Jardim

O jardim não era especialmente grande, nem pequeno. Ele tinha o tamanho ideal. E não era um jardim qualquer, era um jardim especial. No jardim os pássaros sempre cantavam, não importava a hora, dia ou estação que você lá, os passarinhos sempre estariam a cantar o tipo de melodia que traz memorias distantes aos homens.

No meio do jardim havia um banco, um banco branco, parecido com aqueles que têm nas praças, parecido até demais. E no meio do banco havia um homem, os fios acinzentados no cabelo que estava todo penteado para trás era um dos sinais que a idade havia deixado no homem. Ele vestia uma camiseta preta com um bolso na frente e uma calça bege, seus sapatos eram incrivelmente brilhantes, e uma bengala estava encostada no banco, ao seu lado.

O homem observava a noite e a noite a observava, naquela noite não havia lua e isso trazia muitas lembranças ao velho que estava sentado em seu jardim.

O velho ouviu passos, vindo ao longe de dentro da casa, os passos se aproximavam aumentando cada vez mais, eles viam em um ritmo cadenciado, e se o homem não conhecesse aqueles passos ele poderia jurar que eram os passos de uma só pessoa. Mas ele conhecia.

Os adolescentes surgiram ao mesmo tempo na entrada do jardim, enquanto o garoto se apoiava nos joelhos, a menina encostava-se a uma arvore, recobrando o folego.

— Eu ganhei! — Exclamou a menina, ainda ofegante. Ela vestia uma calça jeans azul, e uma camiseta branca de mangas longas, o cabelo louro estava preso em uma longa trança que descansava em seu ombro, seus olhos eram de um castanho extremamente claro, o que combinava com seus olhos. Aparentava ter por volta de catorze anos.

— É claro que não, eu cheguei muito antes — disse o menino, que vestia uma camiseta preta e uma calça jeans também preta. Ele tinha os mesmos cabelos louros que a menina, embora seu cabelo fosse curto e estivesse totalmente bagunçado. Os seus olhos eram azuis e o seu rosto parecia muito com o da garota.

— O vovô viu, ele decide — disse a garota com as duas mãos na cintura. — Quem ganhou vovô?

O avô dos garotos tinha se virado para eles e exibia o sorriso mais genuíno que alguém pudera receber.

— Não sei meus queridos, meus olhos já não são tão bons — o homem disse enquanto se levantava e abria os braços. — Agora venham aqui e deem um abraço no seu avô, já faz um bom tempo que não os vejo.

Os garotos correram para o abraço do velho, e por ali ficaram por um tempo que para o mundo parecia um piscar de olhos, mas para eles durou toda uma eternidade.

Depois que se separaram o avô apontou para que sentassem no banco, enquanto ele colocava a bengala ao lado do seu pé.

— Vô, sentimos muito pela vovó — disse o menino em tom de desculpas.

A menina concordou com a cabeça, abraçando o braço do velho.

— Tudo bem, crianças, ela está em um lugar melhor — o velho respondeu, mesmo que tendo duvidas sobre isso.

Os três compartilharam um silencio por alguns momentos, a noite especialmente escura e a ocasião deixavam o silencio ainda mais intenso.

Depois de algum tempo o velho disse:

— Sabe, quando foi numa noite como essa que eu e a avó de vocês nos conhecemos. Eu estava correndo na beira da praia, como eu costumava fazer quando era novo, mas naquele dia eu resolvi que iria parar em um bar pra tomar um sueco.

O nome do bar era “o boteco”, o bar, apesar de pequeno era muito charmoso, a decoração não lembrava a praia, era quase todo de madeira, e em um pequeno palco uma mulher se apresentava. Ela tocava um violão e cantava uma musica. Eu sinceramente não lembro a musica, mas eu lembro que ela era a mulher mais linda que eu já tinha visto na vida, e que aquela era a voz mais doce de todas.

Eu me sentei no bar e fiquei a vendo se apresentar enquanto tomava meu suco, o bar tinha apenas mais uma meia dúzia de pessoas, o que não fazia sentido nenhum pra mim.

Naquele dia eu tinha algo muito importante pra fazer, eu era diretor de uma empresa, era algo relacionado a isso, eu não lembro exatamente o que. Mas por algum motivo, eu ignorei isso, e fiquei, eu fiquei ali por mais duas horas, sentado sozinho vendo uma musica desconhecida tocar.

Quando o show acabou, eu fui falar com ela, já era tarde da noite, eu ofereci uma bebida pra ela e ficamos conversando ali por mais duas horas. Na época eu não sabia, mas o acaso trouxe diretamente pra mim a mulher da minha vida. Às vezes eu imagino se eu tivesse continuado correndo, se eu não tivesse tido sede, se eu não entrasse no bar pra tomar um suco. Como a minha vida seria, aposto que muito mais sem graça.

Isso aconteceu já faz mais de cinquenta anos, e em cada dia desses anos eu agradeço por ter conhecido a avó de vocês.

E apesar de eu não lembrar de muito que conversamos aquela noite, eu me lembro de uma coisa que falamos enquanto caminhávamos pela calçada da praia.

— Sabe por que em noites como esta a lua não aparece? — Eu perguntei fitando a em seus olhos que pareciam duas pequenas safiras.

— Não — ela me respondeu sem tirar os olhos delas dos do meus.

— Ela sabe que não pode competir com você.