BAHIA, ENTRE MITOS E VERDADES

Por: Carolina Portela e Gabriel Andrade

Como a construção da ideia do que é ser baiano tem sido usado como ferramenta para vender a “marca Bahia”
Elevador Lacerda, um dos mais famosos cartões postais de Salvador | Foto: Jota Freitas — Setur/Divulgação

Terra de carnaval, axé e mistura étnica. Terra da preguiça, da voz mansa e calmaria. Estes são os signos que permeiam o imaginário popular quando se trata da Bahia. Não são poucos os produtos culturais que reforçam esta imagem, desde Dorival Caymmi que ficou conhecido por cantar sobre as aguas calmas de Itapuã, a É o tchan que mostra o exótico, o dançante.

A criação da “marca Bahia” vem a partir dos anos 70, quando a imagem do estado passa a ser ligada a festividade e atividades lúdicas. A partir disso o setor turístico elevou o posto de Salvador entre as cidades mais visitadas do país.

Essa criação veio no momento em que o turismo, publicidade e mídia sentiram a necessidade de vender seus produtos e hoje a consequência disso é um estereótipo e preconceito sobre a Bahia.

Segundo o Empresário Celmar Batista, atuante no ramo de turismo, é natural que os visitantes se surpreendam ao chegar na cidade de Salvador. “A maioria deles imaginam que aqui é um lugar apenas com rua de pedras, casas no formato colonial e que todo mundo fala arrastado”, completou.

Porém não são todos que concordam com esta imagem da Bahia. Estudiosos como o letrista e professor da UFBA Joachim Michael contestam esta ideia de “baianidade”, “pode-se notar que a Bahia representa o ‘mito do inalterado’, com as baianas do acarajé, capoeiristas e olodum quase presos no tempo. Uma verdadeira projeção ocidental”, conta o pesquisador.

Joachim cita o chamado ‘ciclo de cinema baiano’, que foi um período entre os anos 50 e 60 de grande produção de filmes no estado como exemplo do que ele chama de fetichização do exótico “Autores do Brasil inteiro vieram a Bahia para fazer seus filmes. A maior parte deles com o estado como plano de fundo, mostrando uma clara vontade de mostrar a Bahia à própria Bahia”, salienta.

Filme Bahia de todos os santos (1960), dirigido pelo cineasta paulista Trigueirinho Neto | Foto: Banco de Conteúdos Culturais/Reprodução

Outro aspecto do que se pode chamar de “mito da baianidade” é a “preguiça baiana”, crença que a preguiça faz parte da identidade cultural da Bahia e que os baianos são preguiçosos por natureza. A antropóloga Elisete Zanlorenzi, em sua tese de mestrado “O mito da preguiça baiana” disserta e joga luz sob o assunto. Em seu artigo, considerado uma das bases para se pensar a baianidade, Zanlorenzi conta como a ideia da preguiça baiana tem raízes preconceituosas, foi um discurso criado pela elite da época para desvalorizar os negros.

Já a baiana Bruna Carvalho, estudante de direito da PUC-SP, conta que por conta desse estereótipo enfrentou dificuldades ao se mudar para São Paulo. “As pessoas lá não acreditavam em mim, achavam que eu não era capaz e não queria fazer as coisas por preguiça”, revelou.

Charge produzida pela página “O baiano e o gaúcho” em que retrata o estereótipo baiano no sul do país. | Foto: Groeland/Reprodução

Além do preconceito, a antropóloga, em sua pesquisa, indica ainda outros motivos para a criação deste mito. São eles a industrialização tardia de Salvador, a indústria do turismo, que mostra somente o aspecto divertido da festa, o discurso da imprensa, que transmite apenas o lado trágico das migrações, e a indústria da seca, que forjou uma imagem do nordeste ligada à incapacidade profissional para justificar a necessidade de investimentos na região.

O historiador Rafael Oliveira, acredita que, apesar da baianidade ser uma construção, existem aspectos orgânicos e naturais “nada no brasil é orgânico, tudo é construído. O estado nação foi construído, este mito de democracia racial foi construído. Porém dentro da construção têm coisas orgânicas, coisas que são tipicamente baianas”, salienta.

Atualmente, a página no facebook Frases de Mainha utiliza o humor para enaltecer e divulgar a cultura afro-baiana. Além de elaborar vídeos com temas que mostram a realidade da vida de uma baiana, mãe e solteira de forma descontraída, os internautas tem a possibilidade de interagir mandando frases ditas por suas respectivas mães, expressando a baianidade das mesmas. Mostrando que é possível usar o humor para combater o estereótipo.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.