Enfim, a tão falada Europa
E não é que eu cheguei, menina?
Existiu sempre entre todos os meus amigos, e acho que com todo mundo que conheci, um certo frisson sobre estar na Europa. O lugar onde tudo acontece, berço da civilização ocidental moderna, o começo do mundo.
É realmente muito interessante pensar que não fomos feitos pra ficar no mesmo lugar.
Tirando todas as ressalvas que imagino que as pessoas da minha bolha tenham com o Brasil, que não são poucas, eu não posso dizer que tinha uma vida horrível lá. Já divaguei sobre isso eu acho.
Mas estar aqui é diferente. E olha que tive amigo que disse nem considerar Portugal a Europa, que aqui não era parâmetro.
Longe de mim querer bater no peito pra falar com propriedade, até porque esse texto marca minha primeira semana do lado de cá do oceano.
Mas o impacto foi forte.
Vamos pelo começo.
Como eu disse em outro relato, minha viagem pra cá provem de uma demissão, dessas horas que você não sabe muito o que fazer com a sua vida, num movimento de olhar pra frente e otimista eu resolvi pousar por aqui. Planeja daqui, aperta dali, vim.
Saí de São Paulo em um avião com destino a felicidade. Mentira, era uma escala de 17 horas em Casablanca, no Marrocos. Avião com 9 lugares por fileira, 35 fileiras ao longo da aeronave, nenhum lugar vazio. Daí já podem imaginar como foi: cheio e apertado. E como era de se esperar, eu fiz esse vôo de 8 horas sorrindo de orelha a orelha. Numa visão mais realista e distante é obvio que não teve glamour algum. Minha sorte foi que não ouve nenhum incidente insuportável envolvendo cheiro de outros passageiros ou o meu.
Eu nunca tinha estado na área de desembarque de outro aeroporto internacional que não fosse o de Guarulhos, ainda sim na parte de chegadas domésticas. Foi uma sensação completamente nova ver gente falando línguas completamente diferentes existindo no mesmo espaço. Aquela olhada marota na mão do coleguinha pra ver se o passaporte dele estava escrito República Federativa do Brasil. Aquela sensação de bora se ajudar, amiga.
Comentei no Facebook que esse stopover no Marrocos já me abriu muito os olhos pra uma experiência que era por si só surreal pra mim. Sozinho, brasileiro, sem nenhum amigo ao alcance da mão. Apesar de não ter muito o que acontecer de errado, sempre tinha aquele medo de cometer um vacilo.
Passei ileso pelo Marrocos, apesar de achar que tenha tomado o café da manhã de graça no hotel, mas que na verdade eu deveria ter pagado por aquilo. Acontece.
Volta pro aeroporto, preenche formulário, sorri pro moço da imigração. Ouvir o barulho de um carimbo nunca foi tão reconfortante. Clac-clac. Essa grande repartição pública chamada área de imigração muda a vida da gente.
De lá até Lisboa o vôo foi bem rápido, quase uma ponte aérea. Tirando a criança que chorava compulsivamente da decolagem à aterrisagem — haja pulmão — era um dia de sol lindo quente, existia uma poeira no ar num tom terroso, que eu chuto ser algum tipo de poeira do deserto. Sei lá.

Aterrizando na terrinha era a hora da verdade. Um senhor muito simpático nos recebia já na porta do avião e pedia os passaportes da turma, fazia duas perguntinhas bobas e nos deixava passar. Mas não adianta, cada vez que lhe pedem o passaporte a sensação de que podem te mandar embora ali mesmo é nítida. É a mesma sensação de quando usamos o cartão de débito, e, mesmo sabendo que tem saldo, dá aquele medinho de aparecer a famigerada mensagem de não autorizado.

Fila, mais fila, famílias inteiras na fila. Silêncio. Toda area de entrada nos países é tão silenciosa assim? Minha vez, sorrio. O moço sorriu de volta, a gente dá uma relaxada nas pregas. Tudo bem? Tudo. Vai pra onde? Pra casa de amigos, depois pra x,y,z lugares. Aquele impulso de mostrar mais documentos do que ele tinha pedido. Ah ok, deixa ver. Viu o documento numa olhada de 7 segundos, devolveu-me. clac-clac. Carimbou.
Entrei.
Soltei as pregas que faltavam ser soltas. Passei no banheiro pra enxugar o suor da testa e renovar o desodorante.
Entrei no metrô, mas daí começamos uma outra história.
