Ele é um escritor? #1 — Murilo Rubião
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Murilo Eugênio Rubião (Carmo de Minas MG 1916 — Belo Horizonte MG 1991) foi contista, jornalista, professor e advogado. Inicia seus estudos no município mineiro de Conceição do Rio Verde, concluindo-os em Belo Horizonte. Em 1938 ingressa no curso de direito, na Universidade de Minas Gerais, onde funda, com outros estudantes, a revista literária Tentativa. Em 1940, tem sua primeira publicação, o conto Elvira, Outros Mistérios, impressa na revista Mensagem. Em 1946, começa a destacar-se em sua atuação política: torna-se oficial de gabinete do interventor do estado, passando em seguida a outros cargos até, no ano de 1952, chegar à chefia de gabinete do então governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek. Nesse meio tempo, publica dois livros: O Ex-Mágico (1947) — ganhador de um prêmio da Academia Mineira de Letras — e A Estrela Vermelha (1953). Em 1965, lança o volume de contos Os Dragões e Outros Contos e, no ano seguinte, torna-se o primeiro editor do aclamado Suplemento Literário, também no jornal Minas Gerais, em que permanece até 1969, quando se afasta para assumir a chefia do Departamento de Publicações e Divulgação da Imprensa Oficial. Falece em 1991, e a sua obra, apesar de não muito extensa, é reconhecida como uma das mais inventivas do conto brasileiro da segunda metade do século XX.
O texto de Rubião tem um que da naturalização do absurdo e do fantástico, tal qual hoje se aclamaria qualquer critico moderno. Não se tratam aqui de rupturas mas da simples aceitação do irreal como banal. O conto Dragões por exemplo, é incrível como se nota através da linguagem a própria noção de realidade. Veja como se abre:
“Os primeiros dragões que apareceram na cidade muito sofreram com o atraso dos nossos costumes. Receberam precários ensinamentos e sua formação moral ficou irremediavelmente comprometida […]” (Dragões e outros contos, 1965)
Rubião, que dizia que “o escritor não separa a vida da literatura” realmente se segue à risca. O grande segredo do realismo fantástico à Latina está nesse sincretismo absoluto entre a naturalização do impossível e nossas características morais e histórico-culturais. Uma característica marcante de Rubião, é ter sempre um comentário nos seus textos mesmo quandop este se ausenta (entendendo aqui a ausência de fala como própria fala), o narrador nesse caso portanto é um porta voz do fantástico que conta de forma clara, simples e objetiva tudo o que precisamos saber (ou tudo que ele deseja que saibamos). Um bom exemplo é o conto “O pirotécnico Zacarias” onde o narrador nos faz questionar os acontecimentos que levaram a morte do personagem título até que descobrimos que ele mesmo está nos narrando a história. Há muito mais nas obras e na personagem de Murilo Rubião, este apanhado histórico e breve explicação literária apenas busca servir de um conselho à leitura. A relação entre seus textos e as epígrafes bíblicas são uma das coisas, por exemplo, que este que voz escreve adoraria explanar um dia (de preferência numa conversa em mesa de bar, como todo escritor gostaria).
Boas leituras.
