Piegas

ontem te vi
e depois desses quase dois anos
tudo em mim permaneceu igual

não havia nó na garganta
o peso dos ombros não encontrei mais

não pude cumprimentar minha ânsia por aceitação
passamos por desconhecidas
já não a via há tempos

teu molde nunca tinha me vestido bem
apertava o senho
fisgava a alma
roubava meus sonhos

* * *

naquela noite, na rodoviária,
fiquei aos trapos

incerto,
tão incerto de tudo

não por ônus teu
mas por inocência minha

* * *

obrigado por ter vindo
e ensinado

ensinado que a vida não é
tudo aquilo que eu acreditava

obrigado por ter ido
e não mais voltado

obrigado pelo benefício da dúvida
pelos braços meus sozinhos a ancorar
pedindo socorro em mar aberto

* * *

naquela tarde de desespero
emergi de passada loucura

cheguei à superfície
reencontrei a mim

fiz pazes com meus orixás
encontrei o caminho de volta ao lar

por ter ido,
obrigado.

* * *

e quem dera
quem dera
que metade dessa tentativa de poema
fosse sincera

tu me possuías
e eu tua metáfora,
ainda que torta,
perfeita

para mim
foste meu caleidoscópio,
mesmo quebrado e remendado,
preferido

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