Livro I — Inverno

Capítulo III — Outros olhares…

O som do despertador soou antes que tivesse aberto os olhos, para seu completo espanto. Surpreso por ter acordado daquela maneira, consultou o relógio assustado, levantando muito rápido, indo direto para o banho, sem se deter no corredor para olhar a poltrona vazia na sala. Parou apenas em frente ao espelho, observando seus olhos, ao redor dos quais pareciam haver hoje menos olheiras, como se agora demonstrasse a idade que realmente tinha, sem mais a impressão pesada dos anos que ainda não vivera.

Demorou um pouco mais do que de hábito sob o chuveiro, deixando-se massagear pela água quente, lembrando-se da noite, da experiência de assistir ao filme, das cenas em que tocara a música. Surgiram em sua mente outras imagens, mas que não condiziam com nenhuma das cenas das quais lembrava tão nitidamente… para sua surpresa, percebeu que eram lembranças de um sonho.

Abriu as portas de seu camiseiro e dedicou certo tempo à escolha das roupas. Sentiu-se estranho, como se estivesse se arrumando para uma festa, o que nunca fazia. Nem mesmo lembrava a última vez em que havia sido convidado para alguma.

Naquela manhã, decidiu tomar seu café sentado na espaçosa mesa de jantar. Não ligou o rádio. Parecia mais divertido ouvir os sons que entravam pelas janelas e sacada, junto com os primeiros raios de sol. Ouvia mães, pais e crianças em alvoroço. Caminhou até a pequena varanda e assistiu ao balé das diferentes famílias e dos diversos carros que primeiro deixavam o condomínio e se perguntou se todas as manhãs haviam sido assim. Como, ou por que, ele nunca havia percebido? Então, virando-se para o interior do apartamento, encarou as paredes brancas.

— Preciso pendurar algo nestas paredes… — riu-se por dizer aquilo em voz alta, como se comunicasse a decisão a alguém, foi quando olhou ao redor e percebeu a poltrona vazia, a capa do DVD sobre o sofá, a mesa do café posta, a jaqueta já escolhida sobre o braço da cadeira e a ausência das notícias ruidosas da manhã… Algo muito estranho estava acontecendo e ele não havia ainda se dado conta.

Organizou tudo e, antes de deixar o apartamento, deu uma última olhada no espelho, como quem se prepara para um encontro importante, uma reunião ou algo do gênero. Quis rir, mas se sentiu bobo. Pegou o guarda-chuva, um cachecol cinza e fechou a porta atrás de si pensando que talvez fosse melhor voltar a se concentrar no que era ordinário.

Entrou no carro e seguiu até o portão onde precisou recuar um pouco, a fim de dar preferência para uma moradora que chegava, entrando pelo portão do condomínio. Percebeu que estava sem os óculos escuros quando olhou para o porteiro que, com um simpático sorriso no rosto, parecia lhe desejar um bom dia. O sorriso gratuito e o jeito maroto lembrou Khalil, e com essa lembrança uma série de pensamentos e perguntas surgiram em sua mente. Então, talvez pela primeira fez, retribuiu na forma de um breve cumprimento com a cabeça, imaginando se o jovem porteiro se surpreenderia com sua resposta, se acreditaria que a recíproca do desejo de um bom dia era memo honesta, pois era.

No caminho para o trabalho, admirou-se com tantas coisas que lhe pareciam estranhas, diferentes, mesmo que estivessem no caminho por onde passava todos os dias. Pensou em Khalil de novo, então sua fisionomia mudou, cerrou os olhos e focou a estrada, não querendo se surpreender com mais nada. Estava decido a reencontrar aquele rapaz e compreender o que estava acontecendo… Queria seus dias ordinários e tranquilos de volta.

* * *

Parado numa das infinitas filas da hora do almoço, observava o movimento da praça de alimentação do shopping quando a mulher a sua frente lhe passou o cardápio sorrindo.

— Quer aproveitar que estamos parados aqui para já escolher seu prato?

A pergunta, ainda que soasse óbvia, foi recebida com espanto, seguida da reflexão de que ele, pela primeira vez, escolheria conscientemente sua refeição. Outra surpresa indesejada. Fez um rápido sinal de agradecimento com a cabeça e passou a olhar as opções. Ficou ainda mais surpreso quando constatou a infinidade de combinações e sabores, descobrindo que os “pratos do dia” eram sempre os mais simples.

Fez sua refeição como alguém que tem presa, como se estivesse atrasado para um compromisso, ainda que imaginário. Consultou o relógio várias vezes, a fim de que pudesse estar no café no mesmo horário em que havia encontrado Khalil. Levantou-se e depositou a bandeja junto ao balcão onde os funcionários do shopping agilmente mantinham a ordem em meio ao caos provocado por centenas de pessoa. Então desceu as escadas rolantes, sempre olhando ao redor, desejando não aparentar tanta ansiedade, caso se deparasse com o jovem caminhando no corredor.

No café, olhou pela primeira vez, e de maneira demorada, todo o cardápio. Lembrava-se do personagem do filme, o senegalês que havia assumido o cargo de cuidador do empresário paraplégico. Especialmente quando o personagem chegava à casa onde passaria a trabalhar e também morar, recordando a curiosidade infantil que o fazia se deslumbrar com cada detalhe da mansão, seus espaços e requintes. Sentia-se assim, completamente bobo. E isso o incomodava.

— Como nunca havia observado tudo isso antes? — perguntava-se e se repreendia por tardiamente perceber que o fazia sempre em voz alta. Sentou-se na mesma mesa e ali ficou, sorvendo uma grande caneca de capuccino, acompanhando o movimento das pessoas.

Alternava seus olhares entre as múltiplas direções dos corredores a sua frente e seu relógio. Não havia pego o jornal, com receio de perder algo. Acompanhou o avançar dos minutos até que se viu obrigado a voltar ao trabalho. Quando levantou se deparou com uma figura ereta bem a sua frente, era Khalil.

— Olá Vince, como vai você?

A pergunta vinha acompanhada por um sorriso diferente daquele visto no dia anterior. Estava mais conciso, quase sério. Porém os olhos traziam o mesmo brilho, como alguém que está prestes a entregar algo de valor, ou revelar um segredo.

Vicente percebera que a impressão de se tratar de um rapaz estava incorreta. Khalil devia ter seus trinta e poucos anos, próximo da sua própria idade. Vestia-se de maneira sóbria, assim como ele mesmo. Trazia na mão um livro e, aparentemente, um pequeno caderno de notas. Sua postura lhe dava um ar excêntrico, quase arrogante, talvez mais para provocativo, como alguém que impõe ao outro uma reação, um posicionamento perante sua figura.

— Eu estou bem… — As palavras saíram com certa dificuldade, abrindo caminho entre as tantas outras perguntas que pareciam querer saltar de sua boca.

— E quais foram suas impressões sobre o filme?

— Como você sabe que eu assisti ao filme ontem? — questionou, sem se preocupar em demonstrar o assombro quanto à pergunta.

— Foi apenas um palpite… Imaginei que ficaria um pouco curioso depois da maneira como descrevi a história, considerando a sua fisionomia quando o fiz. Mas quero mesmo saber quais foram suas impressões…

Assim que concluiu a frase, Khalil se sentou, colocou o livro sobre a mesa e fez um sinal para que o rapaz do café lhe trouxesse seu pedido. A xícara de capuccino foi servida enquanto Vicente ainda estava de pé. Ele fitou Khalil e se sentou, olhando mais uma vez para o relógio de maneira apreensiva.

— É sexta-feira, eles irão compreender — foi a resposta de Khalil à sua demonstração de preocupação.

— Sim, eu aluguei o filme ontem. Fiquei mesmo intrigado pela maneira como você falou da história, e também pelo fato de ouvir a música já há um certo tempo, mas sem saber que se tratava do tema de um filme. Nem sequer lembro como ou porque eu a comprei — a resposta soou como uma explicação pela metade.

— E com qual parte que mais lhe tocou?

Vicente percebeu que havia uma excessiva atenção no olhar de Khalil, acompanhada pelo ensaio de um sorriso, como quem está prestes a dizer “xeque-mate”.

— Gostei de todo o filme, talvez pela história de superação — disse, de maneira conclusiva, mas sem colocar muita confiança nas próprias palavras.

— Superação — repetiu Khalil, como se ele buscasse reconhecer o sabor em sua própria língua. — Mas a superação de quem?

Quando abriu a boca para responder, Vicente se deteve. Perguntava-se, mentalmente, se teria resposta para aquela pergunta. Percorreu as cenas do filme em sua mente, buscando por referências, mas se deparava com momentos dúbios, situações vividas pelos dois personagens da história. Estava desistindo de todo aquele esforço cognitivo, endurecendo o olhar, pronto para dar por encerrado aquele estranho encontro quando a voz de Khalil surgiu uma vez mais, suave e mediadora.

— Reconheço a superação dos dois personagens — disse como se pudesse ler a mente de Vicente — , porém, há algo na trama que me parece muito mais inspirador, até porque nem toda história de superação é necessariamente uma história inspiradora…

Vicente ouvia atentamente a introdução da explicação que mais lhe parecia uma revelação. Khalil se deteve, tomando um gole de seu capuccino como quem ganha tempo para organizar os próprios pensamentos.

— A história de alguém que venceu uma determinada adversidade expõe a superação deste indivíduo que viveu uma situação singular, num dado momento de sua vida. Porém, para que a história de superação se torne em uma jornada inspiradora é preciso que ela provoque uma ação na sua audiência, nas pessoas que a acompanharam ou tomaram conhecimento da trajetória vivenciada. Então lhe pergunto, o que o filme lhe inspirou a realizar, Vince? — disparou Khalil, como se desejasse que o outro participasse tanto do diálogo quanto do exercício de reflexão.

— Acho que a história me trouxe até aqui — disse sem reconhecer a própria voz, ou as palavras. — Queria entender o porque de você ter falado do filme daquela maneira. Talvez eu não tenha compreendido tão bem a história, por isso vim lhe procurar.

Ele concluiu a frase de maneira seca, como quem é pego numa mentira, revelando sua verdadeira intenção. Não que tivesse realmente mentido, mas havia se esforçado para fazer com que este segundo encontro parecesse o mais acidental possível, uma coincidência de tempo e espaço.

— Talvez concordemos naquilo que o filme inspira — disse Khalil, visivelmente sorrindo. — A amizade dos dois é inspiradora e é ela a força motriz para as diversas superações que ocorrem no decorrer de toda a história. Grande parte das pessoas não a percebe como uma protagonista. Há o empresário paraplégico, o homem que cuida dele, mas logo surge esta que não é uma persona, mas um sentimento que protagoniza as cenas mais fascinantes e que, extraordinariamente, baseia-se em fatos reais.

Vicente se surpreendeu acompanhando aquela linha de raciocínio que, na verdade, era bastante simples, o que lhe dava ainda mais um ar de sofisticação. Ele se perguntava se já havia tido aquela mesma ideia enquanto assistia ao filme em sua casa ou se apenas agora, provocado pela palavras de Khalil, é que a ideia da amizade como uma protagonista lhe surgira.

— Eu me inspiro neste filme — disse Khalil, observando para sua xícara já fazia. — Eu busco conhecer pessoas com as quais possa viver uma amizade tão desafiante e protagonista quanto aquela vivida pelos dois personagens, que também são pessoas reais, viventes de uma jornada como eu e você.

— Não tenho muita certeza se eu havia compreendido o filme desta maneira — disse Vicente. — Mas agora a história me pareceu ainda mais clara…

— Às vezes só precisamos de um ou vários outros olhares. Há uma diferença entre ver um filme e o a-s-s-i-s-t-i-r — a palavra foi dita com muita ênfase, enquanto Khalil olhava fixamente para um dos olhos de Vicente. — Ainda que pareçam sinônimos, vale lembrar de que a ideia de se “ver” consiste na simples captação de uma imagem através dos olhos, enquanto que o “assistir” envolve o exercício de se estar presente, pleno, o que torna aquele que assiste em alguém capaz de apreciar, de dar valor ao que presencia… Você sabe apreciar o tempo, Vince?

A pergunta trouxe Vicente de volta à realidade. O tempo havia passado muito depressa. Os corredores estavam praticamente vazios e apenas a música ambiente do shopping inundava os espaços abandonados pelos clientes naquela tarde de sexta-feira. Mirou o relógio e constatou que já passara das 14:00, e antes que pudesse dizer qualquer coisa Khalil já estava de pé, estendendo-lhe a mão num caloroso cumprimento.

— Venha tomar um café comigo. Viajo esta noite e retorno daqui uma semana. Encontre-me no café ao lado da biblioteca pública, no sábado, às 09:00. Merecemos um pouco de céu aberto.

Antes que pudesse pensar numa negativa evasiva, Khalil já havia começado a caminhar na direção contrária a que ele deveria tomar para a saída principal, sua rota hatibual. Pegou o casaco e, antes que deixasse o espaço do café, levou até o balcão a xícara deixada por Khalil na mesa, só então percebeu que a atendente o observava com atenção, com ares de confidente.

Na tarde daquela sexta, enquanto procurava entregar todos os processos e atividades que haviam se acumulado sobre sua mesa, Vicente se perguntou se ele próprio via às pessoas de seu escritório, ou se as assistia de fato.

Naquela noite, voltou para casa, apreciou as paredes brancas, mesmo sem encontrar nada de muito valor nelas. Abandonou a poltrona e decidiu se esticar no sofá. Então adormeceu pouco tempo depois de surgirem na tela os créditos do filme que, agora, assistira de verdade.

Continua…