Vento solar e política ao mar: clima tenso em tempo de crise

Em clima de tensão e ansiedade, o tempo fechou no horizonte político do Brasil. Governistas convictos (PT e cia.) apostam na tese do golpe antidemocrático das classes dominantes/elites conservadoras e evocam uma resistência contra-hegemônica, incoerente a um partido que predomina na política nacional com quatro mandatos presidenciais consecutivos; governistas ma non troppo (PMDB) buscam se manter como o principal partido “de situação” — seu posicionamento no espectro político e suas alianças dependem da situação — do país, o (in)fiel da balança; oposicionistas (PSDB e cia.) apostam no argumento “armação ilimitada”, as aventuras de Dilma e Lula [o difícil é identificar o Bacana], porém carecem de carisma, liderança e qualidade para propor novos (e melhores) rumos ao país.

Enquanto isso, em Guarujá (SP), uma cobertura triplex com vista para o mar virou peça fundamental de investigação de um ex-presidente que, agora, receia ir do suposto vínculo com o Edifício Solaris à possível condução coercitiva para ver o sol nascer quadrado. Já em Belo Horizonte (MG), um prédio virou ponto do itinerário das manifestações do dia 13, levando a proprietária de um dos apartamentos do Edifício Solar a perceber o crescente apoio popular ao seu impeachment e a temer as perspectivas de um governo em eclipse.

Em termos de simbologia, o Ed. Solar se destaca pela localização repleta de referências jurídicas, políticas e republicanas: fica na Av. João Pinheiro, com frente oposta ao prédio da Faculdade de Direito da UFMG, por sua vez situada na Prç. Afonso Arinos. As referências históricas são relevantes… Atualmente: i) o nome da avenida é homenagem a João Pinheiro (João Pinheiro da Silva),[1] ex-Presidente do Estado de Minas Gerais (1906–1908); ii) a FDUFMG resultou da federalização, em 1949, da Universidade de Minas Gerais, à qual a Faculdade de Direito se integrou em 1927; iii) o nome da praça homenageia Afonso Arinos (Afonso Arinos de Melo Franco),[2] escritor (acadêmico da ABL) e jurista. Antigamente: i) a via pública chamava Avenida Liberdade, remetendo ao valor estampado na Bandeira do Estado em ressonância ao lema da Inconfidência Mineira, bem como ao princípio fulcral originário da referida Faculdade; ii) a instituição de ensino era designada Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais de Minas Gerais [ou simplesmente Faculdade Livre de Direito de Minas Gerais], contando com Afonso Arinos e João Pinheiro como professores e integrantes do grupo responsável por sua fundação, ocorrida em Ouro Preto no ano de 1892 e articulada às ações de início do governo de Afonso Pena (Affonso Augusto Moreira Penna),[3] então Presidente do Estado de Minas Gerais (1892–1894) e futuro Presidente da República (1906–1909) — foi também o primeiro Diretor da Faculdade, motivo pelo qual os(as) freqüentadores(as) da egrégia instituição respeitosamente a chamam de (Vetusta) “Casa de Afonso Pena”; iii) o espaço público era chamado de Praça da República, destacando o novo regime de governo e o contexto de reorganização política no período de fim do século XIX a início do século XX.

Do Ed. Solar (Beagá) ao Ed. Solaris (Guarujá), “Ton soleil, ta braise[4]. A dupla preponderante na política brasileira dos primeiros quinze anos do século XXI enfrenta crescente impopularidade e tem dificuldades para encontrar um lugar ao sol e águas calmas para navegar nas crises públicas e nas denúncias particulares. Os desafios do contexto social, político e econômico do país se configuram como um misto de ‘Titanic’ e ‘stultifera navis’: enquanto “esquerda” e “direita” (incluindo os dois grandes partidos do governo federal) buscam se reposicionar no convés de um país que afunda,[5] ambas simultaneamente se esforçam para se livrar das respectivas responsabilidades pela conjuntura da crise, de modo a, em maior ou menor grau, abandonar a “nau dos loucos” e deixar os “incompetentes” afogarem politicamente.

Vale a letra… “Vento solar e estrelas do mar / Você ainda quer morar comigo”? [6]

— Texto escrito em 13/03/2016 e revisado em 14/03/2016 —

[Roberto Vinicius P.S. Gama é mestre e bacharel em Relações Internacionais]

[1] https://www.mg.gov.br/governomg/portal/m/governomg/governo/galeria-de-governadores/10202-joao-pinheiro-da-silva/5794/5241

[2] http://www.academia.org.br/academicos/afonso-arinos/biografia

[3] https://www.mg.gov.br/governomg/portal/c/governomg/governo/galeria-de-governadores/10177-affonso-augusto-moreira-penna/64739-affonso-augusto-moreira-penna/5794/5241

[4] Trecho de Joana francesa (Chico Buarque, 1973). 
http://www.chicobuarque.com.br/construcao/mestre.asp?pg=joana_73.htm

[5] “[…] optar por Esquerda e Direita, nos dias que correm, equivale a rearranjar as cadeiras no convés do Titanic” (trecho de Réquiem Moderno — Carlos Frederico GAMA, 2003, p.8). 
https://odebatedouro.files.wordpress.com/2013/03/debat36.pdf

[6] Trecho de Um girassol da cor de seu cabelo (Lô Borges/Márcio Borges, 1972). 
http://www.museuclubedaesquina.org.br/musica/um-girassol-da-cor-de-seu-cabelo/

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