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Eu morava na favela não fazia muito tempo. Consegui alugar o primeiro andar de um duplex junto com um jovem universitário que acabara de iniciar os seus estudos. Certa manhã eu ouvi o barulho de tiros debaixo da janela da minha casa. Ouvi uma sequência de 4 tiros e os anteriores foram os que me acordaram, provavelmente no total tivera sido 6. Corri para olhar o que havia acontecido e pude ver 3 homens subindo em suas motos, um cadáver estirado no chão completamente sujo de sangue e com o passar do tempo algumas pessoas se aproximando cada vez mais ao seu redor. Parecia ser um homem de uns 30 anos. Os seus olhos estavam arregalados, fixados aos meus. Realmente parecia me olhar e eu não gostava daquela sensação. Experimente encarar os mortos, parece que acaba havendo uma comunicação entre olhares e uma voz diz na sua cabeça: “Você será o próximo.” Aquelas pessoas se juntaram ao redor do morto. Algumas crianças que estavam caminhando para a escola pararam para olhar, animados, assustados, outros começavam a brincar e correr. Eu observava de cima todas aquelas pessoas. Após alguns minutos pude ouvir gritos, alguém começara a chorar. O corpo havia sido reconhecido e provavelmente era uma pessoa querida. Todos no final são queridos por pelo menos um ser de boa alma. Aquela não era uma boa cena para começar o dia. Em seguida chegaram os policiais. Eu seria interrogado. Quando uma pessoa morre na frente da sua casa você nunca sai livre de preocupações, mas tudo o que eu queria era liberdade. Naquela época eu acabara de me mudar para a favela ouvira muitas vezes pessoas falarem sobre o perigo de morar em um local como aquele, mas os filhos da puta nem sequer mexiam um dedo para tirar conclusões empíricas. Mas eu estava lá, diante da violência que tanto comentaram. Eu estava vivo, e era isso que importava. Algumas horas mais tarde policiais bateram à minha porta. Eu já sabia quais seriam as perguntas e sabia mais ainda que não os poderia falar nada. Eu não queria ser o próximo a morrer naquele local. Chegaram.

- Bom dia, o nome do senhor é Carlos Antonio de Almeida?

- Sim, o que desejam?

- Queríamos fazer algumas perguntas. Se importa?

- Claro que não, podem perguntar.

- Como o senhor sabe, essa manha ocorreu um assassinato em frente à sua residência e precisamos de algumas informações para conseguir capturar os sujeitos.

A partir daí eu já estava imaginando a mesma cena anterior, um homem morto em frente à algum estabelecimento; esse homem seria eu. Acabara de chegar à favela e já estava envolvido em segredos. Estava tendo mais diálogo com policiais do que com os meus próprios vizinhos e isso não era algo aceitável para os que mandam no local. E com certeza não é a polícia. Aqueles filhos da puta estavam ali apenas dando uma de atores. Um bando de escrotos que só servem para pegar o dinheiro do tráfico e encher o cu das drogas apreendidas.

- Sim, eu entendo perfeitamente.

- Precisamos saber tudo o que o senhor viu.

- Eu não vi nada.

- Como assim nada? Um homem levou 6 tiros na porta da sua casa e você não viu nada?

- Eu estava dormindo, não tive como ver.

- Tem certeza que não pode nos dar nenhuma informação?

- Informações eu tenho, só não sei se seriam úteis para o caso.

- Diga.

- Acordei com o barulho dos tiros e fui até àquela janela ver o que havia acontecido.

- E o que você viu?

- Um homem morto e pessoas ao redor.

Ficamos alguns segundos em silencio. O policial que fizera as perguntas parecia um pouco irritado. Ele estava irritado. Mas não poderia fazer nada comigo.

- O.k. Obrigado. Isso é tudo.

- Nada. Se precisarem de mais algo… Vocês sabem onde eu moro.

- Bom dia.

Foram embora. Eu estava nervoso durante o interrogatório, mas acho que consegui disfarçar bem. Provavelmente todos da favela já sabiam que os policiais haviam feito perguntas para mim. Isso não era bom. Viriam tirar satisfação, perguntar o que eu disse, era tudo uma questão de tempo. Fui preparar o meu café. Sentei ä mesa da sala e fiquei esperando. Acendi um cigarro, pus o açúcar na xícara e pensei sobre tudo aquilo. Pensei sobre o motivo da morte. Perguntei-me o porquê de decidirem matá-lo na frente a minha casa. A sorte nunca estava comigo. Pensei sobre a minha vida. Um mestre de obras fodido que nunca teve muitas oportunidades. Ouvi algumas batidas na porta. Tive medo, quem poderia estar batendo à minha porta? Ninguém nunca bate. Abri. Era o meu vizinho estudante. Uma onda de alívio passou por todo o meu corpo. Ele perguntava sobre as respostas das minhas perguntas. Sabia tão bem quanto eu que o segredo para sobreviver ali era sempre negar. Somos cegos. Todos nós nunca vimos nada. Existem 4 tipos de pessoas no mundo, os que vivem, os que matam, os que apenas observam e os que não fazem nada. Nós éramos o estorvo.

Tudo ocorrera bem durante o resto do dia. Às 12 horas fui trabalhar. A vida seguia normal. A morte não fazia a vida parar, muito menos na favela. As pessoas daqui já aprenderam a encarar aqueles olhos. Às 21 horas eu voltava para casa. Peguei meus dois ônibus diários, tirei um cochilo até chegar à minha parada. Desci do ônibus. Caminhei em direção à minha casa. Eu estava louco para tomar um banho e capotar na cama. Havia passado o dia em uma obra do outro lado da cidade. Estava morto de cansado. Estava próximo de casa e fui pegando as chaves no meu bolso. Quando cheguei para destravar o cadeado do portão dois homens de moto me mandaram parar. Eu senti medo. Já havia entendido o que eles queriam comigo. Fariam perguntas da mesma forma que os policiais, mas de brinde com uma leve ameaça de morte.

- A gente sabe que você falou com os homens.

- Sim, eles me fizeram pergunta sobre o que teve hoje de manha.

- Sim, e ai? Tu falou o que?

- Falei que eu não vi nada.

- Tu tem certeza, véi? Se algum da gente se foder tu vai ser o primeiro a pagar o preço.

Eles estavam armados. O outro apenas ficara atrás de mim enquanto o da frente falava mostrando a arma na cintura. Eu estava com medo, mas sentia que eles não iriam fazer nada comigo.

- Eu não falei nada.

- Eu já ouvi. Só fique ligado.

- O.k.

Foram embora rapidamente e eu pude subir para a minha casa. Estava nervoso. Minhas mãos tremiam um pouco e eu não sabia muito bem o que pensar. Mas de certa forma sentia uma tranquilidade. Restava-me esperar e ver o que iria acontecer dali em diante. Mas nada aconteceu. Continuei vivendo ali e aos poucos fui ganhando o respeito dos moradores. Chamavam-me de “coroa”. Durante o restante da minha vida vi mais muitas mortes. Não aconteceram mais na frente da minha casa e eu estava livre para ir e vir. A violência na favela existe, mas por trás daquilo tudo há um contexto que só entenderia quem viveu.

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