Por uma vida menos medíocre!

Sim, o título pode assustar um pouco! A palavra mediocridade tem esse poder sobre a maioria de nós, especialmente por seu uso indiscriminado e, na maioria das vezes, incoerente. Entretanto, quando se vive a missão de promover o pleno desenvolvimento de pessoas e organizações humanas tudo o que você realiza é mesmo por uma vida menos medíocre! E essa é a história que compartilho hoje…

Não será a primeira e certamente nem a última vez que toco nesse delicado tema. Quando escrevi o livro Uma Jornada Consciente, publicado pela Matka Editora em 2015, reservei um espaço especial para meus textos mais controversos, incluindo um intitulado O mal-estar sobre a cobrança, que traça uma reflexão sobre a maneira como vem sendo significado o assédio moral, relacionando-o aos embates e cobranças cotidianas. No texto ressalto a importância de não generalizar a crítica, visto que há casos extremos, vitimando pessoas em ambientes profissionais, sociais e até familiares. No entanto, no texto provoco a seguinte reflexão:

“Temos nos esforçado para aceitar os outro através da ‘tolerância às suas fraquezas’, quando podemos respeitá-los por seus potenciais.”

A essência desse aforismo resgata uma maneira mais apreciativa de nos relacionar e valorizar as pessoas, numa dinâmica de mim para o outro. Porém, talvez seja o momento oportuno de chamar a atenção também para um outro fato: temos nos esforçado (tanto) para aceitar a nós mesmos através da tolerância às nossas fraquezas, quando podemos (e devemos) nos respeitar por nossos potenciais! Essa simples afirmação foi mais do que suficiente para desencadear uma verdadeira batalha argumentativa num certo encontro em que fui o mediador.

Eu havia sido convidado para mediar um papo inspirador num encontro sobre alta performance, reunindo profissionais de diferentes áreas de uma mesma organização do segmento de serviços e tecnologia. Tão logo comecei minha apresentação, lançando a ideia de nos respeitarmos por nossos potenciais e não pela tolerância às nossas fraquezas, surgiu um burburinho no grupo de aproximadamente cem colaboradores. Percebi a oportunidade perfeita para instigar o diálogo, deixando de lado a série de slides que havia preparado para minha exposição, a fim de simplesmente ouvir e responder seus argumentos.

O diálogo começou de maneira acalorada, com várias pessoas falando ao mesmo tempo, criticando o “excesso de cobranças” e a “mania de excelência” que gerava um “absurdo volume de trabalho” para todas as equipes. Até mesmo as pessoas em cargo de liderança concordavam, criticando o posicionamento de alguns clientes e do mercado, falando sobre a alta competitividade. No entanto, o que me chamava mesmo a atenção eram algumas pessoas do grupo que permaneciam numa espécie de “silêncio inquietante”, remexendo-se em suas poltronas. Percebi que era hora de estabelecer um norte para o diálogo e começar a mediar a construção de alguns consensos.

— Certo! — disse eu bem alto, chamando a atenção do grupo, conseguindo um certo grau de silêncio no pequeno auditório. — Quem pode me dizer qual o significado de excelência?

Pronto, agora havia só silêncio. A palavra já havia surgido tantas vezes, mas ninguém parecia se sentir à vontade para lhe conferir um significado concreto, algo que, inclusive, justificasse tantas críticas pela cobrança que aquela simples expressão trazia consigo.

— Excelência significa ir além das expectativas — disparou uma jovem que, como outros, parecia inconformada com aquele debate!

— Sim, excelência significa a qualidade daquilo que é perfeito — completei.

— Viu, por isso mesmo nunca vamos poder alcançar isso. É impossível — vociferou uma voz no meio do grande grupo, valendo-se do aparente anonimato.

— De fato, a perfeição pode ser algo que, quando alcançado, encerra toda nossa vontade. Entretanto, a excelência pode ter também outros significados, dependendo de como você a vê — respondi, seguindo até o flip chart que havia sido deixado meio de lado. — Eu particularmente a considero como um desafio permanente, — disse traçando uma linha ascendente até a metade do papel — o que significa dizer que toda a vez que acredito tê-la alcançado, percebo que cheguei até um limiar de uma nova etapa, não ao fim de uma jornada… — então completei o traçado até o alto da folha.

— Mas como saber quando chegamos ao final da linha? — quis saber um senhor.

— Quando não houver mais nada que você possa fazer. Porém, isso apenas acontece em dois momentos: (1) quando você deixa de acreditar que pode ser melhor e (2) quando sua vida se extingue, acaba mesmo.

— Credo! — disse uma senhora que estava sentada na primeira fileira, rindo de si mesma e do assombro da colega ao lado quando a viu fazendo o sinal da cruz.

— Bem, a verdade é essa. Só paramos de aprender, criar e realizar quando deixamos de acreditar nessa nossa capacidade ou… — fui interrompido pelas gargalhadas do grupo.

— Mas se a excelência é algo que eu sempre estarei correndo atrás, então o que a gente pode fazer? — disse um rapaz que parecia ser o mais jovem de todo o grupo, com ar de cansado.

— Bem, é nesse ponto que entram em cena outros dois conceitos que de certa forma fazem parte da busca pela excelência. — Voltei ao flip chart, virando a página para traçar uma linha horizontal. — Se considerarmos cada atividade nossa, toda tarefa ou projeto, como uma linha reta, uma jornada, acredito que todos vão concordar que nossa principal preocupação sempre está no resultado que eu quero alcançar. Portanto, estejamos no início ou meio do processo, nossa atenção está na entrega final. Essa “entrega” é o que podemos chamar de eficácia, o resultado alcançado. Entretanto, toda a jornada precisa também de atenção, do contrário teremos o que alguns chamam de “resultado a qualquer custo”…

Olhei para o grupo e pude ver várias pessoas tomando notas, riscando em seus blocos a mesma linha que eu havia traçado, então voltei ao desenho, continuando minha pequena explanação conceitual.

— E tudo o que acontece, do início até o final dessa jornada, envolve a eficiência de um trabalho — concluí, escrevendo a palavra sobre a linha e me voltando mais uma vez para o grupo. — É simples, nada fácil, mas simples. A excelência é algo que se busca através da melhoria na eficiência do processo de trabalho e na eficácia dos resultados entregues. E isso só é possível quando conseguimos reconhecer nossos potenciais mais do que simplesmente tolerar nossas fraquezas.

Ah, mas a cobrança às vezes é exagerada — insistiu um dos profissionais da equipe de suporte! — A pior coisa é ser comparado aos outros! Qual o problema da gente estar na média!?

Percebi cem pares de olhos voltados na minha direção, em absoluto silêncio e ávidos por uma resposta.

— O único “problema”, ao meu ver, é o fato de você jamais se realizar — disse de maneira categórica! — Afinal de contas, permanecendo “na média” você deixa de conhecer seus próprios limites. E se nos incomoda ser comparados aos outros, o que dizer quando aceitamos ser a média dos outros, desconhecendo do que somos individualmente capazes?

— Isso é permanecer na mediocridade! — disparou um dos que pareciam inconformados, sendo agora ele mesmo alvo dos olhares que misturavam incredulidade, curiosidade e indignação com a afirmação.

E lá estava a maldita palavra, mas tão necessária para uma série de reflexões importantes, especialmente nos dias atuais. Voltei à primeira folha do flip chart onde havia desenhado a linha ascendente e escrevi, em letras garrafais, a palavra MEDIOCRIDADE bem no centro, representando a ideia de se estar na média. Desconstruí alguns preconceitos relacionados ao seu significado, apesar da óbvia conotação depreciativa, argumentando em defesa de se reconhecer que o desafio diário está em superar a si mesmo, não aos outros, tornando-se a melhor versão de si mesmo.

Quase no fim dos noventa minutos que me haviam sido concedidos, uma das participantes perguntou:

— Você fala da melhor versão de nós mesmos, mas como fazer isso?

— Mais uma vez a resposta é simples, não fácil, mas simples:“O caminho para se tornar a melhor versão de si mesmo envolve buscar a plena consciência de seu potencial e, então, colocá-lo em prática”! E a única forma de tomar essa consciência é buscar por seus limites, a fim de superá-los.

Deixei o encontro satisfeito pelos comentários que ouvi ao final e pelas conversas que tive com várias pessoas até chegar no estacionamento. Senti que certamente uma grande parcela daquele grupo de cem pessoas havia tomado consciência de que podia ser melhor do que já era.

Alguns dias depois, para minha tristeza (sim, foi esse mesmo o sentimento), li um artigo intitulado Ser medíocre é o segredo da felicidade?, publicado pela BBC News Brasil. Confesso que fiquei chocado com os argumentos de alguns especialistas e pesquisadores entrevistados pela forma como defendem uma proposta que simplesmente coloca em xeque a possibilidade das pessoas tomarem consciência de seu potencial. A justificativa principal é de que “desistir de atingir padrões mais altos” permitiria ao indivíduo “ganhar flexibilidade e uma vida mais fácil e sossegada”. E, mais uma vez, assim como eu mesmo já tivera ouvido, o problema maior reside na comparação com o outro!

A falácia desse argumento em defesa da mediocridade, a qual seus partidários parecem ignorar, é a de que criticam a cobrança por uma excelência a partir de uma comparação com os outros, porém, quando assumem para si o papel de medíocres também estão se comparando, só que tomando por base a média dos outros. Desta forma, maldizem a comparação com os “melhores”, mas defendem a comparação com a “média”, sempre limitando o indivíduo a comparação com o outro, nunca com seu próprio potencial! O mesmo é feito por aqueles que usam a comparação para diminuir o indivíduo…

No mesmo dia em que preparava os argumentos para esse texto, conversei com um amigo, estudante de medicina, a respeito do tema. Ele então compartilhou comigo a história de um professor que ao ouvir de um dos estudantes sobre o desejo de ser Clínico Geral passou a discursar sobre a importância de não se ter uma vida medíocre! Mais uma vez, a falha pela tentativa de comparação.

Uma vida menos medíocre se conquista através da consciência do próprio potencial e pela busca da superação, nunca pela mera comparação com o outro, nem com o melhor, nem com o pior!

E você, qual a medida de SEU sucesso!?

Rafael Giuliano,
 alguém que deseja “viver num mundo onde pessoas explorem todo seu potencial, sem jamais se contentar com menos daquilo que são capazes”!

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