toleram — definitivamente, toleram.

E eles sabem que o empessegar por pedaladas fiscais e decretos de suplementação são só artifícios retóricos. Me incomoda, deveras, entretanto, o esforço em querer nos convencer do contrário. Talvez seja só neste ponto que eles cometem o mesmo erro que nós, o de menosprezarmos a inteligência — eles são mais pragmáticos que a gente e, nesta perspectiva, são melhores que nós. Porque eles sabem que as pedaladas e os decretos fazem parte da cultura criativa da contabilidade pública nacional, desde sempre. Eles sabem que por mais que o governo Dilma tenha exagerado na prática, o fato é que até ontem isso não era nota de rodapé de parecer de Tribunal de Contas. Eles sabem…

Por fim, eles também sabem que Eduardo Cunha está a fazer um complô elefântico para se salvar, que ele tem contas aqui, alhures, que fez cinquina no bingo dos escândalos. E sabem e toleram. Alguns até querem que ele vá preso, tamanho o desplante e a cara de pau do mancebo, mas se não der, mas a cabeça da Dilma vier como troféu, beleza, valeu, tá feito.

No fundo, bem lá no fundo, o que temos é uma ojeriza cavalar ao PT. É neste ponto, porém, que é quase inescapável que não foram os erros, equívocos, lambanças, roubos, pilhagens e acordos espúrios que os indignam. É algo além. É este problema. O PT tem muita responsabilidade neste quadro de horror, muita. Mas foi ali, naquela transição de resultados eleitorais corriqueiros, que se movimentou este ódio. É muito mais o FGTS das empregadas domésticas do que o petrolão. Infelizmente.

Nós, da esquerda, que há tempos observamos que a forma com que o PT governou o país está errada, equivocada, que o tempo das conciliações se esgotou, estamos mesmo numa encruzilhada fodida. Nós sabemos, porque estamos vendo isso na nossa cara há tempos, que ainda há petistas no governo do Rio de Janeiro — que a tragédia da ciclovia, que muitos dizem ser um problema do PMDB, não é só do PMDB de Paes… Não é. Assim com Belo Monte, assim como Sarney, Renan e o próprio Cunha, aliados de ocasiões não tão pontuais assim.

Mas o fodida para definir nossa encruzilhada é porque, infeliz e tragicamente, no fundo, bem lá no fundo, o que move a revolta do pato é o descontentamento com o resultado eleitoral. Essa irresignação de criança dona da bola vai causar um dano ao nosso processo histórico, a nossa democracia, um dano cavalar. Não há mais porque respeitar resultados eleitorais. E, por outro lado, não há mais razão para se submeter ao pacto da legalidade que sustenta um governo: governo ilegítimo, tomado a força, não serve para este pacto.

O mais triste? Eles sabem disso.

Perdão pelo desabafo, para quem chegou até aqui. Devo falar menos de política por aqui. Porque temos que nos preparar para este dia seguinte, que promete ser longo. Vou me guardar para quando o carnaval chegar…

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