Indigestão emocional

“Indigestão emocional, doutor” disse, sem rodeios, reparando que a lente de seus óculos era pequena em demasia para tamanho rosto.

Trava-se um monólogo. “Indigestão emocional”, repito, mais firme e autoconfiante, no tom de quem acaba de decidir o nome do filho e testa sua sonoridade.

“Acho que dessa forma descrevo bem. Sinto azia de sentimentos turvos, um leve incômodo estomacal provavelmente causado por palavras que não deveriam ser tomadas e atitudes que não deveria ter pronunciado. O vazio, doutor, será que é um sintoma também ou uma consequência desses anos procurando sabe-se lá o quê? Não me sinto estufado mais. Provo de quantos amores forem, alguns doces, outros azedos e não me sacio. Já tentei desde bocas refinadas que estampavam cinco estrelas em seu contorno a corpos sem rosto just for the sake of it. One-night stands, fast-fucks e ‘marcamos algo sim’. Me sinto vazio. Stuck in reverse, sabe? Paixões não me bastam e a falta delas me enlouquece”

Antes dos olhares de reprovação, lanço minha mochila aos ombros, levanto e afirmo, como quem detém, soberana, a razão:

"Desaprendi a amar"

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.