De cara-e-coroa a caras-e-bocas:
faces de discurso e prática do poder político
Conforme evidenciado em resoluções recentes de seu Diretório Nacional, uma sobre a Conjuntura e outra sobre as Eleições de 2016, o PT se considera tanto porta-voz da “esquerda” e da “contra-hegemonia” na sociedade brasileira quanto vítima de um complô golpista da “oposição conservadora” aliada a “agremiações de direita”, “grupos de comunicação” e “círculos do aparato repressivo-judicial do Estado”. Ainda, afirma rejeitar medidas de equilíbrio fiscal que sacrificariam o povo trabalhador no curto, médio e longo prazos, devido a efeitos de prejuízo a direitos adquiridos, capacidade salarial e projetos sociais. Com tais visões, de si e da realidade nacional, o partido busca mobilizar suas bases através de um discurso acusatório com alvo na oposição política, em partes do sistema judicial, e no setor de comunicação.
Fazendo referência negativa a dois (Legislativo e Judiciário) dos três poderes tradicionais do Estado democrático, bem como ao chamado “quarto poder” (imprensa/mídia), o PT instiga um discurso-prática de “resistência antigolpista”, de combate a uma “ofensiva antidemocrática” articulada às “classes dominantes” e sua agenda de retrocessos “antipopulares”; concomitantemente, vangloria seus êxitos políticos e ressalta a coleção de derrotas da oposição (em termos de disputa eleitoral e de projetos). O partido coloca em sua conta sucessos e sortes sociopolíticos — ex. conquistas e políticas socioeconômicas, incluindo melhores índices (quantitativos e/ou qualitativos) de desenvolvimento humano — e relega a outrem [“O inferno são os outros”, no caso, a oposição ou a conjuntura externa] os males e reveses — ex. alta inflação, aumento do desemprego, redução do salário real, desequilíbrios fiscais, mudanças severas na política previdenciária, etc. Portanto, adota a estratégia discursiva de “passar o ônus” (“buck-passing”), na tentativa de dissociar o governo (petista-peemedebista) de políticas e efeitos impopulares.
Como grupo (eleito) vigente no poder federal há mais de uma década, protagonista na superestrutura [com sua (re)produção ideológica] e articulado à infraestrutura — pelas raízes históricas de aliança ao movimento sindical e a centrais de trabalhadores, e também pelos vínculos pragmáticos contemporâneos (espúrios ou não) com capitalistas e detentores dos meios de produção (grandes empresas/corporações, empresários, banqueiros e bancos, entre outros) — , o PT é o sujeito primordial da ideologia política nacional dos últimos quinze anos, com seu discurso e projeto perpassando transversalmente diferentes setores e classes da sociedade brasileira. Nesse sentido, é responsável pela ‘ideologia dominante’ em várias concepções, seja considerando conceitos como liderança política, moral e intelectual, seja pela noção de interação entre poder político e estruturas, ou mesmo pensando na superação do determinismo base-superestrutura.
Ao trazer à tona um discurso condizente com um grupo fora do círculo de poder e do jogo hegemônico-ideológico, sem sentido para um partido recordista de mandatos presidenciais consecutivos pós-1988 e preponderante na adesão política popular, o argumento petista contra-hegemônico é hipocrisia para partidário ouvir. O PT no poder, já (mal-)acostumado com tal posição sociopolítica predominante, fala e escreve como se fosse oposição. Parodiando o conto que denuncia e critica as vaidades da corte e do intelecto, é como se o partido ao mesmo tempo protagonizasse uma farsa e fosse o coadjuvante que a desmascara [o primeiro a gritar “O governo está nu!”]. Uma duplicidade esquizofrênica…
— Texto escrito em 28/02/2016 e revisado em 01/03/2016 —
[Roberto Vinicius P.S. Gama é mestre e bacharel em Relações Internacionais]