No chão

No chão, espalhados, estavam os sonhos que havia deixado cair na noite anterior. Desistira deles. De mim. De nós. Deitei-me também no meio deles e lembro-me de achar que o chão de tijoleira estava surpreendentemente ameno. Serão os sonhos quentes? Ou serão quentes as lágrimas dos sonhos quando deixados cair?

Fiquei ali estendido, olhando cada sonho nos olhos como se quisesse ler-lhes a alma. Quanto mais olhava mais frio ficava. Levantei o olhar quando já tinha os ossos gelados. Mais gelados que a alma, que essa já não a tenho.

Recordo umas manchas no tecto nas quais nunca reparara. Pergunto-me se me escaparam, até àquele momento, por andar demasiado curvado ou se porque pura e simplesmente seria mais mancha menos mancha numa vida tão manchada… Estendi o braço e bebi um fundo de whisky que jazia inerte num copo barato com sinais claros de quem já carrega nas bordas de vidro várias primaveras, entre goles e tombos na banca. Até a existência do copo fazia mais sentido que a minha. Como poderia eu permitir isso?? Atirei-o com força contra os sonhos e ele partiu-se em mil pedaços. (Não tantos como eu, ainda assim).

Voltei para dentro, calcando sem piedade os sonhos e os vidros que estalavam por baixo dos chinelos. Abri os lençóis e lembro-me de desejar que tudo desaparecesse.

No dia seguinte, nem tarde nem cedo, não amanheceu.