O que os “empreendedores de palco” oferecem?

Foto: Campus Party Brasil

Eu me interesso por empreendedorismo há mais ou menos um ano e meio e acho esse mundo sensacional. É muito legal ver pessoas seguindo seu sonho e fazendo algo que gostam se dando bem e, muitas vezes, com sua empresa ajudando outras pessoas. Mas o conceito de empreendedorismo e empreendedor tem sido muito deturpado, até porque isso é algo muito recente no Brasil, então aparece muito aventureiro malandrão que se diz empreendedor.

Fui no site do Sebrae agora e peguei uma definição bacana: “Numa visão mais simplista, podemos entender como empreendedor aquele que inicia algo novo, que vê o que ninguém vê, enfim, aquele que realiza antes, aquele que sai da área do sonho, do desejo, e parte para a ação”.

Via de regra, o empreendedor é aquele que cria uma empresa, quase sempre startup (com base tecnológica e com potencial de alto crescimento). Pois bem… algum desses “empreendedores de palco” fazem isso? Pouquíssimos né. A maioria lança curso ou e-book, mas não tem de fato um produto ou serviço que oferece para seus clientes.

Não quero citar nomes, mas esses que se dizem empreendedores e estão crescendo através das redes sociais não tem nada de empreendedor. Talvez até já foram um dia, tem cara que já ganhou prêmio por site que teve e outro que era bom no marketing online (ajudava empresas a vender produtos e cursos pela internet). Mas hoje eles nem ensinam mais isso, são basicamente motivadores. Eles gravam vídeos tentando encorajar as pessoas a sair da zona de conforto, ser bem sucedido, ganhar dinheiro, enfim… Tudo que os livros de auto-ajuda já fazem.

Todos esses “empreendedores de palco” tem uma coisa em comum: vendem cursos ou e-books. Eles fazem vídeos ou textos gratuitos e depois algo que você tenha que pagar. Note que esses cursos, quando presenciais, são sempre iguais, ou seja, eles vão falar a mesma coisa para 200–300 pessoas. Como eles vão conseguir fazer uma pessoa empreender com sucesso passando a mesma mensagem para tantas pessoas?

Verdade seja dita, esses caras são carismáticos. Todos eles se comunicam bem e oferecem um curso para ajudar essas pessoas que mal sabem o que querem. O que elas querem? Talvez ganhar muito dinheiro; abrir um negócio para não ter chefe, enfim… Mas aposto que se perguntar sucintamente de um a um: Por quê você está fazendo o curso? As respostas serão vagas.

Acredito que eles conseguem mudar algumas pessoas, mas não com empreendedorismo e sim com motivação. Tem muita gente que está desmotivada e umas simples palavras de incentivo já fazem o cidadão “sair da zona de conforto”, mas sejamos sinceros…Isso acontece com a minoria. Fora que dessa maneira é impossível quantificar o sucesso desses cursos ou e-books. Como dá pra saber se o resultado desses cursos foi positivo ou não? Pelo número de empresas que os participantes criaram? Talvez seja a única métrica razoável, o resto é intangível.

Alguns vão defender: “Eu fiquei mais feliz depois do curso”; “Eu passei a enxergar coisas que eu não via antes”. Mas na prática, como isso mudou sua vida? Acho que teremos raríssimos casos. E para os palestrantes é muito cômodo: se os participantes gostaram, é sinal que meu curso é bom e vale a pena ser feito, caso contrário… Ah, aí faltou esforço da própria pessoa.

O empreendedorismo está muito mais avançado nos Estados Unidos, até porque começou a crescer lá pelo fim da década de 90 e aqui há menos de dez anos e a grande diferença é: lá os empreendedores são aqueles que, de fato, criam uma empresa e/ou já fizeram isso e passam a investir nessas startups, seja com fundos de investimentos ou como investidor anjo. Ex: o fundador do Twitter criou outra startup (Square) e o israelense que fundou Waze já criou várias outras. E, por incrível que pareça, aqui no Brasil também é assim. Me lembro agora do Romero Rodrigues, um dos fundadores do Buscapé que agora investe nessas empresas nascentes, o Tallis Gomes, que fundou o Easy Táxi e agora tem outra startup, chamada Singu. Tem também a Samba Tech, do Gustavo Caetano, que criou novos produtos e mantém a startup mesmo depois de receber muitos investimentos e não ser mais sócio majoritário, enfim… Esses são empreendedores!

Foto: Henrique Chendes/Imprensa MG

Para as pessoas que querem seguir os exemplos dos empreendedores citados acima, há várias maneiras. Caso você só tenha uma ideia ou o desenvolvimento do seu produto está somente no início, você pode procurar uma incubadora. Se já tem um protótipo e quer crescer seu negócio, aí provavelmente o mais ideal é procurar ajuda de uma aceleradora. Num estágio mais avançado, onde já está com o produto funcionando, com clientes, mas precisa de dinheiro para alavancar sua empresa, ainda assim existem investidores anjo, fundos de venture capital e outros meios de pegar dinheiro em troca de participação da sua empresa.

O parágrafo acima é a grande diferença entre o que quem quer empreender procura e quem quer ser motivado procura. Quem tem uma startup ou quer empreender tem todos esses meios práticos de ir adiante. E há uma enorme diferença entre os investidores e os “empreendedores de palco” : os empreendedores só vão pagar muito para os investidores se tiverem sucesso, porque eles vendem uma % da sua empresa. Já com os empreendedores de palco não, eles vendem o curso/livro e pronto, provavelmente nem sabem o que aconteceu com a imensa maioria de seus “alunos”.

O curso pode até ser um bom pontapé inicial pro cara se motivar e começar a colocar as ideias em prática, mas desenvolver essas ideias e se tornar num empresário de sucesso… Isso não acontece.


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