Sobre Cobras, escorpiões e os dragões que fingimos que não existem

A Radiko (Nics e Mih) esteve na estrada entre fim de outubro e novembro e o local por onde começamos todo este processo fica no sul da Bahia (infelizmente perto de onde a lama chegou), em um lugar que só mesmo Piracanga poderia ser. No encontro entre o rio e mar, intermediado a certa altura por uma fazenda de coqueiros. Um local que nos recebeu com a imensidão da lua cheia em um céu estrelado que nenhum paulistano se lembra que existe.

Fomos lá também para conhecer a ecovila e os projetos fantásticos que ouvimos falar anos atrás, como a escola Inkiri, o local maravilhoso, o cultivo na areia, os produtos naturais que eles produzem lá mesmo de maneira artesanal, entre outras coisas. Mas o que realmente nos levou até lá nesta data foi o Confestival, um evento organizado pela comunidade Dragon Dreaming, com caráter internacional (mesmo com uma maioria representativa de brasileiros do todos os cantos).

O que permeou este encontro tão bacana, além das histórias inspiradoras do John Croft (o fundador da metodologia), foi o Open Space. Uma sacada genial do pessoal que organizou o evento, que permitiu que muita gente pudesse apresentar seus trabalhos, projetos e metodologias de interesse para quem mais ali quisesse saber. É uma pena eu não poder ter acompanhado muita coisa inspiradora que rolou, e não ter infelizmente conectado com todo mundo do festival. Mas o que pudemos acompanhar foi incrível! E de toda forma, mesmo que não foi nosso primeiro contato com open space, depois do encontro estamos usando ele como referência.

É bacana lembrar os princípios, como:

  • Quem quer que venha, são as pessoas certas.
  • Quando começar é a hora certa.
  • O que quer aconteça é a única coisa que poderia ter acontecido.
  • Quando acabar, acabou.

Isso tem sido importante em momentos aonde não estamos em uma dinâmica Open Space, para lembrar que a vida pode ser um pouco assim e não ficar se cobrando outros formatos.

No meio de tanta programação bacana tivemos que escolher alguns horários para ir a praia, rio ou mínimo descanso. Porque a vontade de participar do máximo possível de atividades não é maior do que a necessidade de descansar, respeitar o corpo no calor, e aproveitar o ambiente lindo pelos poucos dias que ficamos.

Um dos desejos de uma galera de Piracanga pouco tempo atras era poder andar descalço sem queimar os pés. Conseguiram. Mas confesso que pode ser desafiante para todos nós biofóbicos. E algumas vezes pensamos que não somos biofóbicos pois vamos muito ao parque, não matamos aranhas e baratas em casa e celebramos os insetos. Mas para seres da cidade grande andando no escuro ouvir que tem uma cobra enorme logo aonde você estava indo de chinelo e short, ainda depois de muitas picadas de pernilongo não te faz querer andar sem olhar para o chão. E descobrir que um escorpião picou uma participante oficina te faz olhar três vezes antes de pegar uma cadeira. Além de checar as janelas do quarto, aonde não entravam morcegos.

Mas brincadeiras a parte, o mais difícil neste local foi o transporte. Esperamos um tanto para chegar, e tivemos uma super complicação com a saída. Tem vezes que certas regras e falta de flexibilidade não fazem as coisas funcionarem de forma mais eficiente, e só vão deixar as pessoas decepcionadas. Uma pena que a saída de um espaço tão lindo (que teve até trilha sonora) tivesse que acabar de forma tão tensa.

Mas para ninguém ficar triste deixamos aqui depoimentos pessoais marcando algumas das impressões de cada uma neste trecho da jornada.

Nics — Á beira do rio

Foi de frente para o rio, que fica paralelo ao mar que eu escrevi quase todos os dias, nos intervalos deste festival de sonhos e compartilhamento abundante. Eu pessoalmente não senti o chamado para compartilhar nada meu nos anúncios do primeiro dia. Uma típica introvertida que queria ouvir avidamente dos colegas. Me senti contemplada em muitas das oficinas e palestras e ainda saí com novos amigos do audiovisual e projetos recarregados. Eu confesso que até fisicamente falando, a cobra e o escorpião me intimidaram menos do que quando tive que resolver situações de surpresa quanto a gastos e operacional, ou do transporte que iria me fazer perder parte importante do evento. Mas eu entendi, como ouvi ali no primeiro dia, que tudo ali acontece por um motivo e que era meu desafio pessoal. Eu tive dificuldade consciente de liberar a energia “zona de conforto” em momentos iniciais dos desafios. Mas nada que uma boa dança circular e entendimento mais amplo do processo não resolvesse. No fim, com o atraso aonde deixei um pouco de estresse e algumas situações tomarem de mim, acabei por exemplo me perdendo do grupo no qual mais queria participar, Mas com isso encontrei gente muito bacana, que me acolheu incrivelmente bem e acabou sendo o projeto com o qual mais eu me identifiquei, tudo a ver com a lógica de jogo e lúdico da Radiko ;)

Eu fui lá pronta para enfrentar os desafios e lidar com o ambiente mais roots. E também com a intenção de solidificar o sonho e criar mais espaço para os projetos sejam mão na massa. Eu não encontrei basicamente nada do que eu queria, mas coisas que me surpreenderam muito positivamente. Saí de lá com amigos novos, conhecendo gente que acompanha a Radiko em outros estados, descobrindo que mesmo sem a metodologia Dragon Dreaming meus projetos são todos Gaia, e com material para meu projeto audiovisual além do que eu planejava.

Mih- Minhas impressões do Confestival

Foi inspirador vivenciar o Confestival, especialmente sabendo que o criador da ferramenta de Dragon Dreaming como a conhecemos estaria presente. Procurei me manter longe de expectativas no período pré — viagem para não gerar sentimentos / pensamentos negativos, mas é bastante complexo ficar sem imaginar como o lugar é, sobre o como as coisas podem acontecer durante esse período, e até mesmo se irei encontrar amigos que fazem parte da comunidade Dragon e outros que ainda não fazem.
Enfim, muitas expectativas… mas nada poderia me preparar para o que encontrei no festival : a Abundância esteve presente de tantas formas desde o lugar — Piracanga, que é um refugio de Natureza fora de qualquer padrão que eu conhecia até então até a dinâmica do evento que se deu por uma ferramenta que gosto muito de usar — o Open Space; passando pela alimentação que foi bem servida em 5 momentos diários e surpreendeu pela variedade; e pelas relações inter e intra — pessoais que foram intensamente vividas nos dias do evento.
Foi um período interessante em que pude perceber em certos momentos as etapas do Dragon em ação (sonhar; planejar; realizar e celebrar) com bastante intensidade. Nos (poucos) momentos de descanso contemplar a paisagem do encontro do rio com o mar; escrever um pouco dos meus projetos e interagir e criar laços com as pessoas ao meu redor.
Não tem como dizer que não foi uma experiência transformadora chegar com o brilho da Lua (força feminina) como uma espécie de guia, passar por oficinas, rodas de conversa, celebrações de música, fogueira, dança, artes, vivências e afins e sair do espaço de Piracanga e do fim do evento do Confestival com os raios de Sol (força masculina) e tudo que me vem é um profundo sentimento de GRATIDÃO por ter tido a oportunidade de presenciar tudo isso, mesmo que por um curto período de tempo — 6 dias.
Algo importante de ser compartilhado é que essa vivência não terminou no fim do evento, foram criados laços pessoais, nasceram projetos que já estão buscando meios de serem implementados e foi lançado um convite para participar do próximo Confestival que será daqui a 2 anos na Romênia.

Nos próximos dias vamos falar sobre o próximo destino. Serra Grande! Sem spoiler — vale a pena demais!!! (ir para lá, e ler o texto)

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