A faculdade de Comunicação Social (Cinema)

Já que vou falar sobre a arte de fazer entretenimento no Brasil, nada melhor do que começar pelo primeiro degrau: a faculdade. De fato, muitos que hoje estão no meio não passaram pelas salas de aula ou cursaram algo totalmente diferente, mas eu me arrisquei, e a principal razão para isso foi justamente eu não ter outro jeito de começar.

Existem basicamente três maneiras de entrar no meio artístico: família famosa, família rica ou estudando muito. Nenhum dos três métodos é garantido, mas a chance dos dois primeiros darem certo é muito maior do que a do terceiro, o qual eu tentei, por ser o que me restava. Talvez eu tivesse ido para a faculdade mesmo assim, no final das contas, mas ela não seria minha única esperança.

Eu cursei Cinema, um dos vários cursos que se encaixam no rótulo de Comunicação Social, sendo que a diferença entre eles se dá por uma disciplina ou outra que atendem os critérios da ênfase escolhida. E só. Não posso dizer que são cursos de grande dificuldade só porque tenho um diploma disso, porque não são. A não ser que você não goste de ler, porque como qualquer graduação na área de humanas, haverá textos e mais textos e mais textos.

Basicamente a graduação é dividida entre lições teóricas e práticas, e no que se diz respeito às disciplinas formais, não tenho do que reclamar. Aprende-se de tudo: desde a sensibilidade para construir histórias até a mexer em equipamentos — muitos deles grandes, pesados e complexos — e a lidar com pessoas. Entretanto, no começo das centenas de horas que o curso viria me tomar ao longo dos próximos quatro anos da minha vida e entre as aulas que me davam a ilusão de já estar mais próxima do meu sonho na época, aprendi que a lição mais importante não estava na grade horária, e sim nos próprios colegas e professores que me rodeavam: o ego.

A turma era dividida, como um triste prefácio do que estaria por vir na vida profissional, mas que talvez, no auge dos meus dezoito anos, eu fosse muito nova para perceber. Existiam três grupos nítidos: os já artistas, aqueles que se consideravam “prontos” para o mercado e bons demais para aquilo tudo; os “de humanas”, que, a perdão do estereótipo, gostavam da área de humanas mas não tinham ideia do que faziam naquele curso em especial; e por último o povo “normalzão”, no qual eu me incluía, que não seguia o estereótipo do segundo grupo e nem assistia filmes cults por status como o primeiro, sendo o típico nicho que se encaixaria em qualquer outro curso, mas que apreciava demais o que fazia ali. O fato é que pertencer a uma categoria ou outra não significava que seu gosto pela arte era maior ou não, mas na prática, não ser do primeiro grupo já te classificava como inferior até aos olhos dos professores. Ainda me lembro do primeiro dia de aula, quando perguntaram os filmes favoritos dos alunos, e eu respondi sincera e inocente, revelando ser algo da cultura pop relativamente atual. Fui fuzilada com o olhar por vários da sala e pela professora. Qual o problema se não sou fã dos filmes em preto e branco?!

E o que começou extremamente dividido terminou pior ainda. Já faz uns bons anos que me formei, e os amigos da faculdade que levei para a vida não enchem os dedos de uma mão. Era um grupo de pessoas que conviveram quase diariamente por quatro anos e não se cumprimentam quando se veem na rua, ou criticam descaradamente projetos dos colegas quando se sentem ameaçados (seja na fama ou por perceberem que outra pessoa pode ser melhor em alguma coisa). Já viram um professor falar mal de outro? Um médico falar mal de outro? Essa ética presente em outras áreas definitivamente não se vê no entretenimento.

Faculdade sem grandes dificuldades (exceto no que se diz respeito ao dinheiro, pois é um curso caríssimo), porém extremamente encantadora e que ensina o necessário para os alunos se formarem e começarem a trabalhar. Se eu fosse definir brevemente aqueles quatro anos, seria assim. Mas e o diploma, garantiu um começo? Sim e não. Hoje não desencorajo ninguém a escolher tal graduação, mas não a sugeriria caso pedissem minha opinião. Se alguém me perguntar se deve ou não cursar Comunicação, eu apenas faria a pessoa refletir se tem certeza do que quer, porque para aguentar os trancos e barrancos obrigatórios do meio, precisa gostar muito. Com o fator determinante sendo a sorte e a tolerância a um meio desumano onde o glamour é só da porta pra fora, o diploma é só mais uma validação do status tão valorizado pela área, e que serve de argumento a seu favor na hora de te escalarem para um projeto. No entanto, como eu disse no começo do texto, você pode encontrar profissionais formados em qualquer outra coisa (ou até em nada) tendo mais sorte do que você. Injusto? Demais. Como eu disse, a sorte influencia e muito. É infelizmente um diploma de enfeite, que deixa seu currículo mais bonito caso o tenha, mas pode não fazer diferença alguma se ausente.

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