Profissão sem remuneração

Se tem algo que o profissional do entretenimento aprende ao longo do tempo é a lidar com as promessas. Elas são várias, e a maioria envolve grandes projetos que, para se tornarem viáveis, precisam de sacrifícios no começo. Isso muitas vezes pode ser traduzido como trabalhar de graça.

O meio artístico atualmente enfrenta um grande problema: as empresas, produtoras e quaisquer outras pessoas que desejam contratar os serviços de um artista simplesmente não querem pagar, e a recusa do pagamento sempre vem acompanhada de um “quando o projeto crescer/for aprovado/conseguir patrocinadores você vai receber”. Para os que ainda acreditam nisso, desculpa informar, mas esse dia não vai chegar, e o simples motivo é que projetos pequenos dificilmente conseguem apoio financeiro do governo ou de grandes patrocinadores. Então, mesmo se quem te contrata nesse regime de escravidão mascarada tenha boas intenções (o que também é raríssimo), a possibilidade de você algum dia ver o dinheiro prometido é mínima. Também existe quem se aproveita de tal situação para, mesmo tendo como pagar, usar essa desculpa na tentativa de engordar o próprio caixa.

Eu já trabalhei nesse regime. Confesso que na minha época de profissional do entretenimento, metade do meu currículo era composta de trabalhos pelos quais não fui remunerada, e que muitas vezes até paguei para trabalhar (custeei meu transporte e comida, por exemplo). Ouvi de muita gente que, trabalhando assim, eu contribuía para que o ciclo continuasse, e eu não discordo, mas é como diz aquele ditado “para arranjar um emprego, a gente precisa de experiência, mas não existe experiência sem um emprego”, então mesmo saindo no prejuízo, repetia para mim mesma que aquilo era temporário e que logo eu conseguiria algo real. E para aqueles que pensam que no mínimo o escravo ganhará um tratamento educado e agradecido, peço novamente desculpas por revelar que a situação é bem o oposto: cargas horárias de doze horas seguidas, quase nenhum tempo para comer, gritos e muitas vezes ofensas (beirando o assédio moral em algumas situações) e a sensação de que quem está fazendo o favor são os seus “patrões” por te darem tal oportunidade. Faz-se necessária muita tolerância e fibra moral para não se sentir um lixo nessas horas.

Em relação àquele “algo real”, óbvio que ele nunca veio. Consegui trabalhos remunerados, mas eles só me deram uma lição: mais difícil do que conseguir ser pago, é ser contratado. Pelo menos na função que eu exercia (roteirista) o mais comum eram contratos por obra, ou seja, você escreve o roteiro, ganha seu dinheirinho e tchau, desempregado de novo. Tinha vezes em que o valor pago não chegava a ser ruim, mas era receber aquilo e não saber quando pegaria outro trabalho remunerado. Poderia ser daqui a uma semana, um mês, um ano ou mais. Se para mim já era desesperador manter uma casa assim, imagina os que têm família, faculdade dos filhos… Não é à toa que muita gente entrava em estado de desespero. Vez ou outra eu via alguma oferta CLT, mas o salário de mil Reais me fazia permanecer no limbo do freelancer. Fazendo uma comparação, o salário de estagiário na minha atual área paga 2 mil Reais, e não pensem que isso me alegra. Não dá pra ser feliz perdendo a fé numa área que poderia ser tão boa.

Hoje, a comunicação não é uma área capaz de ser a principal fonte de renda de alguém, mas muitos artistas custam a aceitar isso, seja por orgulho ou por falta de recursos para se especializarem numa segunda profissão. Existem raras exceções de quem se deu bem, claro, mas de um grosso modo, é necessário complementar a renda de alguma maneira, tornando o “viver da arte” uma utopia. E sabe o que é pior? Não vejo essa situação diferente num futuro próximo. Só vejo cada vez mais desonestidade e enganações.

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