Chovia.

Chovia. Na verdade não era bem uma chuva, era mais uma garoa, mas ainda assim se ouvia as gotas caindo ritmicamente na janela. Era um dos poucos feriados prolongados que tivera aquele ano. Quando se tem feriados prolongados em cidades como São Paulo, isso geralmente acontece, as famílias viajam e a cidade fica silenciosa e tranquila como nunca.

Eu tinha planejado limpar meu apartamento, fazer compras e adiantar o trabalho que eu tinha acumulado, mas quando o dia chegou eu resolvi que seria melhor aproveitado se eu dormisse o dia todo. E foi o que eu fiz. Eu estava trabalhando como um mouro, merecia um descanso afinal. O resultado foi eu acordar quase as 7 horas da noite, com a cabeça latejando e o corpo totalmente dolorido.

Fiquei cerca de meia hora deitado na cama, o meu cérebro tinha acordado, ou ao menos parecia que sim, mas o meu corpo parecia ainda estar em um sono profundo. Fiquei ali deitado, ouvindo o barulho do ventilador se misturar as gotas que batiam na janela e observando o meu teto. Vocês já notaram que as manchas na madeira do teto as vezes formam desenhos, assim como as nuvens? Uma vez meu avô disse que esses desenhos são nossos sonhos, os sonhos que esquecemos assim que acordamos, sabe? Ele disse que quando esquecemos é porque os sonhos escaparam e voaram, mas ficaram presos no teto. Então se um dia você quiser lembrar de um sonho, é só olhar pro seu teto com atenção.

Me sentei na cama depois de algum tempo e fiquei olhando pro meu quarto, ele parecia ter ficado ainda mais bagunçado do que estava quando eu fui dormir, e cada vez que eu piscava a bagunça parecia ficar maior. Pensei em fazer uma faxina e organizar a bagunça, mas não passou do pensamento.

Me levantei e fui até a cozinha, abri a porta do armário onde meus remédios ficavam e peguei um analgésico, coloquei o comprimido sobre a pia da cozinha, quando eu digo cozinha, você talvez possa se enganar, o que eu chamo de cozinha é um corredor com espaço suficiente pra uma pessoa passar de cada vez, com uma pia, frequentemente cheia de louça suja, um microondas mais velho do que eu, até me surpreendia que os números dele não fossem em algoritmos romanos e uma geladeira de cor amarelo desbotado que me fazia as vezes ter duvida se gelava mesmo as coisas.

Abri a geladeira e peguei uma jarra de água, abri o armário dos copos, e para minha não tão grande surpresa não havia nenhum copo limpo, olhei para a pia com uma torre que parecia uma escultura modernista de louça suja e pensei em lavar um copo, mais uma vez ficou só no pensamento.

Coloquei o comprimido na boca e despejei a água direto do gargalo na minha boca, engoli o remédio e coloquei a jarra de volta na pia. Ouvi minha barriga roncando de fome e resolvi que ia preparar um sanduíche e um café pra comer, abri outra parte do armário e peguei o pão, sinceramente, chamar aquilo de pão é um puta de um elogio, parecia mais uma pedra feita de trigo, se é que isso pode existir.

Desisti do pão e resolvi que ia tomar só o café, peguei a vasilha em que eu fervia a água no microondas e o coador. Despejei a água na vasilha e coloquei dentro do microondas e deixei o timer em 3 minutos. Abri a parte de baixo do armário pra pegar o café e é claro que o café tinha acabado.

Chovia.

Decidi que ia descer e procurar algo pra comer pela cidade, apesar da chuva, o clima e a quietude deixavam a cidade tentadora a um passeio. A fome também ajudava bastante nessa decisão.

Tomei um banho e coloquei uma camiseta de manga longa branca e uma calça de moletom preto, fiquei com preguiça de pentear o cabelo então coloquei uma toca e um tênis e me dei por satisfeito, eu não precisava me arrumar, afinal ia só tomar um café. Peguei minha carteira, dentro dela havia uma nota de dez reais e algumas moedas no bolsinho lateral, botei no bolso da calça, peguei meu guarda chuva e desci as escadas até a rua.

Chovia. E dessa vez chovia de verdade. A garoa tinha espessado consideravelmente, e também estava bem mais frio do que eu imaginava, pensei que poderia ter colocado uma blusa de verdade, mas continuei com a minha camiseta fina. A noite já tinha caído também, e dava pra se ver algumas tímidas estrelas no céu.

Geralmente eu descia até a avenida pra esperar no ponto de ônibus, desde que tinha mudado até ali, tinha subido poucas vezes a rua, decidi que dessa vez ia procurar algum lugar no outro lado da cidade.

Andei por alguns minutos, a chuva ficou ainda mais forte e também começou a ventar, estranhamente as estrelas continuavam a brilhar no céu, mas a cidade estava mais deserta do que eu nunca tinha visto, eu não tinha visto mais de duas pessoas no tempo em que estava na rua, e se vi meia duzia de carros foi muito. E pouco tempo depois de começar a ventar, o meu guarda-chuva que não era dos melhores quebrou.

Pra minha sorte eu vi um barzinho do outro lado da rua. Não era bem o lugar que eu estava procurando, mas eu já estava ficando ensopado, corri pra lá.

Entrei no bar, uma mulher, não muito mais velha que eu estava sentando em um banquinho em um pequeno palco, ela tinha um violão no colo e tocava uma musica que parecia um MPB, a musica falava sobre uma morena que tinha curvas e sabores, ou algo assim.

Alguns segundos depois de eu me sentar em uma mesa, um garçom veio até mim e se apresentou, eu disse a ele que queria um café bem quente e um misto quente, e que iria no banheiro, e perguntei se eles não podiam me emprestar uma toalha. O homem foi até a cozinha e voltou alguns segundos depois com uma toalha amarela na mão, ele me deu e disse que meu pedido estava sendo feito.

Fui até o banheiro e me sequei, tirei a touca e coloquei no bolso da calça também, fiz o máximo pra não deixar meu cabelo parecendo o de um mendigo. Quando voltei a minha mesa o café e o misto quente já estavam me esperando. Me sentei e dei uma beberricada na xícara, aquele era provavelmente o melhor café que eu havia tomado em meses.

O bar não era muito grande, tinha cerca de uma duzia de pessoas nele, mas ainda era cedo, não passava das oito horas, a mulher continuou a tocar e a cantar, ela tocou uma musica que eu gosta muito do Titãs, se eu tivesse mais dinheiro na carteira, com certeza daria algum pra ela.

Sabe, toda essa historia que eu te contei sobre como eu posso ser incrivelmente preguiçoso, foi só pra chegar até esse momento, sobre como cada pequena coincidência me levou a conhecer ela.

Me levantei e fui até o balcão para pagar minha conta, a chuva batia forte, entrando em uma estranha e melódica sintonia com o ritmo que o violão fluía. Fique tão concentrado na musica que só ouvi da segunda vez em que o dono do bar disse :

— Senhor, são nove e cinquenta.

Tirei minha carteira do bolso e entreguei a nota de dez reais que estava um pouco molhada na mão dele, ele pareceu não notar, e se notou, simplesmente não ligou. O homem tirou uma moeda de cinquenta centavos do balcão e estendeu para mim.

— Pode ficar, obrigado. — Eu disse agradecendo e fazendo um gesto com a mão.

O homem sorriu e guardou a moeda novamente, e eu fiquei ali ouvindo a musica mais um tempo. Depois de alguns poucos minutos ela se sentou do meu lado.

— 8 anos. — Ela disse ao dono do bar, enquanto olhava para a tela do celular.

Ela usava um vestido azul escuro sem mangas, tinha um anel também azul no dedo e um salto não muito alto, preto. Na sua boca um batom vermelho não muito escuro, nem muito claro, usava pouca maquiagem, provavelmente sabia que não precisava. O cabelo estava preso em uma trança que caia junto ao ombro direito.

Ela virou-se para mim e disse :

— Olá. — E me deu um sorriso, e nesse momento eu sabia, eu tinha me apaixonado, o resto de todos os meus dias começou ali.

Ela era linda, mais do que isso, não conheço uma palavra que possa descreve-la, mas ela me fez esquecer do frio, e eu me perdi naqueles olhos castanho escuros por um longo momento.

Se chovia? Sinceramente eu não sei, e se eu sabia, eu não me importava nem um pouco.

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