Levi sorriu
Eu, por mim, publicaria, na primeira página de qualquer tablóide, a manchete imensa: Levi sorriu. Não ligo se alguém disser que é notícia velha, o importante é que Levi esgarçou os lábios em inebriante alegria. Um ou outro dirá que nem notícia é, afinal, o que há de novo em um bebê sorrir? Eu sustentarei, na reunião de pauta do jornal, que Levi sorrir importa mais do que uma decisão do prefeito, do que uma sessão da Câmara, do que a morte de uma eminente figura municipal.
Direi em favor das gengivas expostas da boca babona de Levi que ele não apenas sorriu. Ele lançou mão de seu sorriso para manter-se no colo de sua tia. Levi aprendeu que, ao sorrir, derrete tias que o acolhem em ternos abraços. Pessoas derretidas são mais suaves, mais doces, mais humanas. Acontece que a tia de Levi é uma bela mulher. Então o sorriso do garotinho ganha, para os adultos, uma significação que não foi dada por ele. Dirão que Levi não é bobo, que manter-se no colo de uma linda moça é coisa de rapazote sabido. Mas não. Levi aconchegou-se a ela porque certas mulheres trazem em si o encantamento do afeto, e crianças vêm com anteninhas pra isso.
A mãe de Levi quis toma-lo nos braços. Mas ele se virou para o lado contrário, em veemente negativa, aninhando-se, com sua índole de filhote, no pescoço da tia. A mãe, desconcertada, empenhou-se em reiteradas tentativas de sedução para resgatá-lo. Mas foi para a tia que ele sorriu uma vez mais, e outra e mais outra, provocando, na família inteira, a algazarra benigna diante de uma rejeição de mentirinha.
A mãe fingiu incontornável ciúme, simulou entregar o filho à tia que, derretida até o chão, pôs-se a cobrir o menino de beijos estalados. Ao final da troça coletiva, Levi retornou ao colo da mãe, redimida e recomposta de seu amor próprio.
Levi faz feliz a tia, faz feliz a mãe, não apenas por ser filho e sobrinho, mas por ser criança.
Levi sorriu. E, quando uma criança pequena sorri, nos conduz ao terreno das emoções profundas, à evocação da memória de nós mesmos, de nossos pais, de nossos avós, irmãos, primos, do que há de ancestral na vocação gregária dos seres humanos. Levi sorrir merece a primeira página por nos lembrar de nossa humanidade. Não fosse por isso, teria merecido apenas por derreter uma bela mulher.