Ouça, ouça este som que vem de cordilheiras nebulosas escondidas atrás de um forte sentimento de ódio. Enraizado em sua carne, como uma arvore que se fixa na rocha para garantir sua existência. E você se faz tão indiferente a música que lhe clama, este som é sua piedade gritando por socorro, após receber bombas de ira, raiva, desilusão. Onde você esta?

27 de outubro de 1996

Ainda olho para a chuva, estalando no telhado, por uma pequena velha janela de madeira, que possui seus quatro pedaços de vidro tão sujos que a visibilidade é nula, está amanhecendo e mais um dia se inicia na cidade que nunca dorme. Ouço de longe sirenes, e o estalar das rodas de um vagão sob o ferro de seu único trajeto. A chuva cai firme. Ao menos este som consegue me acalmar.

O cheiro de sangue está no ar, e lembro que devo limpar toda essa bagunça, olho para trás, um homem de 43 anos aproximadamente, com suas madeixas grisalhas implorando por se destacar, estava jogado no chão, e uma poça de sangue ao seu redor. Olhei para os seus olhos, e o mesmo vazio de uma vida se fazia presente neste momento.

- Maldito gordo! — disse uma voz, vinda da cozinha.

- Cale-se, temos que limpar esta sujeira — falei, pegando um pano.

Levemente fui posicionando o pano sobre a poça de sangue para que ele pudesse absorver a maior quantidade possível, sem criar pressão alguma, a madeira do assoalho iria receber a primeira camada de verniz na próxima semana. Deixando minha tarefa cada vez mais difícil.

Removemos o corpo e o colocamos em uma banheira com gelo. Com os buracos do estrago feito pela Taurus tampados. E após trinta minutos cautelosamente removendo o excesso de sangue comecei a banhar a região com bicarbonato de sódio.

- Pegue aquele vinagre, é branco? — perguntei.

- Pronto, vamos fazer vulcões agora. Não estamos em uma feira de ciências Paulo! — disse com tom irônico indo em direção à garrafa de vinagre — É sim, tome.

Ele arremessou a garrafa, assim que peguei me certifiquei que era realmente vinagre. Joguei dentro de um balde que estava ao meu lado, banhei uma escova com o liquido, e comecei a esfregar a região. O cheiro da solução era estranho, mas tinha que continuar o serviço.

Levamos exatas três horas para limpar o local. Removemos as digitais, mesmo sabendo que a Policia de São Paulo possui um péssimo setor de investigação, não poderia deixar rastros. O apartamento na Vila Madalena estava em reforma, existiam galões de tinta e sujeira para todo lado, se limpar muito fica nítido que alguém esteve ali. Então fiz apenas o necessário.

A questão agora era como se livrar do corpo.

Cerramos os membros do corpo do velho que estava na banheira. E jogamos em um saco. Peguei as roupas para queimar quando a carteira caiu, Jamerson Barbosa Pinto era seu nome, casado, tinha a foto de duas crianças na carteira. E um detalhe que fez com que um frio intenso subisse por minha espinha, estalando em minha cabeça. Meu estomago se embrulhou, e o amargo do medo surgiu pela primeira vez em minha boca. Ele era detetive da policia civil.

Corri em direção à porta, e fui para a rua, encontrei um beco, peguei as roupas que estavam no balde, coloquei uma boa quantidade de álcool e taquei fogo. Não fui embora até que tudo estivesse queimado. Removi os duzentos reais da carteira e a joguei no fogo.

Voltei para o apartamento, procurando por mais algum vestígio e não encontrei nada, a banheira estava limpa. O Ricardo resolveu fazer algo de útil. Pegamos o carro e fomos para a represa mais próxima, chegamos a beira da represa, jogamos cimento dentro do saco, e do alto da ponte o arremessamos. O saco afundou. E o perdemos de vista.

O dia havia apenas começado, e eu sabia que aquele não era o fim dessa história.

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