A vida são paragens de autocarro
Cada um tem a sua e cada sua tem o um. Pela madeira castigada pelo passar dos anos sentam-se e vão-se sentando almas penadas. Umas depenadas, outras empenadas. Algumas empenhadas em não se deixar depenar nem empenar para que possam morrer sem se sentir penadas. Fundamentalmente almas. Que são, que foram, que vão sendo e que morrem na vã esperança de um dia ser.
Sentes a madeira fria nas pernas? Se não sentes é porque estás morto; ou então porque és tu próprio um produto da simbiose triste entre ti e a madeira, e nesse caso, acredita, estás morto!
Os autocarros (que é como quem diz a vida) passam por ti, levantas-te do banco e entras. Andas uns metros e sentas-te. Outro banco… Quando achas que chega de viagem, levantas-te. Andas uns metros e sais. Para onde? Em direcção à paragem de autocarro onde vês mais um banco de madeira com uma alma sentada. Passas por ela rumando a um destino que nem tu próprio conheces bem e dás por ti a pensar o quão penada será aquela alma ali sentada sem sentir o frio da madeira que tem por baixo dela. Quão penado és tu que há uns minutos vias passar por ti uma alma enquanto estavas sentado no banco da tua paragem…
Segues com aquele que achas ser o caminho que tens de seguir. Vais em direcção ao sítio que achas que tens de ir. Fazes por lá o que achas que tens de fazer. Esperas até à hora que achas que tens de esperar. E voltas de novo para o sítio que inevitavelmente tens de voltar. A paragem de autocarro. O teu banco.
És um mísero pedaço de nada, com uma alma depenada, e uma vida empenada que não tem nada senão um simples, velho e triste banco de madeira sentado à beira da estrada.