Saudade

Uma fina e gelada garoa caía quando sai de casa e caminhei até a moto. As ruas estavam desertas, durante todo o meu percurso não vi quase nenhum carro. O mundo parecia querer deixar a situação ainda mais melancólica do que já era. A lua insistia em ficar no céu mesmo com todas as nuvens, talvez ela também queira ver o que vai acontecer.

Quando cheguei, ela já me esperava sentada em baixo da árvore onde tantas vezes ficamos, está seria a ultima. Ela iria embora, uma oportunidade de emprego surgiu para seu pai na França, algo assim, eu não tinha entendido direito, e nem importava, a única coisa que importava é que aquela era a ultima vez que eu iria vê-la.

Estacionei a moto e caminhei até o lado dela, me sentei em silencio, admirando o céu. Depois de alguns minutos ela quebrou o silencio e disse:

— Sabe, apesar de tudo, de ter que ir embora, de ter que te deixar aqui, de estar mais triste do que nunca por isso, eu não mudaria nada. — Ela só ficava ainda mais linda quando a chuva caía nela e deixava seu cabelo encharcado.

Eu não respondi nada, não sei se tinha entendido o que ela queria dizer com aquilo, mas eu sabia que queria aproveitar cada pequeno minuto que ainda tinha com ela.

Ficamos seis horas sobre aquele velho carvalho, conversamos sobre tudo e nada, conversar na verdade era só uma desculpa para poder ouvir sua voz.

A chuva já tinha parado há algum tempo e o sol já estava nascendo, eu estava feliz por estar com ela, mas estava triste porque aquele era o fim.

— Eu tenho que ir. — Ela disse se levantando.

— Vamos. — Eu disse também me levantando. — Eu te acompanho até sua casa.

Fomos andando, tudo que eu não queria era ir rápido, na nossa ultima conversa falamos sobre Paris e a torre Eiffel e como eu gostaria de ir até lá algum dia.

Nós chegamos.

Ela virou para mim e me beijou. Foi um longo beijo, que pareceu durar horas e ao mesmo tempo centésimos, ela par1’ou de me beijar, e disse:

— Eu te amo!

Ela virou as costas e foi embora.

Mas aquele momento seria lembrado para todo sempre, para toda a minha existência eu lembraria, foi lindo, não só pelo amor que tinha envolvido, pela melancolia da despedida, ou pela dor que a saudade iria deixar. Foi lindo porque foi único, e porque é por momentos como esse, momentos que você não percebe que está passando é que se vale a pena viver.

E em algum canto do céu a lua invejava aquele momento, que embora curto, era também infinito.

E eu? Eu sentia saudade.

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