A Sociedade da Desconfiança

A loja de departamento “Lebes” conduziu um verdadeiro experimento social em comemoração ao Dia do Amigo. No centro de Porto Alegre, região não exatamente conhecida por sua segurança, a loja dispôs 100 peças de roupa em dois cabides e um cartaz orientando o público a depositar R$ 10 em uma urna para cada peça que levasse. Não havia nenhum vigia ou atendente para garantir o pagamento, ou mesmo a segurança da urna em si.
Das 100 roupas retiradas, 98 foram pagas corretamente.
Nesse momento histórico em que muitos tentam diluir a culpa da inacreditável corrupção praticada pelos políticos em Brasília em abstrações como uma “cultura de corrupção”, algo que estaria no DNA dos brasileiros, a lição de ética dada por 98% das pessoas que participaram desse experimento deveria calar para sempre os intelectuais isentões.
Mas acredito que a lição mais importante no episódio só pode ser aprendida através de Alain Peyrefitte.
Em “A Sociedade de Confiança”, Peyrefitte argumenta que o fator mais decisivo para a prosperidade ou fracasso de uma sociedade é o valor que sua cultura coloca na confiança mútua entre as pessoas. Uma sociedade de confiança permite uma alocação ótima de recursos, que não precisam ser desperdiçados em precauções e medidas protetivas.
O Brasil é uma sociedade de desconfiança. Criamos incontáveis leis, decretos, portarias e regulamentos, alvarás e licenças, a burocracia cartorial de reconhecimentos de firma, autenticação de cópias, registros de documentos, tudo para evitar desvios nas transações entre indivíduos, que presumimos sempre estarem de má-fé.
Um sistema rígido e sufocante de controle “na origem”, onde empreender sem ser ungido com o santo carimbo estatal é crime; um sistema que incentiva o gasto com despachantes, contadores, advogados e, acima de tudo, lobistas, sobre o investimento em produtos ou serviços de qualidade e inovadores. Um sistema que penaliza apenas os que tentam cumprir a lei, estrangulados por exigências que os desonestos irão contornar — por exemplo, subornando fiscais.
Tudo isso por 2% da população, como demonstrou a Lebes.
O Brasil precisa apenas de um sistema simples, composto de poucas leis que sejam conhecidas por todos e aplicadas com rigor aos 2% que quebrarem a confiança da sociedade.
