Imposto no Youtube

Comentário sobre a Instrução Normativa nº. 134, de 9 de maio de 2017 da Ancine que estabelece cobrança de CONDECINE para anúncios publicitários em audiovisual na internet.

Duas coisas (dentre várias que precisam ser ditas sobre o mercado audiovisual brasileiro) vão nortear esse texto:

- Ele depende quase que exclusivamente de financiamento estatal, excetuando grandes produções vinculadas à tv que também recolhem dinheiro estatal.

- Apesar do crescimento da distribuição nos últimos anos, ainda é ineficiente em alcançar e formar um amplo público cativo, permanecendo como um nicho. (Ressalvas para as mesmas produções ligadas a tv citadas acima)

Vamos lá…
Nos últimos anos o mercado audiovisual brasileiro expandiu e cresceu dentro do universo web. Desde o inicio dos anos 2000, vás pessoas se viram inspiradas e motivadas a tentar a sorte num espaço interativo e “livre” de expressão. Foco no Youtube. O video se tornou parte rotineira da vida de muitas pessoas desafiando o rádio e a Tv e mudando dinâmicas de produção de conteúdo artístico, jornalistico e pessoal. A dinâmica dos blogs pessoais foi incorporada aos canais que surgiam aos montes e popularizou um meio que nasceu fadado a se tornar mainstrain. Quem pegou o barco pegou e quem não pegou ainda quer pegar. 
Demorou um pouco mas o cinema -principalmente motivado por uma galera mais jovem — entendeu que o Youtube não é apenas um lugar para “video” e experimentações de linguagem surgiram em várias projeções autorais. 
 Evidencio isso para dizer que como ferramenta de difusão “gratuita”, o youtube tem um potencial de mercado muito maior do que o governo jamais poderia conceber — que pelo menos demonstra ser incapaz de conceber devido ao seu enfoque majoritário em produção e não na difusão.
 Até aí vinha tudo bem, não havia uma queda de braço. Haviam (e sempre haverão) puristas dizendo que “o estreaming vai matar o cinema” ou “esses adolescentes só querem saber de celular e não de cinema” mas essas voes eram tão baixinhas que nem importava.
 Agora, indiretamente, o governo começa a sangrar as pequenas produções para a internet. A citada portaria não afeta financeiramente eu e você que fazemos videos pequenos e vez ou outra pegamos um contrato de cem reais pra anunciar uma camiseta, mas no ataca burocraticamente. A proposta de isenção para pequenos produtores é antiquada e não se relaciona com o dinamismo das redes fazendo com que, na prática, não seja seguida ou popularize uma prática de ilegalidade tolerável.
 Absurdo pensar que em plano 2017 as cabeças que regem o audiovisual no país ainda pensam em dinâmicas que remetem há vinte ou trinta anos ano passado. É hora de se modernizarem.

Mais ainda é pensar que a motivação para tal seja o fomento do cinema nacional. Longe de apregoar que é um absurdo o Porta dos Fundos ter tido dinheiro para fazer um filme terrível (que já resenhei, tá no meu canal ) ou evidenciar que boa parte do nosso “bom cinema” é só vitrine e não alcança o público. Isso tudo rende discussão própria e não cabe aqui. Cabe sim pensar que o processo de produção que sacrifica um meio potencial de difusão e experimentação de novas criações já nasce errado. Num cenário onde a compra de equipamentos é dificultada, onde há uma verdadeira máfia que controla as exibições privadas e um grupo pequeno que manda e desmanda na distribuição nacional só pode estar de brincadeira quem acredita que por mais dinheiro para as produções é o melhor modelo para popularizar nosso cinema. 
 O segredo está na palavra, o governo podia entregar de novo a produção do cinema para o povo.

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