Como Lidar com Jogadores Sem Noção

Volta e meia quem acompanha revistas, sites, canais, ou qualquer outro tipo de produção de conteúdo voltado ao RPG, já viu/leu as famosas listas de tipos de jogadores. Pois é, nelas são agrupados os comportamentos mais comuns que os participantes tem quando estão envolvidos em uma sessão de jogo, indo do “ator” (que preza pela interpretação e desenvolvimento da história ali construída, ao “combeiro” (que tem como única preocupação montar um personagem mais forte que todos os outros). No entanto, embora tenha visto inúmeras dessas listas em variados meios de comunicação ligados ao RPG, sempre noto a falta de um dos tipos mais letais de jogador que já presenciei na mesa de jogo, o sem noção!

Devo confessar que foram pouquíssimos os jogadores desse tipo que já passaram em minhas mesas (quase dez anos narrando em eventos). Porém, a presença deles é devastadora e pode acabar não apenas com a diversão de todos os outros participantes, mas com a própria sessão ou campanha. Bom, mas vamos a definição dele: segundo o dicionário o termo “noção” refere-se ao conhecimento, ideia imediata e intuitiva que se tem sobre alguma coisa, no caso, aplicado ao jogo, seria a percepção pelo menos parcial de como se deve jogar, e portar, numa mesa de RPG.

“Quem disse mesmo que era uma boa ideia entrar na nessa masmorra?!” Anão do grupo antes de morrer

Pois bem, o sem noção é aquele tipo que, mesmo bem informado pelo narrador sobre como o jogo funciona, qual deve ser seu papel na história ali construída, e quais as tendências de seu personagem, ele insiste em tomar atitudes (dentro da narrativa) sem o menor sentido, atrapalhando o ritmo da aventura, querendo ter destaque no jogo com atitudes e considerações sem o menor propósito, e destruindo o sentido de cooperação que um grupo de jogo (e aventureiros, por consequência) deve ter.

Imagine a seguinte cena: um grupo de aventureiros, após salvar a vida da princesa de uma emboscada de orcs na Estrada Real, é convocado pelo Rei para um jantar em homenagem ao feito honrado do grupo. Presentes na ocasião, o druida e o bárbaro, embora não acostumados com essas ocasiões, procuram comer sem chamar a atenção e mostrar-se satisfeitos com a demonstração de agradecimento. Enquanto isso, a clériga conversa com o conselheiro do rei, e o paladino… dança em cima da mesa, piscando para a rainha e jogando vinho em cima de todos os nobres próximos dele!

“Quem mandou esse maluco pular gritando no meio desse fogo todo” Companheiros do Draconato estrelinha

Pois é, meus amigos, por mais absurdo que pareça esse é o tipo de coisa que faz um jogador sem noção (caso verídico, ocorrido em uma mesa narrada por mim). E fica pior, no exemplo acima, um jogador coerente poderia justificar que o personagem foi embriagado pela primeira vez, ou que estava sob algum feitiço que lhe tirou o juízo, mas, no caso do sem noção ele enxerga esse tipo de comportamento incoerente com o personagem, e o jogo em si, de maneira satisfatória (por incrível que pareça). Para ele, puxar a espada para o líder da guarda local sem razão, ameaçar a vida de um mago poderoso apenas para demonstrar poder (que não tem), ou contrariar um dragão vermelho, mesmo que ponha em risco a vida do grupo inteiro, não passa de diversão e tentativa de ganhar o protagonismo da história.

O lado negativo disso é que esse tipo de jogador prejudica de maneira irreversível o andamento e o tom dado pelo mestre ao seu jogo. As cenas mais sérias e dramáticas acabam perdendo seu sentido, mesmo com a ajuda do resto do grupo. Enquanto os momentos mais descontraídos perdem sua natureza leve, e passam a ser apenas momentos de vergonha alheia, em que apenas uma pessoa (o sem noção) está aproveitando, enquanto o resto do grupo se resigna e perde a imersão no cenário de campanha.

As vezes mexer com o que está quieto pode ser uma péssima ideia!

Agora vem a pergunta: como lidar com uma pessoa inconveniente que acha estar jogando muito bem, mas que na verdade está atrapalhando demais o jogo? E não, não adianta falar que ele é chato e está atrapalhando, ele não percebe! Embora essa seja uma possibilidade, tenho formulado outras em minha experiência lidando com esse tipo de jogador. A primeira é punir na narração seu personagem pelas besteiras feita em jogo. Por exemplo, faltou com respeito ao rei (ou qualquer outra autoridade), prisão ou punição devida ao tipo de cenário narrado (em fantasia sombria pode chegar até a morte). Desrespeitou uma dama, guerreiros irão surgir para defender a honra dela, ou a própria se encarrega de envenená-lo, ou cravar uma adaga bem afiada, para se defender do assediador.

Vale salientar que, no meu caso, esse tipo de comportamento sempre esteve presente na mesa de jogo (sim, o sem noção pode até ser gente boa na vida real, ou não, vai saber). Mas, no caso de um comportamento inaceitável fora do jogo, e do contrato social que o rege, ele deve ser advertido de maneira enfática e, dependendo do caso, até ser expulso da mesa. Pense nisso, no caso de comentários preconceituosos, sexistas, ou que exponham de maneira vexatória de qualquer maneira os outros participantes da sessão.

“Ainda vai dizer que arqueiro não sabe lutar?! Não te salvo mais” Guerreiro arrependido de salvar o chato do grupo

Voltando a esfera do jogo, outra maneira de lidar com esse participante é parar a sessão e alertar sobre comportamento dele. É possível reforçar a natureza do personagem com o qual ele está jogando, e sobre as regras daquele cenário ali descrito. Na minha concepção, esse tipo de pessoa acha que sua participação em uma atividade imaginária (pelo menos parte dela)a exclui de qualquer responsabilidade ou obrigação de bons modos ao relacionar-se com os outros ou, principalmente, com os protagonistas da história narrada.

Quando não se tem a noção de que o RPG exige uma grau elevado de imersão, participação, e colaboração, o objetivo maior do jogo (a diversão) acaba se perdendo, e o propósito daquela reunião que poderia ser tão alegre e espontânea, acaba convertida em chateação e raiva, pelo comportamento inadequado de apenas um jogador. Por isso, é preciso ter bastante cuidado ao lidar com esse tipo de participante em sua mesa de jogo. Nunca é demais lembrar que o RPG deve ser uma atividade prazerosa para todos, se apenas uma pessoas está se divertindo estragando o jogo dos outros, ela está no lugar errado.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.