Sejamos professores, ainda que contra tudo!
Este texto é um desabafo. Sem embasamento, apenas notas. Faz dois dias que conversando com uma amiga pelo whatsapp, ela me perguntou: “Como que a gente faz pra melhorar esse país?”
Respondi que só havia duas formas concretas:
“Faça bebês e os eduque bem.” Ao que claramente foi seguido de um sonoro não ( e com boa dose de razão tenho que dizer). E então havia uma segunda opção: “Se torne uma professora.”
De todas as urgências que existem em nossa sociedade, uma elenca em disparado a mais importante de todas: Precisamos rever a nossa forma de ver a educação. Precisamos como sociedade entender que quando um aluno chega ao ponto de espancar uma professora, é por que já perdemos nossa ligação com a escola e seu papel há muito tempo.
Marcia Friggi relatou nesta segunda-feira (21) ter recebido uma sequência de socos depois de ter expulsado o estudante de sala por mau comportamento. Leia o relato na integra:
“DILACERADA
Estou dilacerada. Aconteceu assim:
Ele estava com o livro sobre as pernas e eu pedi:
– Coloque seu livro sobre a mesa, por favor.
– Eu coloco o livro onde eu bem quiser.
– As coisas não são assim.
– Ahhh, vai se foder.
– Retire-se por favor.
Ele levantou para sair, mas no caminho jogou o livro na minha cabeça. Não me feriu, mas poderia. Na direção eu contei o que tinha acontecido. Ele retrucou que menti e eu tentei dizer:
– Como, menti? A sala toda viu… Não deu tempo para mais nada. Ele, um menino forte de 15 anos, começou a me agredir. Foi muito rápido, não tive tempo ou possibilidade de defesa. O último soco me jogou na parede.
Estou dilacerada por ter sido agredida fisicamente. Estou dilacera por saber que não sou a única, talvez não seja a última. Estou dilacera por já ter sofrido agressão verbal, por ver meus colegas sofrerem. Estou dilacera porque dilacera porque me sinto em desamparo, como estão desamparados todos os professores brasileiros. Estamos, há anos l, sendo colocados em condição de desamparo pelos governos. A sociedade nos desamparou. A vida…
Lembrei dos professores do Paraná que foram massacrados pela polícia, não teve como não lembrar.
Estou dilacerada pelos meus bons alunos, que são muitos e não merecem nossa ausência.
Estou dilacerada, mas eu me recupero e vou dedicar a minha vida para que NENHUM PROFESSOR BRASILEIRA passe por isso
NUNCA MAIS. (Não sei se cometi erro ao escrever, perdoem. )”
E fica aqui o martírio e a responsabilidade. Se fugirmos da missão de educar, fatores como estes só irão se repetir. Se permitirmos que o governo continue ordenando como as aulas devem ser ministradas de forma autoritária como foi a reforma do ensino médio ou a proposta do escola sem partido, continuaremos minando a autonomia da educação. Se continuarmos sucateando os salários e as pesquisas de base, ou dando voz a negacionistas e relativistas vamos dar munição a quem não quer ouvir nem respeitar o próprio ensino. Se continuarmos a deixar que professores sejam espancados, contra a lei como neste caso ou através dela como quando os estados soltam suas polícias em cima de nós, estamos dizendo que isso é normal.
Bom seria se a educação norteasse o pensamento de todos e que em alguma medida, todos nós pudêssemos agir como bons professores. Mas sei que não é para todos. É preciso esforço, preparo e por que não, vocação. Há meses atrás eu fiz um apelo aos meus amigos que desejam ser professores: O sejam! Da melhor forma possível. É tudo o que nós mesmo podemos fazer.
